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A importância de uma Espiritualidade Saudável no Tratamento da Saúde Física.

A importância de uma Espiritualidade Saudável no Tratamento da Saúde Física.

 

A IMPORTÂNCIA DE CONTEXTUALIZAÇÃO

Independente da opinião ou crença pessoal a respeito da relação de fé, espiritualidade e a ciência, mais especificamente aplicada a saúde física do paciente, é importante considerar e respeitar o contexto religioso e cultural em que estamos inseridos, tanto pacientes, quanto agentes de saúde.  O fato é que no Brasil, 95% dos brasileiros declaram ter religião, 83% consideram religião muito importante para suas vidas e 37% frequentam um serviço religioso pelo menos uma vez por semana[1]. Ao contrário do que se imagina, o nível educacional, a renda e a raça não se associam de modo independente a indicadores de religiosidade. Em linha com o sincretismo brasileiro, 10% frequentam mais de uma religião.

 

PACIFICANDO AS RELAÇÕES.

Estudos históricos recentes de alta qualidade que investigaram fontes primárias têm mostrado, de modo convincente, que a ideia de um perene e inevitável conflito entre ciência e religião foi um mito histórico criado no final do século XIX. Essas relações foram por vezes tensas, mas foram sobretudo neutras ou harmônicas, havendo apoio e estímulo a pesquisas por parte das crenças e instituições religiosas, a ampla maioria dos fundadores da ciência moderna, por exemplo: Bacon, Descartes, Galileu, Kepler Newton, Boyle, eram não apenas religiosos, como tinham motivações religiosas para promover a revolução científica e conduzirem suas pesquisas. Viam o estudo científico da natureza como uma via privilegiada para conhecer "a sabedoria e inteligência do criador"[2]. Segundo Alexandre Moreira Almeida, professor adjunto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Juiz de Fora. Diretor do Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da UFJF:

A maioria das pessoas tem opiniões sobre o tema, mas habitualmente essas opiniões foram formadas sem uma análise aprofundada das evidências disponíveis. É fácil deslizar, por um lado, para um ceticismo intolerante e uma negação dogmática ou, por outro, para uma aceitação ingênua de afirmações pouco fundamentadas. Não importa se possuímos crenças materialistas ou espirituais, atitudes religiosas ou anti-religiosas, necessitamos explorar a relação entre espiritualidade e saúde para aprimorar nosso conhecimento sobre o ser humano e nossas abordagens terapêuticas.

 

UMA NOVA PERSEPCTIVA

Em relação às evidências científicas, as pesquisas sobre espiritualidade evidenciam grande influência dessa dimensão na saúde física e mental dos indivíduos[3]. Com base nos achados das investigações em espiritualidade e saúde, diversas instituições reconhecem que ela deve ser levada em conta para uma boa prática clínica, interessada em uma avaliação integral do paciente. Neste sentido, as associações mundiais, americana, brasileira, alemã, britânica e sul-africana de psiquiatria, bem como a Associação Americana de Psicologia possuem seções específicas de espiritualidade e ressaltam a importância de reconhecer e avaliar a experiência religiosa do paciente. A Organização Mundial da Saúde (OMS), inclusive, reconheceu oficialmente e inseriu a espiritualidade em seu conceito de saúde. Além disso, centros universitários possuem grupos de pesquisa que investigam esse tema, como as universidades de Duke, Harvard, e de Johns Hopkins, além de diversas escolas médicas internacionais trazem esse conteúdo em seu currículo (90% nos Estados Unidos e 59% na Grã-Bretanha)[4]. Em um levantamento recente, 10.4% das escolas médicas brasileiras possuíam cursos eletivos ou obrigatórios de religião e espiritualidade e mais de 40% vinculavam esse conteúdo para a graduação. Dos diretores das escolas médicas brasileiras 54% acreditavam que esse assunto é importante para ser ensinado em faculdades de medicina[5]. Segundo a perspectiva dos professores Alexander Moreira-Almeida; Giancarlo Lucchetti[6]:

O Brasil tem se consolidado como um ator relevante nesse vasto campo de investigação e, graças à sua população com diversidade e altos níveis de R/E e um crescente número de pesquisadores bem treinados, tem condições de auxiliar de modo significativo na exploração dessa fascinante e desafiadora faceta da experiência humana.

 

A SAÚDE DA EXPERIÊNCIA RELIGIOSA

A grande maioria dos estudos mostra que a espiritualidade possui efeitos favoráveis nos desfechos em saúde, como melhor qualidade de vida, maior sobrevida, melhor saúde mental, maior preocupação com a própria saúde e menor prevalência de doenças em geral[7]. Entretanto, é necessário lembrar que a experiência religiosa pode também ser negativa e estar associada a piores desfechos, como pior saúde mental e maior mortalidade, principalmente se estiver associada a leitura negativa da fé, pensamentos punitivos, como: "Deus está me castigando", "Deus não me ama", dentre outros[8]. A identificação da forma com que o paciente se relaciona com a espiritualidade e a experiência religiosa (positiva ou negativa) é essencial para a prática clínica do profissional de saúde.

