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Jornada teológica: o que é e em que solo percorre?

Jornada teológica: o que é e em que solo percorre?

Costumamos chamar de jornada de conhecimento a dedicação e o foco por parte de alguém, com a finalidade de conhecer determinado assunto. Quando se trata de Teologia, não é diferente. Por isso, costumo chamar essa trajetória de jornada teológica.

Como a Teologia se trata, no entanto, de conhecer o que de Deus nos é revelado, podemos concluir que essa jornada nunca terá fim, dadas a infinitude e transcendência de Deus. Dessa forma, já que é impossível cravar a linha de chegada dessa maratona, nos resta atentar para onde ela inicia e em que solo ela percorre.

Em primeiro lugar, convém à consciência de todo cristão o fato de que não se pode conhecer a Deus, a menos que o próprio se revele. Por outro lado, o conhecimento de Deus não é impossível, ou mesmo obscuro. Não faltam referências nas Escrituras quanto a isto. Cito Mateus 11.27 e João 1.18, que expressam ambas afirmações que acabo de fazer. Em Cristo, Deus é revelado da maneira mais clara que podemos conhecer.

Onde ocorre, então, essa tal jornada teológica? A resposta mais direta para essa pergunta é: no coração. Sim, é no relevo sinuoso dessa instância do ser, que chamamos de coração, que o Senhor deseja revelar Seus atributos, obras e vontade. Não é à toa que a promessa da Nova Aliança é: “Porei minhas leis em sua mente e as escreverei em seu coração” (Jeremias 31:33). É a operação de Sua Lei no coração que o pavimenta, orientando os nossos passos na jornada que é conhecê-Lo. O texto continua: “E não será necessário ensinarem a seus vizinhos e parentes, dizendo: ‘Você precisa conhecer o Senhor’. Pois todos, desde o mais humilde até o mais importante, me conhecerão, diz o Senhor” (v 34). Percebemos, portanto, que é no coração onde se inicia e ocorre toda a jornada que é conhecer o Deus infinito e transcendente.

 

Realidade inevitável

A essa altura, uma pergunta surge imediatamente: Se o coração é enganoso, como é possível conhecer a Deus corretamente? A resposta para tal questionamento, foi iniciada no parágrafo anterior. Apesar de a Bíblia afirmar que o coração humano é “mais enganoso que qualquer coisa e extremamente perverso” (Jeremias 17.9), essa não é a única verdade que ela expressa sobre a principal instância da alma humana. Basta saltar 14 capítulos adiante, no livro Jeremias, para descobrir que o fato de o coração ter tais atribuições negativas não o torna descartável. Pelo contrário, é nesse mesmo coração, mediante a obra regeneradora do Espírito Santo, que Deus quer estabelecer a Sua Lei.

O que chamamos de coração é uma realidade inevitável inerente ao ser humano, é uma instância do ser, o centro existencial do homem. É onde reside a capacidade volitiva, as motivações, os desejos e intenções, as afeições e lealdade, as emoções e, inclusive, as faculdades cognitivas e racionais do homem. Ou seja, é desse coração vacilante e tendencioso para o mal que dependem os rumos que tomamos na vida (Provérbios 4.23).

As Escrituras, no entanto, nos mostram que há esperança para o homem e seu coração enganoso. A promessa da Nova Aliança sustenta essa esperança. Deus prometeu escrever Sua Lei em nosso coração, para que possamos conhecê-Lo. Por isso, não se desespere, caro leitor. Bom é suspeitar de nossa autoconfiança, ao passo que confiamos inteiramente na obra do Espírito, em nos revelar a verdade no homem interior (Efésios 3.16-17).

 

Conhecemos o que amamos

O que nos dedicamos a conhecer senão aquilo que amamos? O que de fato amamos senão aquilo a que nos dedicamos? Esta reflexão é tão agostiniana quanto necessária para avaliar nossa relação com o conhecimento e com o que desejamos conhecer. As nossas afeições demonstram o quanto de valor atribuímos às coisas. Já nos ensinou Cristo, que “onde o tesouro estiver, ali também estará o coração” (Mateus 6:21). Se eu perguntar sobre a importância que você, caro leitor, dá à oração, certamente receberei um enfático “MUITA”. No entanto, o real valor que damos à oração é expresso na resposta interna que dermos à pergunta: o quanto me dedico a orar?

O mesmo se aplica à Teologia. Se a entendemos como o ato de se ocupar de conhecer o que de Deus é possível conhecer, o que, então, nos impedirá a dedicação na busca por conhecê-Lo pelos meios que Ele proveu, uma vez que o amamos?

 

“Devemos perseverar na busca desta compreensão sem nos deixar desanimar pela dificuldade do caminho ou pela ausência de atalhos. A vista melhora à medida que subimos, e a jornada não é para os pés e sim para o coração.” - A. W. Tozer ¹

 

De fato, a jornada teológica, por ser percorrida no desnivelado solo do coração humano, não é maratona de fácil percurso ou de lindas paisagens o tempo todo. Devemos conservar a certeza de que não é pela nossa força que a cumpriremos com êxito. Mas, nas palavras de Tozer, “temos o consolo de saber que é o próprio Deus quem estimula o nosso coração a buscá-lo, torna possível que o conheçamos em alguma medida e se alegra com o mais pálido esforço de torná-lo conhecido”.²

Meu intuito é encorajar você a perseverar nessa jornada, de conhecer a Deus, e buscá-Lo de todo coração, não só na superfície das informações memorizadas. Pois é no coração onde se dá toda a jornada teológica. É ali que Ele deseja se revelar, escrevendo, com letras indeléveis, o testemunho de Seus incontáveis atributos, Suas obras grandiosas e de Sua boa, perfeita e agradável vontade.

Existe, portanto, uma jornada a ser percorrida, para conhecer o Deus infinito. Tal jornada tem, não só o início, mas todo o seu percurso no coração daquele a quem Ele se revela. E ainda que o nosso coração seja enganoso, Deus enviou Seu Espírito para pavimentar o solo com Sua Palavra, para que possamos prosseguir em uma jornada cujo sucesso não está nas realizações, mas no cumprimento de Sua vontade e no desfrutar de Seus segredos insondáveis (1 Coríntios 2.9). Sua Lei nos ensina a amá-Lo de todo o coração, de toda alma, todo entendimento e forças. Se o amamos, certamente o conheceremos.

“Aqueles que aceitam meus mandamentos e lhes obedecem são os que me amam. E, porque me amam, serão amados por meu Pai. E eu também os amarei e me revelarei a cada um deles.” - João 14.21

 

Referências:

[1] TOZER, A. W. Conhecimento do Santo. Pág 92, Ed Bras. São Paulo: Impacto, 2018.

[2] TOZER, A. W. Conhecimento do Santo. Pág 153, Ed Bras. São Paulo: Impacto, 2018.

 


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