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O chamado para preparar o caminho do Senhor e a responsabilidade para com a próxima geração.

O chamado para preparar o caminho do Senhor e a responsabilidade para com a próxima geração.

Quando pensamos em uma geração, visualizamos aqueles que nascem e vivem no mesmo período de tempo, no sentido de contemporaneidade, assim como serve de medida de tempo e como perfil de um povo no contexto histórico,  referente a transitoriedade.

As palavras hebraicas usadas no texto bíblico para “geração”, são usadas para identificar pessoas de um tipo distinto, caráter de um grupo ou a uma era, assim como, para identificar como essa era foi gerada. A palavra grega usada para “geração” no Novo testamento, pode ser usada para identificar o período de tempo caracterizado por uma atitude cultural específica e pelas pessoas nessa cultura.

Heráclito disse que "a duração de uma geração é de trinta anos, espaço de tempo no qual o pai vê seu filho capaz de engendrar”, já a tradição cristã costuma dizer que o período de 40 anos corresponde a duração de uma geração. Contudo, quando se pensa em geração no que se refere a pessoas que vivem em determinada época, é difícil especificar a duração exata dela, pois  tudo vai depender do contexto de cada época e de como seria os limites razoáveis do tempo da vida humana.

Das gerações de Adão, o tempo de vida aproximava-se a 850 anos para cada pessoa (Gênesis 5:-31; 9:29). Depois do dilúvio, a expectativa de vida diminuiu para 120 anos (Gênesis 6:3). Abraão, por sua vez, foi uma exceção a regra e viveu 175 anos (Gênesis 25:7). Mais tarde a média de vida caiu para 70 ou 80 anos (Salmo 90:10). Então, historicamente, uns calculam 40 anos, outros 50, outros 70 anos, porém, atualmente, afirma-se que apenas 20 anos separam uma geração de outra.

A geração  mais recente é conhecida como Baby Boomers, nascida entre 1946 e 1964, que viveu após a Segunda Guerra Mundial e recebeu esse nome por causa do grande aumento das taxas de natalidade (Explosão de bebês). A Geração X, abrange indivíduos nascidos dos anos 60 até os anos 80, já a Geração Y, são indivíduos que nasceram até os anos 1990, conhecidos como millennials, seguidos da Geração Z, são indivíduos que nasceram de 1990 e 2010, marcada pelo nascimento da Internet e avanços tecnológicos, chamados também de geração C, de conectividade.

 

A revelação progressiva através das gerações.

É interessante observar na narrativa bíblica, o pairar da palavra de Deus sobre a cabeça de cada geração. Como assim? Normalmente uma geração recebia uma promessa de Deus a respeito dos seus descendentes, isto é, da próxima geração. Assim, Deus revela-se progressivamente através das gerações. Seu plano redentivo é revelado progressivamente até o cumprimento messiânico, e assim, continua sua história até a consumação dos tempos.

A pergunta é se somos ou não guardiões de uma palavra a respeito da próxima geração. Será que pensamos em preparar uma geração para viver seus dias de cumprimento, ou ser encontrada pela palavra de Deus específica para o seu tempo?

Muitos de nós da geração X, com certeza, alguma vez, já ouviu palavras a respeito de uma geração profética que prepararia o caminho para a volta de Cristo, ou sobre uma geração que viveria a grande colheita missionária, ou ainda, que viveria a quarta onda de missões ou ainda que representaria o Brasil como um grande celeiro de missões.

Se acreditamos em um avanço progressivo da igreja, rumo ao cumprimento da promessa de ser gloriosa, qual tem sido o nosso engajamento nesse processo de transmissão dessas palavras? O que temos feito para que a próxima geração esteja pronta para dias de cumprimento, vivendo coisas maiores e mais altas?

Como vemos a próxima geração? Como um problema ou como uma resposta? Como interpretamos a próxima geração? Entendemos a imutabilidade dos princípios dentro da transitoriedade dos modelos? Respeitamos as diferenças ou impomos que sejam iguais? Investimos e celebramos suas primeiras conquistas ou nos sentimos ameaçados em nossas antigas posições?

Será que a mesma geração que ouviu tantas coisas sobre uma próxima geração não pensou ser o cumprimento da sua própria profecia? A verdade é que aqueles que são cumprimento da profecia, sempre serão maiores do que aqueles que profetizam. Jesus disse que nenhum homem seria maior do que João Batista, mas o menor no Reino de Deus seria maior do que ele. A grandeza de uma geração está em servir para que a próxima geração viva uma grandeza maior.