 

RELIGIÃO E ESPIRITUALIDADE

Os médicos Hélio Penna Guimarães; Álvaro Avezum, falam no artigo sobre o impacto da espiritualidade na saúde física sobre definir neste cenário que a religiosidade e a espiritualidade, apesar de relacionadas, não são descritas como sinônimos. A religiosidade envolve sistematização de culto e doutrina compartilhados por um grupo. A espiritualidade poderia ser definida como uma propensão humana a buscar significado para a vida por meio de conceitos que transcendem o tangível: um sentido de conexão com algo maior que si próprio, que pode ou não incluir uma participação religiosa formal. A espiritualidade está relacionada a questões sobre o significado e o propósito da vida, com a crença em aspectos espiritualistas para justificar sua existência e significados (Saad et al., 2001; Powell et al., 2003). Eles concluem afirmando que:

A influência da religiosidade/espiritualidade tem demonstrado potencial impacto sobre a saúde física, definindo-se como possível fator de prevenção ao desenvolvimento de doenças, na população previamente sadia, e eventual redução de óbito ou impacto de diversas doenças. As evidências têm-se direcionado de forma mais robusta e consistente para o cenário de prevenção; estudos independentes, em sua maioria de grande número de voluntários e representativos da população, determinaram que a prática regular de atividades religiosas tem reduzido o risco de óbito em cerca de 30% e, após ajustes para fatores de confusão, em até 25%. O desenvolvimento de conceituações de virtudes religiosas, perdão, altruísmo, esperança, prece e voluntarismo, apesar de soar operacional ou métrico, pode definir a nova direção para conduzir estudos de avaliação de espiritualidade e religiosidade.

Pensando ainda na saúde da espiritualidade, observa-se que, nem todo religioso tem uma espiritualidade saudável, contudo, a maioria das pessoas que tem uma espiritualidade saudável, estão engajados com o que o apóstolo Tiago chama de a verdadeira religião.

Tiago 1:26 diz: “Se alguém supõe ser religioso, deixando de refrear a língua, antes, enganando o próprio coração, a sua religião é vã. A religião pura e sem mácula, para com o nosso Deus e Pai, é esta: visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações e a si mesmo guardar-se incontaminado do mundo”.

 

ESPIRITUALIDADE COMO RESGATE
DE SENTIDO E SIGNIFICADO.

Em dias de pandemia global, com estimativas de altíssimas de mortes por dia, podendo chegar a milhares de mortos no mundo, muitos que evitavam pensar sobre a morte, ocupando-se de demandas secundárias, como comer, beber, vestir, passam a ter que lidar com questões primárias, quanto ao sentido da vida e o mistério da morte. Todas as pessoas estão em busca de sentido, contudo, o momento do sofrimento, do adoecimento, da perda, a vida parede perder sentido, muitos podem pensar de forma niilista, de modo que nada mais parece fazer sentido, outros de forma existencialista, por sempre buscar sentido na experiência sensorial, no prazer, diante da adversidade perde total senso de sentido, enquanto.

Nesse momento muitos parecem perder a visão do quadro geral da vida, parecem ser expostas na sua falta de sentido para viver. Umas das maiores crises que se vive têm a ver com justamente não encontrar sentido em uma série de acontecimentos circunstâncias e situações que vivemos no momento presente. O que há de errado conosco? Porque não conseguimos ver nada com clareza? Para onde estamos indo? O professor inglês de Teologia, Religião e Cultura, Alister McGrath, explica-nos em seu livro “Surpreendido pelo Sentido” que:

Ansiamos por encontrar o sentido das coisas. Ansiamos por ver o quadro completo, por conhecer a história em sua totalidade, da qual nossa história é uma pequena parte, mas ainda assim importante. Contudo, como podemos ligar os pontos para descobrir o quadro completo? Vivemos em uma época na qual o conhecimento da internet tornou mais fácil que nunca ter acesso à informação e acumular conhecimento. Mas informação não é a mesma coisa que sentido, e conhecimento não é a mesma coisa que sabedoria. Muitos se sentem engolidos por um tsunami de fatos no qual não conseguem encontrar sentido. A fé não é um salto cego no escuro, mas a jubilosa descoberta de um quadro mais abrangente das coisas, do qual fazemos parte. A fé diz respeito a ver as coisas que os outros deixaram passar e apreender sua relevância mais profunda.

