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O que andam cultivando na pandemia?

O que andam cultivando na pandemia?

A globalização trouxe acessibilidade e informações que, certamente, um nobre dos tempos medievais jamais sonhou em toda a sua vida. Ela acelerou muitos processos e mudanças. Trouxe o mundo para as mãos; notícias que precisavam, literalmente, cruzar oceanos de distâncias para se proliferarem, atualmente, chegam em um clique. Curas de doenças, desenvolvimento científico, conhecimento de fácil acesso.

Para além de toda a evolução e melhorias da atualidade, também vem de avião uma pandemia, por exemplo. Historicamente, as sociedades já viveram diversas epidemias avassaladoras da vida, guerras, catástrofes... Muitas mortes seguem o seu fluxo numérico, até maiores do que temos visto diariamente com o COVID 19. Mas gostaria de me ater ao fato de que, nas gerações vivas neste século, foi a primeira vez que vimos globalmente o mundo parar.

Venho então, compartilhar algo que tem me chamado a atenção por seus excessos e falta: o individualismo e a coletividade. Para tal, tomo como exemplo, duas situações da presente semana, o suicídio de uma senhora conhecida de setenta e poucos anos, e a morte do negro norte-americano George Floyd, e as decorrentes manifestações.

O primeiro se refere a uma senhora, que vivia em um quarto de hotel, já que a família não tolerava suas posições e convívio. Brigada com a filha e com filho que mora no exterior, sofria de depressão há, pelo menos dez anos e sempre avisava que a sua morte estava próxima. Mas a família, implícitamente exímia-se da culpa, apontando para as escolhas que a senhora fez em sua vida.  

Não julgo de maneira nenhuma, as possibilidades que a senhora via no suicídio, entretanto, muito pensei sobre a dualidade apresentada. Será que ela tomou uma atitude individualista, tendo deixado claras suas intenções, por dez anos? Ou terá sido uma atitude individualista, de deixar o problema do outro para o outro e não querer dar amor e se lançar a servi-lo?

O segundo caso é público, informação divulgada em tempo real, sobre a morte do negro norte-americano George Floyd, que agonizou sob o joelho de um policial branco, suplicando pela vida por oito minutos, que após socorrido, chegou ao hospital morto. Os últimos três dias têm sido de intensos protestos, iniciados na cidade de Minneapolis, se alastrando em outras cidades dos EUA. Sim, protestos em meio a uma pandemia, no país em que há mais número de mortos. Mas não seria um exagero protestarem agora? Quero trazer mais algumas informações. Esse não é o primeiro caso de violência de policiais brancos a pessoas negras, mas faz parte de uma série de casos de suposto abuso de autoridade decorrente do racismo, que parecem não ter fim. Não tenho intenção de responder às perguntas, apenas deixá-las para o livre reflexão.

De acordo com a reportagem do G1[1], desde 2013, a recorrência desse tipo de violência inspirou diversas manifestações, como o movimento #BlackLivesMatter, divulgado por celebridades como Beyoncé e o jogador de basquete Lebron James. As manifestações violentas, com incêndios de diversas localidades fazem parte desses protestos. Não quero fazer apologia à violência e nem acredito nela como solução, e, como diz Anderson Bomfim: “nossa bandeira é o amor”, e eu creio nessa bandeira como prática de vida.      

Ao longo da semana fui intimamente confrontada pelos 'ismos' expostos no isolamento de uma pandemia, o individualismo e o racismo. Isso gerou em mim uma intensa vontade de ser cada vez mais coletiva e servir me doando em amor. A quem? A todos que cruzaram a minha existência. E para mim, isso se trata da perspectiva cristã. Poderia começar pela Bíblia, mas prefiro com ela finalizar o pensamento.

O racismo como ele é

Em decorrência das minhas pesquisas acadêmicas realizadas nas últimas semanas, e leituras sobre a questão do racismo, gostaria de compartilhar com vocês pequenas reflexões. A primeira delas é que não temos uma democracia racial no Brasil. Nosso vocabulário e, por vezes, nossos comportamentos são carregados de práticas racistas, por exemplo, quando falamos que a “coisa está preta” (pelas suas intensas dificuldades, porque preto é difícil, não é?) ou quando, desde pequenos, aprendemos a associar cabelo ruim a cabelo duro, cabelo de preto, não é? Ou o racismo recreativo, ligado ao humor. Quem nunca ouviu uma piada desqualificando a pessoa por ser negra? Muitos processos judiciais de racismo, como injúria no Brasil, são arquivados pelas colocações racistas serem justificadas como prática de humor, logo, uma diversão não dotada de caráter ofensivo.

Considero o racismo como estrutural. O que é racismo estrutural? Vou explicar com um exemplo. Se eu te pedisse para pensar em turistas passando férias em Fernando de Noronha e em moradores da favela da Rocinha na cidade do Rio de Janeiro. Pensou? Agora quero te perguntar, qual é a provável cor dos turistas de Fernando de Noronha, brancos ou pretos? E agora me fale sobre os moradores da Rocinha? Muito provavelmente, você pensou os primeiros como sendo brancos, e os segundos como sendo pretos.

