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O que é Fator Betânia e qual é a sua importância para que a igreja local seja uma comunidade relacional?

O que é Fator Betânia e qual é a sua importância para que a igreja local seja uma comunidade relacional?

 

Quem nunca ouviu uma mensagem sobre esse encontro de Jesus com Marta e Maria em Betânia? O que talvez poucos tenham percebido, é que esse lugar, que pode ter como significado do seu nome “Casa de figos” ou “Lugar de Aflição”, aparece várias vezes e em momentos decisivos na vida, na morte, na ressurreição e ascensão de Jesus.

Mas o que pode haver de tão especial nessa pequena aldeia à três quilômetros da cidade de Jerusalém, citada pelo menos doze vezes na narrativa do Novo Testamento? Qual seria o “Fator Betânia”? Que virtudes há nessa casa de família que justifique Jesus querer estar com eles tantas vezes? O que nós, como igreja local, e comunidade de fé, podemos aprender com essa relação de Jesus com Betânia e mais especificamente com a casa de Lázaro, Marta e Maria?

Deus escolheu
ser glorificado no simples.

Olhando com atenção para a casa de Lázaro, Maria e Marta, na aldeia Betânia, descobrimos que havia ali, uma virtude muito importante para Jesus. A simplicidade. Porque? Primeiramente, porque Deus escolheu ser glorificado no simples, no singelo, inocente, modesto e humilde.

Ao contrário do que pode se pensar, o simples não está representado no banal, superficial ou pequeno, mas sim, no suficiente, no ser sem necessidade de adereços, maquiagens, ornamentos, aditivos, é a beleza da vida despida da inutilidade e aliviada do peso das futilidades.

Deus escolheu ser glorificado no simples para denunciar a corrupção do desejo do homem incansavelmente cobiçoso por saber mais, por ter mais, ser mais, consequentemente sentir-se cada vezes mais inseguro, incapaz e inferior. O princípio da simplicidade está no descansar na suficiência que vem de Deus.

 

“E é por intermédio de Cristo que temos tal confiança em Deus; não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus”…
2 coríntios 3:4.

 

Deus foi glorificado no Filho que esvaziando-se de si mesmo (Filipenses 2:6), assumiu forma humana, humilhando-se em reverente submissão a Deus, até a morte de cruz para ser exaltado acima de todo nome no céu e na terra. Jesus, o Filho de Deus nasceu em uma simples manjedoura, em uma família simples, conhecido como o filho de José, o simples carpinteiro, e cresceu em Nazaré (Mateus 2:23), uma simples cidade sem nenhuma tradição por levantar reis na história de Israel (Lucas 4:16), ao ponto de questionarem: “De Nazaré pode sair alguma coisa boa?" (João 1:46).

Durante toda a jornada discipuladora, a escola de Jesus ensina sobre humildade e mansidão para viver o peso espiritual de uma vida leve. Proposta que parece ofender o mapa de valores de todos, sejam eles judeus, gregos, e até mesmo seus seguidores. O primeiro fator a ser observado é que Deus escolheu ser glorificado no simples, para confundir a futilidade altiva da lógica humana, subverter a razão, revelar a força da fraqueza, a insensatez mais sábia, a beleza mais singela, a verdade de uma vida livre dos adornos da vaidade e pretensões egoístas.

 

Jesus gostava de estar em Betânia porque era um lugar simples de gente de verdade. Gente de verdade, sem falsas aparências.

 

Permita-se ser exposto e penetrado pela verdade. Alguém pode optar pela encenação cerimonial. Mas, deve estar ciente que nem tudo que parece é, e o que parece, carece de aparecer, e nem tudo que aparece é o que parece.

Que integridade há no sentir-se perfeito, melhor que o imperfeito, condenado pela perfeição do outro? O íntegro não é o perfeito, mas o inteiro, que sabe lidar com o fracasso da força e o poder da fraqueza. Ser íntegro é ser de verdade, aperfeiçoado pela relação com Deus e o outro.

Melhor é sermos libertos pela verdade que faz conhecer, do que falarmos verdades por toda vida sem nunca termos conhecido de verdade, sem nunca termos sido de verdade. É melhor nos arrepender agora e viver a vida eterna, do que morrermos de arrependimento.

 

A simplicidade legitima o ministério cristão
e a casa de Deus como casa de família.