Em meio ao conflito das gerações que tem trazido tanta indefinição para os nossos dias, é preciso desistir de impor modelos passados e visualizar como aplicar princípios eternos pensando no futuro.

Qual o perfil da geração Y? Diferente da geração X, que sonhava em trabalhar nas grandes multinacionais, que definou conceitos e organizou as instituições politicas, religiosas e sociais, que trabalhava toda uma vida para comprar a casa própria e o carro novo, a geração Y é tecnológica, empreendedora, quer ter seus próprios negócios, é nômade digital, trabalha em escritórios colaborativos, não sonha em comprar carros porque usa aplicativos de mobilidade, não pensa em comprar imóveis porque sonha em conhecer o mundo, é globalizada, fala outros idiomas, é ligada a questões ambientais, pensa em sustentabilidade global, mas é hiper afetiva, sofre por questões existenciais, e vive em busca de sentido. Então, qual é o perfil dessa geração de mochileiros multiculturais?

Não sei o que vocês veem, mas essa próxima geração parece ter o perfil da grande comissão, parece que nasceram para pensar de forma global, parece que, assim como Moisés, sentem que precisam fazer algo de relevante por um mundo melhor, mas não sabem como fazer, por isso, muitos deles deprimem e se perdem em pensamentos suicidas.

Temos a impressão que milhares de jovens dessa geração estão sendo atraídos ao processo de cumprimento da palavra que paira sobre suas cabeças, e cremos que nossa função como geração de pais e mestres é de contar a história de Deus, de transmitir a causa que estão buscando para lutar, mostrar o sentido da vida e preparar para cumprir o propósito de tudo que foram designados a fazer.

Uma palavra a respeito deles nos foi confiada, e deve pesar sobre nós a responsabilidade de deixar um legado, de abrir caminhos, de viabilizar processos, para que essa “atual próxima geração” se encontre com seu destino.

Para isso, parece necessário falar ao coração de uma geração de pais, sejam biológicos ou discipuladores espirituais, sobre assumir um compromisso com o coração de uma geração de filhos, sejam biológicos ou discípulos espirituais, entendendo que preparar o caminho para Jesus, nada mais é do que preparar pessoas para Ele, formar o tipo de gente do Reino, preparar o cenário da sua vinda.

 

O novo está com a próxima geração.

Quem nunca ouviu promessas sobre o “novo”, quem nunca falou sobre um novo tempo, ou novo ciclo, quem nunca idealizou ser protagonista do novo? Contudo, por mais que aquilo que estamos vivendo pareça ter alguma expressão de novidade, o novo é sempre o que está por vir, o novo sempre está com a próxima geração.

Minhas filhas ouvem música em streaming com fones sem fio, nós ouvíamos em fita K7 celebrando a novidade do CD player. Minhas filhas salvam conteúdos na nuvem virtual, nós salvávamos em disquete, celebrando a novidade do pendrive. É incontestável que o novo sempre vem com a próxima geração, está bem a nossa frente, debaixo do nosso nariz, mas não vemos porque subestimamos o diferente.

O fato é que Deus não vê como vê o homem, não olha para as aparências, porque conheçe o coração. Essa é a grande lição a aprender com o profeta Samuel (1 Samuel 16:7). Ele estava em busca do novo, porém, estava incapacitado de encontrá-lo porque em sua mente tinha a imagem do velho, acreditou que deveria ungir o primogênito de Jessé, pois talvez fosse aquele que mais se parecia com Saul.

Por isso, Samuel deveria mudar sua maneira de ver. Não poderia mais olhar para a aparência, presumir segundo o que lhe parece, mas deveria perceber coração, aquilo que está dentro. Isso significa que para encontrar aqueles que Deus já achou, aqueles que são segundo coração de Deus, é preciso mudar a maneira de ver.

Se cremos que uma nova geração com uma nova mentalidade servidora, corporativa, globalizada, descentralizada, tecnológica, inovadora, relacional e com maior potencial de desempenho produtivo está sendo aguardada, o que essa renovação global tem a ver conosco como pais, pastores, professores e lideres que atuam em diversas áreas formadoras da sociedade?

 

A natureza transgeracional do plano divino.