Não se sinta constrangido, pois isso não te dá o título de racista ou não. O que esse exemplo mostra é que o racismo é estrutural, e isso não se deve a um pensamento simples, por mais que você não goste, ou ainda não tenha percebido. Existem conhecimentos que se conectam sem que você os perceba. Em frações de segundos, você puxou das lembranças que no Brasil ingressaram, durante três séculos de escravidão, 4 milhões de africanos para serem mão de obra, privados de sua humanidade, tidos como bens móveis. E que, quando da abolição da escravidão (1888), que tem pouco mais de 130 anos, os negros tinham dificuldades de ingressar no mercado de trabalho, de terem condições dignas de vida e de escolaridade, sofrendo com violências e degradações sociais.

O racismo estrutural traz a consequência de uma enorme desigualdade racial.

Desde a década de 1970, em diversos países, os movimentos negros têm lutado pelos direitos dessas minorias. Aí poderia surgir a questão, por que se diz minoria, se segundo dados do censo brasileiro, a população declarada negra é maior em número? A expressão 'direito das minorias' não diz respeito ao quantitativo menor (em números) do grupo representado, mas sim a que, mesmo sendo maioria populacional, tem direitos pormenorizados. Contudo, no Brasil, somente nos últimos 20 anos, pode-se acompanhar um robustecimento das políticas públicas buscando diminuir essas desigualdades sociais, o que tem sido realizado pelas políticas de ações afirmativas, como cotas raciais para universidades públicas ou para serviços públicos.     

A antropóloga Lilia Schwarcz, ao abordar as questões de raça e gênero, e mencionar a “cultura do estupro”, traz uma importante reflexão:

“Cultura funciona como uma segunda natureza; gruda tal qual tatuagem. Sua inclusão no cotidiano é tão “natural” que esquecemos que ela é feita de muita construção política, social e humana” (2019, p.189).

A etimologia da palavra cultura está ligada ao cultivo da terra. Quero trazer uma reflexão para esse cultivo, como um exercício diário, que fazemos em relação a tudo o que nos move e para onde nos movemos. E mesmo que não percebamos nos detalhes das nossas práticas, algo estamos cultivando. Meus pensamentos se voltam para o que temos cultivado como cristãos em relação a esses 'ismos', o tal do individualismo e do racismo.

O que Jesus, o próprio Cristo, tem a me ensinar sobre isso? Com certeza, Ele não fazia acepção de pessoas. E quando leio as Escrituras, percebo detalhes preciosos. João 4 traz o relato de Jesus conversando com uma mulher samaritana, e nessa história fica muito claro que, além de ser movido pelo amor, Jesus não se importava de romper com os achismos e preconceitos de sua época.

Ele fala com uma mulher, que pela descrição bíblica, fora buscar água em horário incomum, e era samaritana, pessoas com as quais os judeus não falavam. E ali, diante da verdade revelada de Jesus, aquela mulher foi empoderada. Não estou falando de um feminismo panfletário, nem de sutiãs queimados, estamos falando de uma mulher que foi cheia do poder de Deus e teve ousadia para propagar aquele amor para toda uma cidade.

Acho interessante como é prático o ensinamento que “o amor lança fora todo o medo” (I João 4:18), pois aquela mulher que provavelmente era mal vista naquele povo, quando cheia do amor de Deus, fez o povo ter curiosidade de conhecer quem era aquele que ela havia encontrado.

Jesus foi crucificado mesmo sendo inocente, e ao seu lado tinha um malfeitor, acusado por sua impunidade, mas que pediu por sua vida e Jesus teve misericórdia e o salvou. Sinceramente, é com esse Jesus que quero ser parecida, quero ser discípula desse amor e misericórdia.

Finalmente, me questiono bastante se tenho sido discípula do amor antirracista e não individualista, ou tenho sido crente só de prosperidades e orações atendidas? Creio que Deus faz prosperar, atende orações, dá maravilhosas bênçãos todos os dias. Mas também creio que o amor ao próximo seja um processo de bons cultivos, de visualizar um coletivo, uma prática de necessária alteridade que consiga olhar para o outro sem julgamentos, achismos ou preconceitos, respeitando as diferenças e servindo a todos em amor.      

 

Ana Gabriela Saba

Rio de Janeiro, 29 de maio de 2020.

 

Bibliografia complementar:

ALMEIDA, Silvio. Racismo Estrutural. São Paulo: Pólen, 2019.

MARÇAL, José Antonio; LIMA, Silvia Maria Amorim. Educação escolar das relações étnico-raciais: história e cultura afro-brasileira e indígena no Brasil. Curitiba: InterSaberes, 2015. 

MOREIRA, Adilson. Racismo Recreativo. São Paulo: Pólen, 2019.

RIBEIRO, Djamila. Pequeno Manual Antirracista. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

SCHWARCZ, Lilia. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

 


[1] Disponível em: https://g1.globo.com/mundo/noticia/2020/05/29/manifestantes-invadem-delegacia-em-minneapolis.ghtml Acesso em: 29/05/2020.

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Natural de Santiago do Chile, moradora do Rio de Janeiro. Formada em História, com mestrado em Educação e doutoranda em Memória Social. Educadora e pesquisadora de projetos educativos em relação ao Patrimônio Cultural.

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