João 1:23 diz: “Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor, como disse o profeta Isaías. Ora, os que haviam sido enviados eram de entre os fariseus. E perguntaram-lhe: Então, por que batizas, se não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta? Respondeu-lhes João: Eu batizo com água; mas, no meio de vós, está quem vós não conheceis, o qual vem após mim, do qual não sou digno de desatar-lhe as correias das sandálias.Estas coisas se passaram em Betânia, do outro lado do Jordão, onde João estava batizando”.

Se Nazaré é o lugar da juventude de Jesus, seu lugar de crescimento, a região de Betânia foi o lugar determinado para o tempo de começar seu ministério. Esse começo foi marcado pelo encontro transcendente de Jesus com João Batista, na região de Betânia, do outro lado do Jordão, onde Batizava.

O Novo Testamento descreve a João como um homem simples (Mateus 3:4), vestido de peles, comedor de gafanhotos, sacerdote por linhagem e profeta por eleição vocacional, e contrariando todas as expectativas que as pessoas tinham a seu respeito foi para o deserto até o tempo de se manifestar a Israel.

Segundo as palavras de Jesus, ninguém nascido de mulher é maior do que ele (Mateus 11:11), que preparou o cenário da época para Jesus, pregando “arrependei-vos, pois, o Reino de Deus estava próximo “(Mateus 3:2). Mas o que o rio Jordão tem a ver com esse fator “simplicidade”? Na língua hebraica, o termo “Jordão” tem como parte do seu significado “aquele que desce”, mas o que isso teria a ver com simplicidade?

Foi exatamente ali que Jesus, o Deus que se fez carne, foi batizado por João, identificando-se com o homem pecador. Jesus não só cresceu em simplicidade, mas começou seu ministério de forma simples, esvaziando-se, humilhando-se em reverente submissão e auto-sacrifício.

A simplicidade pode guardar o coração de posições extremas. Tendo em vista o testemunho dos homens que responderam fielmente a Deus, nos deparamos com a possibilidade da primeira posição extrema, associada com algum nível de crise de credibilidade, com o ver a si mesmo incapaz de responder, algum tipo de inferioridade altiva.

Nessa condição deve-se livrar dos seus medos e da pressão tirana da opinião publica. Não devem desprezar os pequenos começos e deixar-se ser surpreendido pela fidelidade de Deus para com sua promessa.  Não deixar-se ser usado por relações políticas, utilitárias, manipuladoras, para deixa-se ser achado por Deus, porque só Ele tem o poder de chamar o que ainda não é como se já fosse.

A grande lição a ser observada aqui é que em dias de ostentação ministerial em nome do Reino de Deus, é bom lembrar-se da simplicidade como marca de autenticidade do ministério cristão, sabendo que, isso não tem a ver com os recursos financeiros, mas com natureza e disposição do coração.       

A simplicidade é como um escudo, porque pode guardar o coração de motivações escusas e posições extremas. Tendo em vista o testemunho dos homens que responderam fielmente a Deus, desde as primeiras gerações da narrativa bíblica, como Adão, Cain, até Moisés, reis, profetas e sacerdotes, aprendemos que homens em crise de credibilidade, sentem-se incapazes de responder ao chamado de Deus, por causa de algum tipo de inferioridade altiva.

Será que alguém acredita em inferioridade altiva? Que relação há entre inferioridade e altivez? A verdade é que sentir-se inferior pode levar alguém a desejar sentir-se melhor, ser mais do que se é? Crendo ou não, o fato é que nesse tipo de alma sebosa se instaura a crise de percepção da realidade, porque se perde a capacidade de lidar com a verdade. Na inferioridade não há humildade, por isso, desenvolve superioridade egoísta e adoece corpo e alma.

A inferioridade é altiva, é desvio de caráter e tem visão distorcida da realidade (Provérbios 6:16) porque tem um problema típico da natureza não regenerada. Por isso, a inferioridade altiva não deve ser vista como é fraqueza, mas como pecado (Provérbios 21:4).

Nessa condição de inferioridade altiva, o grande desafio é de livrar-se dos medos e da pressão tirana da opinião publica. Lembrar-se de não desprezar os pequenos começos e deixar-se ser surpreendido pela fidelidade de Deus para com as suas promessas de Deus que tem o poder de chamar o que ainda não é como se já fosse.