Deus é o Deus das gerações. Ele é o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó. Esse é o seu nome, e seu nome comunica atributos da sua natureza e caráter. Portanto, se alguém não está comprometido com a visão local, global e geracional, não tem compromisso com a missão de Deus. Se não pensa de forma geracional, não pensa de acordo com os pensamentos de Deus. Se o sentido do que fazemos não é por Deus e para o próximo não é para Deus. O sentido da vida para existir deve estar além de nós.

Deus começou chamando Abraão, estabeleceu a pedra fundamental de Jerusalém através da dedicação de  Isaque, formou a identidade de uma nação a partir de Jacó, promoveu o crescimento de família como nação através de José. Ainda, libertou o povo do Egito através de Moisés, que encontrou o lugar de cumprimento da promessa a Abraão. Cada um desses homens teve o seu papel dentro da agenda geracional de Deus.

Biblicamente, temos uma nuvem de testemunhas como Abraão abençoou nações instruindo seus filhos e ordenando sua casa. Assim como José, que em suas últimas palavras lembra uma geração da sua identidade e destino, pedindo para que seus ossos fossem levados a terra prometida por Deus aos seus pais. José é um dos melhores exemplos do que pensamos sobre referenciais. 

Dentre os profetas temos Elias, que ordenou Eliseu como um filho primogênito apto a receber porção dobrada da herança espiritual para dar continuidade a missão; Davi recebeu pessoalmente a planta do templo e entregou ao seu filho Salomão, a responsabilidade de executar a sua construção. Esses homens tiveram um encontro com a Palavra de Deus, esses homens viram algo que transcendeu seu tempo, não só celebraram o que lhes foi revelado, pois foram abençoados com sabedoria para preparar o caminho para futuros dias de cumprimento.

Apenas homens doentes como o rei Ezequias (Isaias 39:7) e complexados como rei Saul, pensam em viver o seu momento sem pensar nas consequências dos seus atos para a próxima geração. Sobreviventes pensam seu momento, enquanto homens estratégicos trabalham para o amanhã.

Referenciais são homens de cumprimento, por manterem vivas as memórias da promessa feita a Abraão, eles nos lembram quem somos, de onde viemos e para onde vamos. Ao perder referenciais perdemos memórias, perdemos a noção de quem somos, do porquê estamos onde estamos, para onde temos que ir e o que temos nos tornar.

Pensando historicamente, a ausência de referenciais parece ser um dos principais motivos para se instaurar algum nível de crise de identidade geracional, assim como historicamente, a presença de bons referenciais parece ser fator fundamental para se perpetuar legado de valores, como fé e fidelidade às promessas de Deus, promovendo engajamento geracional dentro da metanarrativa bíblica, visando a consumação de todas as cosias.

 

Operacional imediatista ou visionário estratégico?

O grande desafio da geração X, é transicionar da mentalidade operacional imediatista privada, para a visão estratégica missional e global. Considerando também, o desafio de repensar o discipulado como estratégia de formar pessoas para pertencer a sua denominação religiosa, para sofrer dores de parto, até que Cristo seja formado em uma nova geração de ministros sacerdotais, na integralidade da vida, com autoridade para serem testemunhas a todos os homens. O desafio é deixar de pensar crescimento monumental para visualizar expansão global geracional.

Pensar estrategicamente, exige rever a abrangência dos objetivos, a intencionalidade dos planos e a finalidade das ações. Pensar estrategicamente, implica em não mais priorizar resultados imediatos, para visualizar resultados de médio a longo prazo. Paulo, por exemplo, trabalhava uma média de dois a três anos em uma cidade para encontrar homens idôneos capazes de transmitir a mensagem a outros, acompanhando-os de forma estratégica e sustentável. Esse nível de compromisso requer a mentalidade de um investidor, sabendo que o retorno é vindouro.

Deus trabalha estrategicamente por meio de processos geracionais. Por exemplo, os descendentes de Abraão (Gênesis 15:12-13) foram estrategicamente levados por Deus para o Egito quando eram apenas uma família de setenta homens, para que, depois de quatrocentos anos chegassem a mais de um milhão de pessoas, nomeados por Deus no Sinai como nação consagrada e reino de sacerdotes.

Ao observar o que o profeta Samuel disse para o rei Saul: “O Senhor rasgou, hoje, de ti o reino de Israel e o deu ao teu próximo, que é melhor do que tu”, é importante lembrar que esse “hoje” de Deus levou alguns anos de processo para Davi. Veja que, quando a palavra é liberada no ponto A, dá inicio ao processo de desenvolvimento até encontrar seu lugar de cumprimento no ponto B.

