[ editar artigo]

Na igreja missional a missão é recebida como benção de Deus, e toda benção é recebida para a missão de Deus.

Na igreja missional a missão é recebida como benção de Deus, e toda benção é recebida para a missão de Deus.

O que tem sido mais impactante ao pensar sobre as características de uma igreja missional, é a abrangência da perspectiva teocêntrica da missão, o olhar a partir do Deus da Missão, não limitando-a ao que a igreja pode fazer para Deus, mas o que ela foi chamada para participar, uma vez que, a missão é de Deus, dada por Deus e para Deus (Romanos 11:36).

A princípio, alguém pode estranhar o fato da palavra “Missão” não ser uma palavra tão presente no texto bíblico,  porém, a missão está presente em toda a narrativa do texto bíblico. Por isso, torna-se teologicamente fundamental para a fé e a vida cristã.

Michael Goheen, no seu livro “A missão da Igreja hoje” ensina que: “A palavra “missão” deriva do latim “mittere”, que é enviar, e portanto, pressupõe alguém que envia, alguém enviado, um lugar ou pessoas para os quais o mensageiro é enviado e uma tarefa a ser cumprida. Missão é participar da história da missão de Deus. A missão de Deus é a redenção de todo o mundo de Deus. A missão de Deus de restaurar o mundo e os povos é um tema central na narrativa bíblica. O propósito de Deus é restaurador e abrangente. A igreja deve entender que sua missão é participar da missão do Deus trino. E essa missão tem uma natureza comunal, é uma missão para o povo de Deus. A bíblia é um registro narrativo da missão de Deus em seu povo e por meio dele para o bem do mundo. A missão de Deus envolve o povo de Deus que vive à maneira de Deus à vista das nações”.

A Missão designa primordialmente a auto revelação de Deus como Aquele que ama seu mundo. Como diz David Bosch, "a missão é o sim de Deus ao mundo". A missão de Deus abrange tanto Israel como todas as nações, tanto a igreja quanto o mundo.  A missão de Deus é abrangente. Christopher Wright amplia a ideia sobre a “Missão” no livro “A missão de Deus” dizendo que: "A bíblia apresenta a história da missão de Deus, por meio do povo de Deus, no mundo de Deus e em prol de toda a criação de Deus. A missão na verdade é a essência da bíblia. Nossa missão designa nossa participação ativa como povo de Deus, a convite de Deus, segundo o mandamento de Deus, para redenção da criação de Deus. Nossa missão flui da missão de Deus e dela participa”.

David Bosch em seu artigo “Testemunha para o mundo” fala sobre a cristocentricidade da missão dizendo que: “Missão é mais que uma questão de obedecer a uma ordem. Trata-se, mais precisamente, do resultado de um encontro com Cristo. Conhecer a Cristo significa tornar-se parte de uma missão para o mundo”.

 

Nova perspectiva, novo paradigma.

Se perguntarmos o que a Bíblia diz sobre a missão, provavelmente teremos como resposta algumas palavras imperativas da torá (Pentateuco) como: "Anunciai entre as nações a sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas” (Crônicas 16:24). Ou alguns salmos como: "Anunciai entre as nações a sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas” (Salmo 96:3), ou ainda algumas das palavras dos profetas como: "A quem enviarei, e quem há de ir por nós?” (Isaias 6:8).

É claro que todos se lembrarão principalmente das palavras de Jesus a respeito da grande comissão dizendo: “Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Marcos 16:14), "pregai que está próximo o reino dos céus" (Mateus 10:7), "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mateus 28:19).

Contudo, observando a partir de uma perspectiva sistêmica, pensando de forma panorâmica, observando a meta-narrativa divina e o fluxograma da revelação progressiva e histórica da Bíblia, a missão tem caráter mais abrangente. Voltando ao princípio, tendo Deus como referência hermenêutica, o que pode ser chamado também de perspectiva teocêntrica, é possível sermos surpreendidos pela beleza do propósito da Missão de Deus, compreendendo que “ide” da grande comissão antes de ser recebido por nós como uma ordem a ser cumprida, pode ser recebido como uma benção divina.

Uma dos valores elementares de uma vida missional é que o mandato missionário de Deus ao homem é uma benção. Independente do “ide" comissionador de Jesus ser interpretado como um gerúndio, no sentido de uma ação contínua, ou uma ordem imperativa, o fato é que a missão de Deus, antes de tudo é uma benção.