“Porquanto aqueles que acham insignificantes os dias dos pequenos trabalhos ficarão agradavelmente surpresos ao virem a pedra principal, o prumo, nas mãos de Zorobabel”. Zacarias 4:10

A simplicidade pode guardar o coração da autoconfiança que não passa de autoengano. Infelizmente, muito ainda são enganados pelo conceito criado sobre si mesmo. Além de gastarem muita energia para manter esse ideal de si mesmo, pior do que alguém não ser o que pensa ser, ou acreditar ser o que não é, é o fato de nunca se tornar, porque ninguém pode ser o que não foi criado para ser. Vale a lembrar das palavras do sábio, que o orgulho precede a queda.

Quando alguém chega ao ponto de ser traído pela imagem criada de si mesmo, torna-se idolatra, por isso, o que esse alguém faz, é só por si e para si mesmo, e não mais de Deus, por Deus, para que Deus seja glorificado em todas as coisas. Nesse momento perde-se um dos valores elementares da Missão de Deus: “Considere os outros superiores a si mesmo” (Filipenses 2:3).

Apóstolo Paulo em Romanos 12:3 diz: “Porque, pela graça que me foi dada, digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que convém; antes, pense com moderação, segundo a medida da fé que Deus repartiu a cada um"…

 

Na simplicidade, gente de verdade
desfruta de relacionamentos profundos.

Sabendo que Betânia era um lugar simples com gente de verdade, o que mais pode haver nesse lugar, mais especificamente, na casa de Lázaro, Marta e Maria? Mergulhando nesse contexto, é possível pensar que se alguém quisesse encontrar Jesus naquela aldeia, era lá na casa de Lázaro, Marte e Maria que Jesus gostava de estar. Por quê? O que havia nesta casa?

Com certeza todos já ouviram centenas de mensagens sobre esses conhecidos irmãos, Lázaro, Marta e Maria. Mas, a questão a ser observado aqui é: De todas essas mensagens ouvidas, quantas delas interpretaram esses irmãos como se fossem metáforas? Provavelmente, a maioria delas.

Contudo, para que alguém possa entrar nessa casa, e encontrar o segredo desse fator Betânia, será necessário mudar o radicalmente o seu olhar. Exatamente como Deus ordenou a Samuel para que pudesse reconhecer qual era o grande segredo do jovem pastor de ovelhas Davi.

A primeira trave que se deve retirar para enxergar claramente esse contexto, é a trave hermenêutica que insiste em tentar abrir a casa de Lázaro, Marta, Maria e Lázaro vendo-os como metáfora. Isso parece tão simples, mas o fato é que eles foram pessoas reais e por isso, não podem ser tratadas como se fossem uma parábola para nossos dias.

Despir-se desse conceito preconcebido fará toda a diferença no processo interpretativo, porque tratar da relação de Jesus com esses irmãos de forma simbólica e metafórica comprova o quanto somos impessoais e o quanto projetamos dessa impessoalidade na relação com Jesus e seus amigos.

Parece que enquanto tentamos entender essa família, classificando-os pelo tipo de performance, avaliando quem é mais espiritual, rotulando-os pelo perfil da sua personalidade, Jesus tem um olhar compassivo, simples e puro para ver com o coração, para ver o coração, a essência do ser do outro, com olhar empático e humanizado.

Preste atenção na narrativa de João 11:3 quando diz que: “Mandaram, pois, as irmãs de Lázaro dizer a Jesus: Senhor, está enfermo aquele a quem amas”, e o texto de João 11:5 quando diz que: “Ora, amava Jesus a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro”. Esses textos mostram claramente que Jesus amava igualmente os três irmãos, independente do perfil da personalidade de cada um. Com base na continuação do texto de João 11:11: “Nosso amigo Lázaro adormeceu, mas vou para despertá-lo”, parece que para Jesus, amava estar ali na simples aldeia de Betânia, porque encontrava lá uma casa de amigos.

Será que o simples, parece ser pouco, ou parece ter pouco valor para uma sociedade de consumo que vive de ostentação virtual, de performance simulada, e pouco caráter comprovado na vida objetiva e concreta? Por que há tanta dificuldade em alcançar a profundidade dessa relação de Jesus com seus amigos em um ambiente de simplicidade?

 

 Uma das lições importantes dessa reflexão é que, em lugares como Betânia, em casas como a de Lázaro, Marta e Maria, a profundidade está na simplicidade, e quanto mais simples for, mais profundo será.