Portanto, pensar estrategicamente significa saber lidar com o tempo e com seus respectivos processos. A história de Saul e Davi mostra claramente o quanto não saber lidar com o processo pode comprometer o propósito. Saul foi uma resposta a expectativa dos homens, segundo os padrões da sua época, e por trilhar o caminho mais curto para o reinado não teve estrutura para sustenta-lo. Davi longe dos olhos de todos já vivia uma história com Deus, vencendo os ursos e leões na vida secreta, passando pelo processo seguido de provações até estar apto para reinar sobre todas as fronteiras prometidas a Abraão, aproximadamente mil anos depois da promessa.

Devemos pensar a jornada como uma maratona e não como uma corrida de cem metros, devemos nos preparar uma geração visando desenvolver resistência para correr quilômetros e não apenas ganhar porte e poder de explosão para correr metros. Devemos cuidar para não confundir ponto de partida com linha de chegada, ou aceleração dos tempos com precipitação dos passos.

Lembremos das palavras de Paulo, que,  com propriedade diz que o prêmio é para os que completam a corrida e não para os que largam bem (1 Coríntios 9:24). Poder de explosão sem resistente perseverança é igual a fracasso e frustração. Não podemos preparar uma geração para um avivamentos de dias, mas ensiná-los que, pelo poder do Espírito podem ser testemunhas até os confins da terra, até que Jesus volte. Devemos trabalhar pela vitória da perseverança dos santos. Estamos diante de uma longa jornada em que aqueles que pensarem estrategicamente terão resistência para permanecer.

Conquista pessoal ou cumprimento divino?

Já ouviu falar sobre generatividade? Essa palavra representa o envolvimento do indivíduo com o bem-estar das próximas gerações e a posteridade. O sentimento de generatividade leva o sujeito a cuidar, ensinar, liderar e promover a próxima geração. Segundo o rabino Jonathan Sacks, Moisés em seus últimos dias, voltou sua atenção para a próxima geração e embarcou em um novo papel. Moisés, o libertador e legislador, assumiu a tarefa pela qual se tornou conhecido pela tradição judaica: "Moisés, nosso professor". Essa pode ter sido sua maior conquista. Perpetuar legado.

Moisés nasceu com a vocação de ser um libertador e levar o povo para uma terra prometida a Abraão. Quando estava bem próximo da terra, Deus o abençoou para ser encontrado pelo dia de cumprimento, porém, Deus não iria com ele. É como se Deus tivesse dito: “Está aqui a chave para entrar na terra, você conseguiu”. Deus entregou a terra prometida a Moisés.

Esse era seu momento, mas Deus não iria, porque aquela geração não amava sua presença. Eis o dilema: deveria escolher entre viver seu momento ministerial ou abrir mão do seu momento para ensinar uma geração a amar a presença de Deus. Então, Moisés desistiu de viver seu momento para dedicar sua vida preparando Josué, como referência da próxima geração, para entrar na terra carregando a arca da aliança nos seus ombros, amando a presença de Deus.

Parece ficar claro que o sucesso da missão de vida de alguém não consiste naquilo que conquista para si, mas sim no que consegue deixar de relevante para seus filhos, ou seja, está na continuidade geracional. Por isso, ser bem-sucedido não se mede pelo quanto alguém conquista, mas pelo quanto cumpre segundo o propósito de Deus. Seguindo o exemplo de Jesus, vemos que desde seu nascimento até a ressurreição, tudo o que fez, foi para cumprir o que foi dito a seu respeito. 

 

Os referenciais geracionais e os ídolos pessoais.

Tratando-se de referenciais geracionais, o conhecido rei Saul é um exemplo de tudo o que não se deve ser, uma vez que, para afirmar sua liderança, desconsidera a importância do outro, sente-se ameaçado pelo sucesso do próximo, nega trabalhar em equipe, e em nome de Deus faz um decreto tolo e egoísta, quebrado pelo próprio filho e desconsiderado por Deus. Além disso, desconsidera a direção de Deus por necessidade de aceitação, tornando-se refém da opinião pública, e quando confrontado, justifica-se culpando outros pelos seus erros. Saul prova que toda síndrome de grandeza pessoal nada mais é do que reflexo de alguém que se vê pequeno aos seus próprios olhos. O que um homem como Saul deixa como legado? Apenas uma estátua de si mesmo.