Sabemos que o diferencial da vida missional está no pensar a missão a partir do Deus da missão. Contudo, muitos ainda parecem se ver diante de uma encruzilhada hermenêutica, podendo interpretar a grande comissão a partir do princípio, no seu sentido original, ou interpreta-la a partir da perspectiva antropocêntrica, baseada em vivencias psíquicas privadas, experiências místicas inconsistentes por sua subjetividade, assim como a partir do seu momento histórico ou contexto cultural.

A prova dessa crise de referência na compreensão bíblica da missão de Deus está na perspectiva operacional de missões, visão a partir do qual a missão está prioritariamente relacionada àquilo que devemos fazer para Deus, independente da legitimidade do quem está fazendo, como está fazendo, para que e para quem está fazendo. Essa crise de referência hermenêutica tem implicações sérias quanto a clareza de origem, causa, finalidade e fundamento da missão. Contudo, uma nova perspetiva pode possibilitar novos modelos, uma nova maneira de ser missional.

 

Os indicativos e os imperativos da missão.

Antes de qualquer coisa que o homem pudesse pensar em fazer, “Deus o abençoou” de forma objetiva e concreta dizendo “sejam férteis”  e “encham a terra”. Essas palavras por si só já nos falam muito sobre a perspectiva missional. Porém, o que deve ser observado primeiramente é que antes do imperativo ao homem sobre expandir-se sobre a terra, há um indicativo divino, uma benção de Deus, dando ao homem todas as condições locais necessárias para participar ativamente da sua missão global. O indicativo divina nada mais é do que Deus assumindo a responsabilidade pela missão, por manter a salvo o seu propósito.

Um dos aspectos da natureza da benção divina é a de conferir favor, condições favoráveis para ser produtivo (Gênesis 24:34-36). Deus abençoou o homem com sementes, recursos de caráter espiritual, representados em tudo que o homem concebe a partir da relação com Deus e sua palavra, assim como recursos biológicos, a semente por meio do qual se perpetuaria descendência e se assume responsabilidade para com seu legado geracional, abençoando também recursos de caráter material, a semente que Paulo ensina a semear com alegria e generosidade (2 Coríntios 9:7), esse tipo de recurso está relacionado ao cultivo da terra, o mandamento do trabalho e a produtividade através do exercício vocacional.

O fato é que Deus abençoou o homem criado segundo sua imagem e semelhança com todos os recursos necessários para se multiplicar, e para multiplicar todos os recursos confiados com o propósito de encher a terra, sujeitar todas as coisas sob a autoridade do Deus da missão e assim exercer sua vocação sacerdotal de ministro governante, exercendo domínio sobre tudo sem se deixar ser dominado por nada.

Essa palavra “benção” aparece pela primeira vez nas escrituras sagradas quando "Deus os abençoou, dizendo: Sede fecundos, multiplicai-vos e enchei as águas dos mares; e, na terra, se multipliquem as aves.” (Gênesis 1:22). Na continuidade do texto, a palavra de Deus sobre homem é ampliada: "Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou. E Deus os abençoou e lhes disse: Sede fecundos, multiplicai-vos, enchei a terra e sujeitai-a; dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gênesis 1:27-28).

Etimologicamente, a palavra “Benção” está associada a “ajoelhar-se”, referindo-se a posição dos animais que encontraram a água que os mantém vivos, ou ainda a postura dos homens quando encontram favor diante de autoridades ou divindades. O mais interessante a se observar nesse contexto é a importância do “favor, da fertilidade, e do poder” como bênçãos concedidas para determinar a prosperidade de um povo ou nação.

Portanto, a missão antes de ser um imperativo ao homem, deve ser vista como uma benção de Deus, porque o homem não seria capaz de ser emissário de Deus, se o próprio Deus não lhe desse condições para isso. Deus abençoou o homem com capacidade de multiplicar-se, e de multiplicar todos os recursos (Sementes) confiados, expandindo por toda a terra o favor e a glória do Deus criador de todas as coisas. Deus abençoou o homem, para que esse homem fosse abençoador, a fim de que Deus fosse bendito em toda a terra.