 

Em um mundo utilitário de relações sem comunhão, de corpos sem rostos, de refeições sem ritual de convívio, seus sobreviventes esperam ser salvos por encontros significativos como esse de Jesus com seus amigos.

Quem nunca ouviu alguma mensagem insinuando que Maria significa a mulher aprovada, enquanto Marta, parece ser reprovada, como se estivessem falando da relação de Abel e Cain? Esse tipo de interpretação soa como se alguém estivesse arranhando irritantemente a superfície do contexto, que pode ser simples e profundo demais para gente superficial poder alcançar.

Gente convertida de olhar não recriado, ainda conhece o outro segundo a carne, sua história passada, perfil de personalidade, sua aparência, condição social, e seguem classificando-se uns aos outros como melhor ou pior, o certo ou errado, o espiritual ou carnal. Um ambiente cansativo, míope de percepção, carente de aceitação, desprovido de missão, e pobre de relevância cultural.

A relação de Jesus com essa família nos ensina a não confundir caráter com personalidade. Todos eles como homens pecadores eram modelados segundo o caráter de Jesus através do discipulado, eles criam em Jesus como Filho de Deus.

É importante lembrar disso, para que ninguém venha confundir o fato de Jesus amá-los como eram no aspecto da personalidade, sem rotular pelas diferenças de temperamento ou personalidade, com a mensagem liberal e universalista de livre graça, onde Jesus ama as pessoas como elas são e por isso sua mensagem de salvação pela fé é desprovida de arrependimento pelo pecado e a prática de boas obras.

O caráter tem a ver com a natureza moral, com rostos sem máscaras, com o verdadeiro ser, é o que todos somos longe dos olhos dos outros, é o que não se pode esconder sem de si mesmo, a personalidade tem a ver com o conjunto de características psicológicas, que explicam o modo como cada um responde aos estímulos de cada ambiente, seja ele publico ou privado.

 De forma resumida, pode-se dizer que o caráter é a parte essencial, e a personalidade é comportamental. Alguém pode assumir os traços de uma persona que não corresponda a seu caráter original. A personalidade refere-se à individualidade única, é o que as pessoas veem, enquanto o caráter é o que pode definir alguém como individualista, é algo que nem sempre alguém ver, mas está lá, como as raízes invisíveis que sustentam uma árvore na primavera.

Portanto, entendendo que a personalidade sofre influência direta do caráter, seu modo de ser, sua índole e natureza, conclui-se que em um ambiente de amor a individualidade de todos é preservada, mas o individualismo de cada um é sacrificado. Porque esse tipo de ambiente tem como valor servir uns aos outros, com as características específicas da personalidade, de modo que as pessoas se complementam umas as outras, sem exigir que as outras pessoas se adequem as características da sua própria personalidade.

Paulo explica que uma das características do ser recriado em Cristo é justamente não conhecer segundo a carne (2 Coríntios 5;16). Para Jesus, Marta, Marta e Lázaro não eram rotulados pelo comportamento ou por seus traços de personalidade, não eram julgados pela forma como reagiram em casa situação, mas eram amados por serem pessoas de caráter transformado.

 

Ao contrário do que fazemos geralmente, Jesus não os classifica como um espiritual e outro carnal, não eram estereotipados pelo tipo de performance, porque eram uma família, eram seus irmãos, eram seus amigos.

 

Não há referência nos textos, de Jesus afirmando que Maria era mais espiritual por causa da sua personalidade contemplativa, julgando Marta como carnal por ser mais hospitaleira. Será que não há aqui em Betânia uma dracma perdida, um valor importante a ser resgato para a vida cristã em comunidade? O pensador Francis Schaeffer, em seu livro, "25 estudos bíblicos básicos" diz:

O cristianismo verdadeiro produz beleza e verdade, em especial na área específica dos relacionamentos humanos. Todo homem deve ser tratado no nível de criatura feita à imagem de Deus e, assim haverá beleza nas relações humanas. Caso não demonstremos beleza na forma como tratamos uns aos outros, então, aos olhos do mundo e aos olhos de nossos filhos, estaremos destruindo a verdade que proclamamos. Temos algo a pedir ao Senhor que nos perdoe. Nós, evangelicais, cristãos que cremos de verdade na Bíblia, devemos pedir a Deus para que nos perdoe a feiura com a qual temos repetidas vezes nos tratando quando nos encontramos em campos diferentes. Deve haver beleza, beleza observável, para que o mundo veja como todos os verdadeiros cristãos se tratam”.