O outro lado da moeda revela-se tão problemático quanto o líder que faz de si mesmo um ídolo. É o líder que é idolatrado, que se torna a projeção das dores de uma geração órfã de referenciais, desencadeando relações doentias de dependência emocional, onde filhos projetam em outros pais ideais, mulheres projetam em outros maridos ideais, assim como, irmãos projetam suas dores inconscientes em outras pessoas, líderes e pastores. Não é sobre esse tipo de referencial que estamos falando, mas de pessoas que cumprem um papel diretivo, que apontam Cristo e não ocupam o lugar de Deus na vida das pessoas.

Inevitavelmente, a orfandade promove uma geração de líderes vítimas da própria vaidade, movida mais pela necessidade de provar algo do que de servir alguém. O seu excesso de protagonismo, seja profissional ou ministerial, pode ser sintoma de um tipo de inferioridade altiva, que fatalmente, a levará ao terreno deslizante do sucesso. Assim, por causa da ansiedade de ser autoral, original e precursor acaba tropeçando em si mesmo.

 

Homens pontes e meninos ilhas.

Enquanto o pensamento mais conservador e histórico procura preservar as pontes da tradição norteadora dos marcos antigos com a contemporaneidade, estando livre do ímpeto sedutor da conquista, parece ter humildade, mansidão, maturidade e responsabilidade para perpetuar legado geracional, 

O espírito sedutor do moderno, em nome da conquista do novo, queima as pontes com os marcos antigos, frustrando uma nova geração que se auto engana com a imatura inconsistência vaidosa do saber autônomo, perambulante errante como fugitivos de casa, sem passado nem amanhã. Referenciais possuem uma história, são homens-ponte, os meninos modernos populares do momento são como ilhas, sem referencias passados, nem vivências para um legado futuro.

Jesus, ministrando a conhecida mulher samaritana, ensina que o pioneirismo precursor profético, que não respeita a tradição dos pais, no poço de Jacó em Siquem, não abre caminhos para as pessoas encontrarem o sentido, mas cria labirintos em que as pessoas se perdem em seus próprios dilemas pessoais. Perpetua-se assim, o ciclo do não pertencimento a uma nova geração de órfãos em crise de identidade e sentido, que seguem em busca afirmação e aceitação.

Enquanto muitos dedicam seu tempo (que é vida) em busca de estar em evidência, uma nova geração procura alguém que seja referência. Referenciais inspiram. O que faz um farol ser ponto de referência, é o fato de permanecer firme na sua posição e mensagem. Verdadeiros referenciais desistiram de lutar pelo seu momento ministerial e dedicam-se ao legado da fé, a continuidade da história, visando preparar uma geração que viva seus dias de cumprimento. Quando se é jovem, é comum pensar em sair de casa para tocar o mundo, mas com o tempo, pensando a missão de Deus com responsabilidade, entende-se a seriedade do seu legado geracional.

 

O verdadeiro sentido da restauração da identidade

É importante saber quem somos, contudo é  importante saber que se nossa identidade não está conosco, e que a restauração da identidade não é para nós. Nossa identidade está com Jesus, com quem fomos criados para ser igual, criados para ser conforme sua imagem.

Ao passo que encontramos identidade em Jesus, descobrimos que isso não tem a ver conosco, mas com toda uma geração que ainda não sabe quem é, que ainda não se encontrou em Jesus.

Quando Deus restaurou a identidade de Abrão, que significa pai exaltado, para Abraão, que significa pai abençoador de nações, entendemos que o verdadeiro sentido da identidade está na relação com Deus para abençoar o próximo. Quando Deus restaurou a identidade do Moisés, em um lugar de conflito pessoal, chamado Midiã, não foi para Moisés se sentir melhor consigo mesmo, mas sim para que Moisés se tornasse uma referência, e resgatasse todo um povo da sua crise de identidade geracional. 