Sabemos que a Grande comissão é um imperativo divino, um mandamento de Jesus aos seus discípulos, porém, esse imperativo é precedido de um indicativo de propósito abençoador, porque Jesus antes de comissionar discípulos a serem testemunhas, ele testemunha acerca de si mesmo afirmando: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mateus 28:18), abençoando-os com todas as condições necessárias para engajarem da missão de Deus.

John Stott confirma essa compreensão no seu artigo “a bíblia na evangelização do mundo” dizendo: "Foi em consequência de sua autoridade universal que ele ordenou aos seus seguidores que fizessem discípulos de todas as nações, batizando-os na nova comunidade e ensinando a todos sua doutrina".

Segundo a narrativa de Atos dos apóstolos, antes de serem enviados como testemunhas de Jerusalém até aos confins da terra, deveriam esperar pelo poder do Espírito Santo derramado sobre eles (Atos 1:8). O imperativo missional, o envio apostólico, o mandamento messiânico de pregar o evangelho a toda criatura, depende do indicativo de propósito divino, depende do próprio Deus dar condições para que possam participar da sua missão. Na verdade, a missão não acontece por causa de nós, mas “apesar de nós”, pela graça de Deus.

Talvez seja por ter consciência dessa verdade que o apóstolo, mensageiro levantado e enviado por Deus tenha chegado tão longe e alcançado tantas pessoas com a pregação do evangelho. Na sua carta aos irmãos em Corinto escreve: "Mas, pela graça de Deus, sou o que sou; e a sua graça, que me foi concedida, não se tornou vã; antes, trabalhei muito mais do que todos eles; todavia, não eu, mas a graça de Deus comigo"(1 Coríntios 15:10).

 

A benção de Deus e o mantado criacional 

Se texto em que Deus abençoa o homem em Gênesis, é o mesmo texto em que se trata do mandato criacional de Deus ao homem, poderíamos dizer que existe uma relação direta entre a benção de Deus e o mandato de criacional? Qual seria essa relação? Esse mandato de Deus, fala de poderes especiais concedidos ao homem para que possa cumprir a missão de Deus, como co-criador, ministro sacerdotal, mordomo, embaixador, gestor, administrador, agente de justiça, exercendo vice regência sobre todas as coisas criadas.

O mandato criacional abrange a relação do homem com Deus, do homem com o próximo e do homem com a terra, que conhecemos como o mandato espiritual, mandato social e o mandato cultural. Sabemos que esse abrangente mandato criacional é dado por Deus para todos os homens e a grande comissão é uma ordem de Jesus específica para seus discípulos.

A grande comissão não é um chamado genérico, não é algo para todos os homem, como o mandato criacional. Contudo, não podemos negar que a grande comissão dos discípulos de Jesus cumpre de forma missional, testemunhal e glorificante o mandato criacional de Deus na integralidade da vida, resgatando o valor sacerdotal do tipo de gente do Reino de Deus. 

Abençoados, para abençoar, para que Deus seja bendito.

A missão como uma benção de Deus, torna-se mais evidente no chamado de Deus a Abraão, abençoado para abençoar, afim de que Deus fosse bendito por todas as famílias da terra. Segundo o artigo de John Stott sobre "A bíblia na Evangelização do mundo": “O mandato bíblico não se limita a grande comissão, mas abrange toda a revelação bíblica. Deus chamou Abraão e fez uma aliança com ele, prometendo não apenas abençoa-lo, mas também abençoar todas as famílias da terra (Gênesis 12:1-4). Esse texto é uma das pedras fundamentais da missão cristã. Se pela fé pertencemos a Cristo, somos filhos de espirituais de Abraão e temos uma responsabilidade para com toda a raça humana”.  

Jesus Cristo, segundo o evangelho de Mateus, confirma que a benção de Deus sobre Abraão recai sobre nós ao dizer: “muitos virão do Oriente e do Ocidente e tomarão lugares à mesa com Abraão, Isaque e Jacó no reino do céu” (Mateus 8:11. Lucas 13:29). Contudo, sabemos que essa benção tem como finalidade abençoar todos os homens, a fim de que Deus seja bendito em toda a terra.

