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Tameion • O Verdadeiro Sentido da Privacidade na Oração

Tameion • O Verdadeiro Sentido da Privacidade na Oração

A palavra traduzida como 'quarto', em Mateus 6.6, é tameion, que designa o lugar onde o discípulo de Cristo deve preferir ao recolher-se em oração. A pergunta é: ir para o quarto e fechar a porta para orar é fugir das distrações e incômodos externos ou também recusar envaidecer-se com a aparência de uma espiritualidade performática?

Na era digital, dos ambientes virtuais e sociedades midiáticas, surgiram novas esquinas e praças, onde o volume da voz nas orações é quase irrelevante, contanto que os gestos e palavras sejam minimamente calculados para garantir uma performance digna de likes e aplausos. Diante de nós, estão holofotes que podem revelar se o que estamos excedendo é a justiça dos escribas e fariseus ou a sua hipocrisia.

Uma leitura intuitiva e isolada do texto bíblico citado acaba sugerindo que Jesus se referia a um lugar quieto, afastado das preocupações cotidianas e das muitas vozes que poluem os ouvidos nos lugares públicos. Entretanto, basta ler o contexto imediato da fala, para perceber que nossa intuição pode nos levar à compreensão rasa do que Jesus realmente estava ensinando. Tameion traduz-se, então, como 'despensa' ou 'aposento'. Por ora, vamos ao primeiro termo.

 

Tameion como lugar das recompensas

Que lugar nos inquieta mais em nossa casa senão a despensa? Que é onde lembramos das necessidades recorrentes por recursos que, em geral, estão por acabar. E quando estamos para receber alguém à mesa e percebemos que o que há na despensa não é suficiente? É nesse tipo de cenário que Jesus orienta que os discípulos estejam no exercício da oração, um lugar onde nos deparamos com nossas insuficiências perante Ele. Ao contrário dos hipócritas, que ostentam uma espiritualidade vazia em orações cultas e rebuscadas nos locais públicos, a fim de serem percebidos pelos homens.

Quando estamos em oração no lugar privado, diante de quem estamos senão do Pai? Ali, não existe plateia ou alguém a quem podemos enriquecer com nossos dons. A ordem é entrar e fechar a porta, não para somente evitar as distrações externas, mas também para apreciar, no íntimo encontro, aquilo que só tem sentido ali, onde somos encontrados por Deus, que possui todas as coisas. Um ambiente onde se percebe a escassez de recursos, mas que Ele escolheu para nos dar recompensas.
 

Ele vem à porta

Esse cenário se assemelha ao que Cristo afirma aos Laodicenses (Apocalipse 3.20). Ele está à entrada da casa, vem para cear com os que ouvirem Sua voz e Lhe abrirem a porta. Mas, se o próprio Cristo lhes advertia quanto à pobreza e à miséria em que estavam, a despeito de serem ricos, que ganho, então, teria Ele à mesa? Comida, companhia, saber, riquezas? Certamente, não. Somos pobres de espírito (Mateus 5.3), conscientes disso ou não. Quando estamos diante dEle, seja na despensa ou assentados à mesa, não há nada que podemos oferecer, que Lhe acrescente em algo.

Por que, então, Ele vem à porta? Certamente é para ser, na mesa, aquele que reparte o pão e, na despensa, o alimento que não acaba.

 

Verdade íntima e intimidade indefesa

A palavra tameion também tem o sentido de 'aposento'. Inclusive, algumas traduções bíblicas preferem termo alternativo 'quarto'. Isso não prejudica a intenção aqui, pois a ideia de privacidade permanece,  ganhando aspectos ainda mais interessantes.

O quarto é um lugar de repouso e privacidade onde as coisas ficam dispostas como nos interessa, sem interferir na privacidade de outros. Podemos deixá-lo arrumado ou uma verdadeira bagunça. Há quem afirme, inclusive, sob a ótica da Psicologia, que o estado do nosso quarto reflete a ordem da nossa psiquê.