Olhando para os textos referentes a esses três irmãos, parece-nos que Lázaro tem o perfil do amigo companheiro, que se assenta na mesa com Jesus, e como precisamos de amigos de mesa! Marta, que na maioria das vezes é rotulada como a ativista, ocupada demais para a espiritualidade, talvez tenha o perfil de hospitaleira zelosa, aquela que serve a mesa (Lucas 10:38), que sai ao encontro de Jesus, enquanto Maria, com seu perfil de mulher contemplativa dedicada, fica sentada em casa chorando a morte do seu irmão (João 11:20).

Maria de personalidade contemplativa e dedicada, é a aquela que ama sentar aos pés de Jesus para ouvi-lo, que derrama lágrimas por causa da morte de Lázaro ao ponto de fazer Jesus chorar (João 11:32), ela derrama o seu melhor perfume sobre Jesus, enxugando-o com seus cabelos (João12:1). Maria é quem declara crer em Jesus como o “Cristo Filho de Deus que deveria vir ao mundo“.

São duas mulheres piedosas com diferentes traços de personalidade, são duas mulheres de caráter, são irmãs que na medida que se relacionam se completam. É assim que aprendemos a ser casa, corpo e família. É essa verdade que pode nos libertar do culto público de idolatria a identidade, para construir um novo tipo de ambiente em que a identidade é coletiva.

Vale a pena lembrar do ambiente descrito por João, antes de Jesus encontrar-se com a mulher samaritana. Ao contrário do ambiente atraente que havia em Betânia, ali é descrito um ambiente de comparação e competição evitado por Jesus, um ambiente hostil, por ele se retira (João 4:1). Portanto, se quiser encontra-lo, não o procure entre aqueles que estão se comparando e competindo entre si.

Mas alguém pode ler o texto e questionar: Jesus não repreendeu Marta por questionar a postura da sua irmã? Independente do que pode ter significado esse diálogo entre Jesus e Marta, é interessante observar em que contexto, na narrativa bíblica, alguém tem seu nome chamado duas vezes por Deus.

Quando Deus chamou Abraão duas vezes pelo seu nome, ele estava no monte Moriá disposto a sacrificar seu próprio filho por amor a Deus (Gênesis 22:11). Moisés teve seu nome chamado duas vezes no seu encontro com Deus no monte Horebe (Êxodo 3:4).

Samuel tem seu nome chamado duas vezes no seu encontro com Deus no tempo (1 Samuel 3:10), assim como Paulo na estrada de Damasco diante da revelação de Jesus (Atos 9;1). O que isso pode significar? A partir desse paradigma escritural, podemos ver a fala de Jesus com Marta com um novo olhar. Quando Jesus diz: “Marta, Marta”.

Talvez esteja acalmando seu coração e reafirmando aquela casa como um lugar de encontro, o momento em que até mesmo o coração hospitaleiro e zeloso deve se aquietar e encontrar descanso em sua presença. Não há evidencias de Marta sendo rotulada como pior ou inferior a sua irmã Maria.

Na simplicidade, o milagre da ressurreição
de Lázaro provoca a morte de Jesus.

João 11:45 a 49 diz:  “Muitos, pois, dentre os judeus que tinham vindo visitar Maria, vendo o que fizera Jesus, creram nele. Outros, porém, foram ter com os fariseus e lhes contaram dos feitos que Jesus realizara”.

Na simples aldeia Betânia, havia uma casa de amigos, com gente de verdade, com as quais Jesus amava estar. Agora é interessante perceber como os momentos mais decisivos da vida de Jesus se desenrolam a partir de alguns acontecimentos em Betânia, na casa de seus amigos.

Todos sabemos da importância da ressurreição de Lázaro para o testemunho de Jesus como Messias, porém, poucas vezes se observa que foi a partir do impacto que esse testemunho de ressurreição causou na cidade que o sinédrio determinou a morte de Jesus.

Isso é muito significativo, porque não vemos um grupo em busca de relevância cultural, vemos uma família procurando ser de verdade, uma fraternidade de amigos de causa amando-se fervorosamente, um ambiente simples e profundo onde os simplesmente acontecem, e sem precisar de muita estratégia de marketing, tem um poder de impacto incrível sobre a sociedade. Portanto, acredita-se que é na simplicidade da vida diária da Igreja local e na profundidade dos relacionamentos que nascerá a testemunho que tocará as nações como cumprimento da profecia de Jesus sobre os últimos dias.