Walter Kaiser diz que “nenhuma das promessas de benção seriam para o engrandecimento pessoal de Abraão. Na verdade, ele e sua nação seriam abençoados para que pudessem ser uma benção”. Michael Goheen em seu livro sobre "A missão da igreja hoje", afirma que: “Deus escolhe Abraão a fim de que ele seja um canal de benção redentora para todas as famílias da terra. Deus não rejeita as nações, mas antes, escolhe Abraão precisamente para o bem delas”. Christopher Wright no livro "Missão de Deus" diz que “a particularidade de Israel tem por objetivo a universalidade do interesse de Deus no mundo. A eleição de Israel serve a missão de Deus”.

Esse desígnio divino sobre Abraão, Isaque e Jacó, perpetua-se na vida de José, abençoado para abençoar, fazendo o nome de Deus bendito em todo o mundo da sua época, assim como perpetuou-se sobre a vida de Moisés, Josué, e a história de Israel na era dos juízes, profetas como Daniel, sacerdotes e reis, como Davi, até os dias de Jesus, seus discípulos e a igreja. 

Walter kaiser explica que “Israel sempre foi, no plano e propósito de Deus, responsável por comunicar a mensagem de graça de Deus às nações, foi destinada a ser uma nação comunicadora. Proclamando seu plano de abençoar as nações (Gênesis 12:3), chamados para o sacerdócio como agentes dessa benção (Êxodo 19:4-6), provando do seu propósito de abençoar as nações”. 

Um exemplo claro desse princípio está na oração sacerdotal de Salmo 67, que resume claramente o que seria a Missão como uma benção de Deus, e como a Benção tem como finalidade a Missão de Deus: “Seja Deus gracioso para conosco, e nos abençoe, e faça resplandecer sobre nós o rosto; para que se conheça na terra o teu caminho e, em todas as nações, a tua salvação. Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos. Alegrem-se e exultem as gentes, pois julgas os povos com equidade e guias na terra as nações. Louvem-te os povos, ó Deus; louvem-te os povos todos. A terra deu o seu fruto, e Deus, o nosso Deus, nos abençoa. Abençoe-nos Deus, e todos os confins da terra o temerão”.

Conclusão.

Concluímos que Deus poderia ter simplesmente ordenado sua vontade, apresentado o que o homem deveria fazer segundo seu soberano propósito, como mandamentos diretos a respeito daquilo que deveria ser feito. Em vez disso, Deus escolheu abençoar o homem com o propósito de ser um abençoador global, a fim de que o nome de Deus fosse bendito em toda terra.

O que isso tem a ver conosco? O Doutor Russel Shedd em seu artigo sobre “Missões: A prioridade de Deus” ensina que: “A benção da promessa está diretamente ligada à obediência à ordem de ser uma benção. Não dá certo buscar a benção sem querer ser uma benção. É inútil reivindicar bênçãos se não estamos abençoando as pessoas que não tem acesso ao evangelho com a benção da salvação. Se nos interessamos apenas em receber a benção da salvação, sem passa-la adiante, estamos contrariando o propósito de Deus. Desprezamos a prioridade divina. Para o Brasil se tornar um verdadeiro celeiro de missões é necessário que haja uma mudança de paradigma e um realinhar de prioridades”.

Lembramos por fim, das palavras de Pedro a respeito do nosso chamado a vocação sacerdotal do Reino de Deus, nelas fica claro nosso papel em proclamar as virtudes daqueles que nos chamou das trevas para sua maravilhosa luz (1 Pedro 2:9). Luz não tem voz, mas os filhos da luz andam em toda bondade, justiça e verdade, como um manifesto permanente diante das obras infrutíferas das trevas (Efésios 5:8-9), de um mundo vazio de coração obscurecido (Romanos 1:21). Guardemos as palavra de Walter Kaiser: “No Antigo e Novo testamentos vemos que o plano de Deus é que participemos desse sacerdócio, sendo agentes de benção a todas as nações da terra”.

 

"O caminho do significado, mas elevado na vida não está em obter segurança e prestígio. Para nós o significado está sem ser uma benção para as nações. Somos abençoados para sermos benção. É muito mais que um dever, é nosso destino” (Movimento Cristão Mundial Perspectivas).

 

Religião

MOB Collab
Anderson Bomfim
Anderson Bomfim Seguir

Natural de São Paulo, casado com Andrea Bomfim, Pai de Giovanna, Olívia e Pietra, Pastor na Igreja Local Mob em Curitiba-PR, Professor de Teologia na Plataforma Farol de EAD, Gestor da Mob Workspace de empreendedorismo missional e músico compositor.

Ler conteúdo completo
Indicados para você