 

CONCLUSÃO

A espiritualidade vai inspirar as pessoas a Viver a vida que vale a pena ser vivida, uma vez que, ela é muito curta pra ser perdida, e todos somos pequenos demais para ser a causa da própria existência. Porque não oportunizar a reflexão sobre espiritualidade, sobre o sentido da vida e da existência? O respeitado teólogo americano Timothy Keller afirma que:

Indivíduos que levam a vida contentes, ocupados ou indiferentes demais para fazer perguntas incomodas a respeito do porque crerem acabarão se descobrindo impotentes tanto diante da experiência de uma tragédia quando das perguntas insistentes de um cético inteligente. A fé nutrida por alguém pode desmoronar praticamente da noite para o dia, caso, ao longo da vida, essa pessoa tenha deixado de ouvir com paciência as próprias dúvidas, que devem ser descartadas só depois de muita reflexão.

A espiritualidade possibilita compreender que o sentido último da vida é maior do que todos nós e está próximo de todos nós. Segundo a teoria do suíço Carl Gustav Jung, a introversão é a atitude do indivíduo que dirige sua energia psíquica para o interior, e parece fechado, prudentemente crítico e contido. A espiritualidade resinifica o sentido ao elevar o indivíduo para além de si mesmo, uma vez que o sentido para existir deve estar além de si mesmo. Portanto, a espiritualidade, ao resgatar o homem de si mesmo, o reconcilia com Deus através da fé e com o seu próximo por meio do amor. Isso é muito significativo e atribuir valor a existência.

Todo ser finito angustia-se ao lidar com a morte como fato, e a vida como realidade. Pior que não crer na vida após a morte, é não acreditar no sentido da vida antes da morte. A finitude do aqui e o amanhã encontra descanso na infinitude do Divino transcendente anterior e superior. Por isso, a espiritualidade valoriza a vida e, se inevitavelmente vamos morrer, que morramos de tanto viver! Concluímos com as palavras do filósofo e Teológo David K. Naugle, presentes no seu livro: “Filosofia: Um guia para estudantes” que diz:

Alguns ancoram a esperança por propósito e sentido em coisas como sexo, dinheiro e poder. De acordo com o teísmo trinitário canônico, entretanto, este é um erro colossal. Muitos tomam posse das coisas boas, supervalorizam-nas e as transformam em ídolos. Infelizmente, essas escolhas culminam em vaidade e futilidade como proclama Eclesiastes, o livro do Antigo Testamento. Mesmo que possuíssemos tudo debaixo do sol e ainda não tivéssemos Deus, o niilismo estaria por perto. Obtém-se o mundo inteiro, mas se perde a alma. A filosofia moral cristã afirma que Deus é a resposta para a questão sobre o bem maior e o sentido da vida. De acordo com o teísmo trinitário canônico, Deus nos faz afortunados. Se nós o tivermos, teremos o que é bom. Ele é o fim de todos os nossos meios, a razão para estarmos aqui, o significado da nossa jornada. Deus é a boa vida e nos faz boas pessoas. O não ter Deus vincula-se à inquietação e ansiedade. Agostinho na abertura de suas Confissões expressam melhor: Oh, Senhor, criaste-nos para ti, e inquietos está nosso coração até que repouse em ti.

 


[1] Moreira-Almeida, A.; Pinsky, I.; Zaleski, M.; Laranjeira, R. "Religious involvement and sociodemographic factors: a Brazilian national survey". Rev. Psiquiatr. Clín, vol. 37, pp.12-15. 2010.

[2] Osler, M. In: Galileo goes to jail and other myths about science and religion, R. L. Numbers, Ed. Harvard University Press, 2009.

[3] Koenig, H.G. "Religion, spirituality, and health: the research and clinical implications". ISRN Psychiatry, 2012.

[4] Lucchetti, G.; Lucchetti, A. L.; Espinha, D. C.; Oliveira, L. R. de; Leite, J. R; Koenig, H. G." Spirituality and health in the curricula of medical schools in Brazil". BMC Medical Education, vol. 12, 78. 2012.

[5] Lucchetti, G.; Lucchetti, A. L.; Espinha, D. C.; Oliveira, L. R. de; Leite, J. R; Koenig, H. G." Spirituality and health in the curricula of medical schools in Brazil". BMC Medical Education, vol. 12, 78. 2012.

[6] Artigo: Panorama das pesquisas em ciência, saúde e espiritualidade

[7] Lucchese, F. A.; Koenig, H. G. "Religion, spirituality and cardiovascular disease: research, clinical implications, and opportunities in Brazil". Revista Brasileira de Cirurgia Cardiovascular: órgão oficial da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular, vol.28, pp.103-128. 2013.

[8] Pargament, K. I.; Koenig, H.G.; Tarakeshwar, N.; Hahn, J. "Religious struggle as a predictor of mortality among medically ill elderly patients: a 2-year longitudinal study". Archives of Internal Medicine, vol. 161, pp.1881-1885. 2001.

Saúde

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Anderson Bomfim
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Natural de São Paulo, casado com Andrea Bomfim, Pai de Giovanna, Olívia e Pietra, Pastor na Igreja Local Mob em Curitiba-PR, Professor de Teologia na Plataforma Farol de EAD, Gestor da Mob Workspace de empreendedorismo missional e músico compositor.

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