Assim como o milagre da casa de Lázaro, Marta e Maria provocou o cumprimento da profecia a respeito da sua morte, acredita-se que da mesma forma esse tipo de ambiente confeccionará o cenário de cumprimento para sua volta. É como se diante de um mundo todo estivesse sendo abalado para que o abalável seja removido e permaneça apenas o que é essencial e inabalável. É como se Deus estivesse tocando o epicentro da terra, liberando ondas sísmicas sobre os quatro cantos do mundo para desestabilizar, para despir a humanidade da sua futilidade materialista, trazendo-a de volta à sua essência relacional.  

Assim como aconteceu no contexto do nascimento de Jesus, quando pessoas fora contexto religioso perceberam seu nascimento, parece que ainda hoje, o mundo globalizado não religioso está mais sensível para perceber as mudanças que estão acontecendo, estão mais abertos para deixar o que já e foi e entender como responder.

Um exemplo disso, é que ao contrário da tendência evangélica brasileira, ninguém em sã consciência hoje investe em megaestruturas, porque isso implica em alto custo, é pesado para manter, tem pouca mobilidade, é pouco relacional e promove cultura cultocêntrica.

Existem pesquisas mostrando que as organizações mais influências no mundo hoje, não necessariamente são as maiores. Nota-se como nos últimos anos cresceu a cultura das startups, pequenas empresas jovens, que mesmo em um ambiente de instabilidade global, e poucos recursos financeiros, visam desenvolver soluções inovadoras e sustentáveis com objetivo de multiplica-las.

Um lugar de referência dessa tendência global é o Vale do Silício, localizado no sul da Baía de São Francisco, na Califórnia, EUA, conhecido por abrigar muitas startups e empresas globais de tecnologia, dentre as conhecidas Apple, Facebook e Google existem muitas outras não tão grandes e conhecidas que estão revolucionado a maneira do mundo pensar negócios.

Porque ao invés de investir em megaestrututas impessoais, não se pensa de forma multiplicadora, criando estruturas que sejam multifuncionais, que respondam a relação de custo e benefício, que atendam demandas sociais, culturais, educacionais, de acordo com a jurisdição vocacional de cada região?  

Não se trata de uma tendência do mundo empresarial, trata-se de cumprir de forma responsável o mandato criacional de Deus, de multiplicar, encher a terra, ocupar os espaços, sujeitar todas as áreas a Deus e governar com autoridade sobre a terra. Infelizmente parece que uma geração de jovens empreendedores tem respondido melhor do que uma geração de pastores que deveria ser calada como nos dias de Zacarias, porque ao invés de servir ao propósito de Deus para a próxima geração, tende a impor que essa geração se adeque a sua obsoleta maneira de pensar religião, fé e cultura.   

Olhando para o exemplo de Jesus e seus discípulos, parece que um pequeno grupo engajado, tem mais poder de impacto que uma multidão de bons ouvintes. Talvez por isso a grande comissão fale sobre fazer discípulos e não construir templos. Talvez seja esse o melhor momento para igreja brasileira repensar e resgatar sua essência missional.

Por isso, observa-se que por causa dessa profundidade da simplicidade na vida de uma comunidade de fé, não há aspirações por tantas coisas. Há um espírito de moderação e contentamento contagiante.

A proposta é que assim como o milagre da ressurreição de Lázaro, acontecido em Betânia entre amigos, na sacralidade da vida cotidiana, teve tanto impacto e relevância para cumprir o propósito de Deus, existam muitos outros ambientes como esse se formando em todos os lugares do Brasil, onde pessoal não apenas façam milagres, mas sejam um milagre, multiplicando-se não como uma franquia, mas como uma família de discípulos. Assim como aconteceu na continuidade da igreja, quando a palavra crescia porque os discípulos se multiplicavam (Atos 6:7).

O chamado de Jesus é o chamado a Jesus, sem condições nem garantias. Segundo Dietrich Bonhoeffer em sua importante obra sobre Discipulado: “Isso é tudo que nos basta. "O chamado ao discipulado é o compromisso exclusivo com a pessoa de Jesus Cristo".