Portanto, abençoar a próxima geração não é uma opção, mas mandamento de Deus. Se alguém leva a sério sua missão, pensa seu legado e prepara a próxima geração. Quem ama a volta de Jesus, prepara o caminho preparando a próxima geração. Vivemos dias de cumprimento das bênçãos dadas a Abraão em Cristo Jesus. A equação é que somos abençoados para abençoar todas as famílias da terra, para que o nome de Deus seja reconhecido e bendito por todos os homens em todos os lugares. Por onde começar? Por onde Abraão começou. Ordenando a casa e instruindo filhos, perpetuando legado abençoador porque essa é a base a partir da qual tocaremos o mundo e marcaremos um tempo, assim deixaremos marcos históricos norteadores para o futuro (Gn18:19).

 

Qual a diferença de herança e legado?

Em um dos encontros de pastoreio que tive com Achilles Oliveira, ele me fez algumas perguntas profundamente perturbadoras como: Qual é o seu legado? Você tem ensinado a muitos, mas reproduz o que tem através de quem? O legado tem a ver com o que deixaremos de tudo que vivemos. A quem pertencerá o que deixarmos, quando chegarmos ao fim do nosso plano limitado de vida? 

Herança e legado são princípios do direito sucessório de bens, trata da relação de direitos e deveres. A herança fala de transmissão universalizada, totalidade de bens e obras, enquanto o legado representa transmissão individualizada, algo específico para pessoas específicas. Herança é transmissão natural hereditária, familiar, de pai para filho, enquanto legado é a transmissão a alguém que pode não ser herdeiro natural, para qualquer pessoa.

Filosoficamente, herança pode ter caráter de direito a bens tangíveis que podem dar uma melhor condição de vida enquanto o legado tem caráter de responsabilidade por ideais morais e princípios éticos intangíveis que podem nortear seu comportamento moral ao longo da vida. Herança pode ser representada na utilidade, enquanto o legado na honra e significado. Por isso, é possível que famílias ricas de herança deixem uma próxima geração pobre de legado. Podemos deixar uma casa de herança, e não deixar o valor de ser família como legado.

A maioria das pessoas trabalha para deixar uma herança de bens e estabilidade social, mas é muito provável que uma geração sem legado de valores éticos não saiba lidar com sua herança. Portanto, herança sem legado é patrimônio perdido, cultura de desperdício. O legado presente desenvolve maneira de pensar como herdeiro. O doutor em Ética e Filosofia Política, Francisco Santos, diz que: “Herança quanto mais se usa menos se tem, enquanto o legado quanto mais se usa maior se torna, mais se deixa”.

 

Conclusão

Como queremos terminar a nossa vida? Pelo que seremos lembrados? 1 Crônicas 29:28, na versão King James, diz que Davi “faleceu feliz e realizado em boa velhice e vida longa, cercado do respeito de todos, grande honra e muita riqueza, e Salomão seu filho assumiu o seu trono". Segundo a narrativa de Lucas, em Atos 13.35: “Tendo Davi servido à sua própria geração conforme o desígnio de Deus, adormeceu...” Davi morreu feliz porque viu seu legado, Davi morreu feliz porque serviu sua geração e tornou-se referência para todas as próximas.

Em Atos 12:25 a palavra missão aparece como “diakonia” porque missão tem a ver com chamado para servir a Deus, assim como, servir sua geração segundo desígnio de Deus. Servir com mesma atitude que houve em Cristo, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.

Pensemos nessas questões enquanto ainda há tempo. Pense sobre seu legado, avalie se tudo que tem feito tem relevância histórica e geracional. Avalie se aquilo pelo qual tem dedicamos sua vida merece continuidade. Quem dará continuidade? Quem assumira seu legado?

Como ministros sacerdotais, ministros da reconciliação, preparar uma geração conectando pessoas, construindo pontes históricas, geográficas e geracionais, aproximando cidades, conhecendo culturas, fortalecendo relacionamentos pactuais, otimizando processos, potencializando habilidades, ampliando perspectivas, viabilizando ações corporativas, mobilizando iniciativas transformadoras e antecipando o futuro.

Gary Crampton, no livro “Em direção a uma cosmovisão cristã” afirma que: “A próxima geração de cristãos, com uma visão de mundo coerente, um plano de ação, e a paixão de colocá-la em efeito, poderá muito bem virar esse mundo de cabeça para baixo”.

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Anderson Bomfim
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Natural de São Paulo, casado com Andrea Bomfim, Pai de Giovanna, Olívia e Pietra, Pastor na Igreja Local Mob em Curitiba-PR, Professor de Teologia na Plataforma Farol de EAD, Gestor da Mob Workspace de empreendedorismo missional e músico compositor.

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