 

Independentemente das características e da utilidade atribuída ao quarto, hoje ou há dois milênios, há uma coisa em comum e que é o interessante aqui: um lugar íntimo, onde temos coragem de ser na solitude o que nem sempre podemos ou queremos ser na comunidade.

 

São nos espaços privativos da alma que Deus quer nos encontrar quando oramos, na intimidade indefesa, nos lugares que denotam a verdade que difere solitude de isolamento. Davi sabia disso muito bem: "Tu, porém, desejas a verdade no íntimo..." (Salmos 51.6).  Vivenciar oração com verdade íntima nos torna íntegros, para que sejamos diante do público o que somos longe dos seus olhares; para que deixemos o isolamento e sejamos uma família à mesa.

Fechar a porta do quarto desafia aqueles que seguem outro extremo, o de fazer da vida privada uma exposição pública, para chamar atenção ou por alguma outra desordem dos afetos. Hoje, isso não é raro. Na era das sociedades midiáticas, visibilidade é prêmio, e a intimidade é um capital. Nos muitos leilões de lances altos, quanto mais intimidade exposta, maior é a chance do arremate. Seremos capazes de deixar de dar pérolas aos porcos e coisas santas aos cães, para oferecer a verdade íntima somente Àquele que é digno e que a reveste de dignidade?

 

Ambiência em vez de ambiente

No livro ‘Ser é o bastante’, Carlos Queiroz oferece uma interpretação e aplicação para o ensino de Jesus em Mateus 6.6:

“O termo grego utilizado para quarto, ‘tameion’, é mais sugestivo do que quarto. ‘Tameion’ é um depósito subterrâneo; aquele ambiente da casa onde guardamos nossas quinquilharias, ou algum tesouro escondido – por isso, lugar de acesso somente dos mais íntimos. Lugar onde ficamos despidos e não sentimos necessidade de nenhuma capa. Orar ‘no tameion’ não é apenas orar num lugar, é orar com uma condição interior de total transparência diante do Pai. É o estado de ser acolhido pelo Pai na privacidade da vida, na intimidade solitária, na experiência em que não se consegue encenar, até porque, ele conhece em secreto quem nós somos, de fato. Orar no ‘lugar secreto’ é a oração confidencial, aquela que somente o Pai percebe. É uma disciplina espiritual que nos ajuda crucificar o exibicionismo e a hipocrisia.

Sendo assim, orar já não depende de ambiente e sim de ambiência. E, se é de ambiência, não depende do lugar, gestos e formas. Podemos orar no quarto ou fora dele, ajoelhados ou não, rosto em terra, com lágrimas ou sem lágrimas. Seja este lugar um deserto solitário ou uma noite silenciosa, o importante e significativo na oração é manter uma relação intima de total apreciação pelo Pai. Orar no ‘tameion’ é recolher-se aos sentimentos não cognitivos, não decodificáveis, usufruídos e fluidos no silêncio de lugar secreto.” - (Queiroz, 2006, p. 146)

 

Conclusão

Em todas as aplicações do termo tameion apresentadas, é comum e perceptível que Jesus ensina que a oração é relacional, não performática. Quando a orientação litúrgica das nossas orações, pessoais ou coletivas, deixa de se comunicar com a pessoalidade de Deus, perdemos o sentido do que é a oração. Portanto, ir para o lugar privado e fechar a porta não só diz respeito a abster-se das muitas distrações, mas também nos desafia abandonar uma cultura performática e exibicionista da nossa espiritualidade. Devemos, por um lado, figurativa ou literalmente, ir para o lugar privado, a fim de nos concentrar na presença de Deus em oração. Por outro, devemos fechar a porta, para que a tentação da espiritualidade performática não nos prive da presença dAquele que, na mesa, reparte o pão; na despensa, é a suficiência; no quarto, dignifica a intimidade; e no depósito subterrâneo, é nosso confidente Pai.

“Portanto, orem da seguinte forma…”

 

Até o próximo post!   ;)

Religião

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Evandro Brandão
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Cristão • RJ • Marido da Layza • Conectar é a missão • Conhecer e Comunicar são meus verbos.

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