É interessante como a ressurreição de Lázaro provoca a morte de Jesus, e na morte de Jesus encontramos a ressurreição e a vida. A partir do testemunho da ressurreição de Lázaro, Jesus entregou a vida pelos seus amigos. No Evangelho de João vemos o comprometimento da relação de Jesus com aqueles que chama de “seus amigos “.

João 15:13 diz: “Ninguém tem maior amor do que este: de dar alguém a própria vida em favor dos seus amigos. Vós sois meus amigos, se fazeis o que eu vos mando. Já não vos chamo servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho dado a conhecer”.

Portanto, um dos aspectos do "Fator Betânia" tem a ver com o fato de Jesus dar a vida pelos seus irmãos. "Nisto conhecemos todo o significado do amor. Cristo deu a sua vida por nós e devemos dar a nossa vida por nossos irmãos" (1 João 3:16). Essa relação pactual generosa e sacrificial é legitimada pelo amor provado no compromisso para com seus termos pactuais, direitos e deveres, baseado no juramento da exclusividade e totalidade do seu amor.

 

 É na simplicidade da vida diária da Igreja e na profundidade dos relacionamentos que encontramos a vida do Cristo ressurrecto na morte do eu crucificado.

 

Parece que esse ambiente em Betânia, assim como fez com Jesus, ele também provoca a nossa morte, até que o Cristo ressurreto viva em nosso eu crucificado. Segundo Dietrich Bonhoeffer em sua obra “Vida em Comunhão”: “Comunhão cristã é comunhão por meio de Jesus Cristo e em Jesus Cristo. Não há comunhão cristã que seja mais ou menos do que isso. Quer seja um único e breve encontro ou uma comunhão diária que perdure há anos, a comunhão cristã é somente isso. Pertencemos uns aos outros tão somente por meio de e em Jesus Cristo”.

 

Na simplicidade, um jantar profético
prepara o corpo de Jesus para seu sepultamento.

Seguindo a narrativa de João, logo depois da resolução da sua morte, Jesus está de volta em Betânia, porque seus amigos deram-lhe um jantar. João 12:1 diz: “seis dias antes da Páscoa, foi Jesus para Betânia, onde estava Lázaro, a quem ele ressuscitara dentre os mortos. Deram-lhe, pois, ali, uma ceia; Marta servia, sendo Lázaro um dos que estavam com ele à mesa. Então, Maria, tomando uma libra de bálsamo de nardo puro, mui precioso, ungiu os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos; e encheu-se toda a casa com o perfume do bálsamo”.

Lázaro, chamado por Jesus de seu amigo, aparece como o companheiro assentado a mesa. Marta, a hospitaleira zelosa, serve a mesa, enquanto Maria de personalidade contemplativa e dedicada, se derrama com um perfume sobre seu corpo. Que ambiente incrível de devoção! A pergunta é: Maria tinha noção do quão profético seria ungir Jesus com um perfume tão precioso?

Além de representar um ato de honra aos hospedes (Deuteronômio 28.40 | Lucas 7.46), é também a confirmação de Cristo como o Ungido de Deus, tratava-se da preparação antecipada do corpo de Jesus para seu sepultamento, uma atitude espontânea de honra, que de forma inspirada preparou Messias para os momentos decisivos de sua missão. Esse ato seria tão importante que Jesus declarou em Mateus 26:13: “Em verdade vos digo: Onde for pregado em todo o mundo este evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua”.

Em dias que tantas pessoas parecem “forçar a barra” para mostrarem uma performance profética, Maria agiu de forma muito simples, contudo muito profunda, sendo relevantemente profética por amar a Jesus sem reservas.

Aqui a instrução de Paulo sobre os dons e a profecia fazem todo sentido: "Segue o amor e busque com zelo os dons" (1 Coríntios 14:1). O que Maria fez foi seguir o amor, entregar-se em devoção, sendo naturalmente profética, antecipando o corpo de Cristo para sua morte.

A verdade é que, na medida que segue o amor, esse caminho sempre  levará ao próximo, e nesse lugar, de olhos nos olhos, de empatia compassiva, seguramente será liberado algo da parte de Deus para edificação do outro, ao invés de se usar o dom da profecia para autoafirmação ministerial.

Na simplicidade do amor que compromete tudo, o ministério profético acontece. Segundo as palavras de João o “testemunho de Jesus é o Espírito da profecia”. Esse tipo de ambiente como havia em Betânia é profético porque aqueles irmãos eram fiéis testemunhas do amor de Jesus, um ambiente onde se cultiva o tipo de espiritualidade que é essencialmente relacional e servidora.

 

Na simplicidade, quem é inteiro
revela quem está pela metade.

“Estando ele em Betânia, reclinado à mesa, em casa de Simão, o leproso, veio uma mulher trazendo um vaso de alabastro com preciosíssimo perfume de nardo puro; e, quebrando o alabastro, derramou o bálsamo sobre a cabeça de Jesus. Indignaram-se alguns entre si e diziam: Para que este desperdício de bálsamo? Porque este perfume poderia ser vendido por mais de trezentos denários e dar-se aos pobres. E murmuravam contra ela. Mas Jesus disse: “Deixai-a; por que a molestais? Ela praticou boa ação para comigo. Porque os pobres, sempre os tendes convosco e, quando quiserdes, podeis fazer-lhes bem, mas a mim nem sempre me tendes. Ela fez o que pôde: antecipou-se a ungir-me para a sepultura. Em verdade vos digo: onde for pregado em todo o mundo o evangelho, será também contado o que ela fez, para memória sua” (Marcos 14:3).

É sempre bom, estudar o contexto bíblico, imergindo e envolvendo-se em cada cena, como se estivesse assistindo um filme. Porque quanto mais alguém puder entrar dentro da casa onde estava, melhor poderá perceber o quanto esse jantar é definitivamente memorável.

 

Em uma casa de família, em que gente simples é de verdade, as relações podem ser mais profundas dos que podemos imaginar. Estamos falando de relações baseadas em amor pactual.

 

Quando enfatizamos o aspecto relacional que havia nesse ambiente em Betânia, é importante explicar não se tratar do tipo de relação afetiva informal, no seu nível mais fugaz, como um tipo amor moderno “happy hour gospel”, que faz alguém querer estar com as pessoas para se sentir melhor. Não estamos falando desse tipo de afeição natural.

Esse tipo de afeição é como amor de “pet”, não é a expressão de amor que depende da mediação de Jesus. Porque ninguém é capaz de amar sem que Jesus o tenha amado primeiro, sem que tenha conhecido e crido no seu amor. Esse nível de amor pactual compromete tudo e todos, entrega-se sem reservas, não calcula preço, nem ganhos ou perdas, não se exige garantias, porque esse amor provado em atitudes por Maria, honra Jesus, dedicando-lhe algo digno do seu valor e significado.

Vale observar que Maria, ao ungir Jesus, rompeu com o interesse pessoal para dar tudo, enquanto Judas rompeu com Cristo por causa de interesse pessoal. Qual é o interesse secreto da fidelidade denominacional contemporânea? Essa mulher abriu mão de algo valioso por causa de Cristo, enquanto Judas abriu mão de Cristo para ganhar algo que lhe parecesse valioso.

 

Todos estão em busca de algo, são movidos por um tipo de amor, seja o amor generoso com que Deus ama (João 3:16), ou o amor concupiscente que move o mundo (1 João 2:15).  

 

A partir do momento que todas as circunstâncias apontavam para a crucificação de Jesus, Judas decidiu trair para não sair dessa relação de mãos vazias. Porque infelizmente, ainda parece comum muitas pessoas buscarem pela mensagem do reino de Deus, sem que haja a mensagem da cruz.

Judas é a prova viva de que tentar ganhar realmente significa perder. Ele é a prova de que o ambiente de amor pactual é revelador. Porque se viu totalmente exposto sem que alguém pronunciasse sequer uma só palavra Ao contrário do que se pensa, esse ambiente de amor pactual é constrangedor, porque esse tipo de ambiente em que pessoas amam sem reservas, sempre provoca algum nível de tensão.

O ambiente de amor pactual provoca tensão no sentido de levar a relação ao seu limite, ao estado de estar prestes a romper. É um ambiente de devoção radical. Pode-se afirmar que o ambiente pactual é revelador, porque elimina as dúvidas e define as posições. Nesse ambiente fica claro quem é quem, quais são as suas verdadeiras intensões, assim com define destino.

Portanto, fica aqui um conselho: Ao invés de esperar que as pessoas a sua volta se posicionem para que então se posicionar, tenha coragem para se posicionar, porque seu posicionamento definirá a posição das pessoas a sua volta. Primeiramente, porque não se posicionar já é uma posição, em segundo lugar, porque se posicionar faz com que você deixe de ser refém da indefinição. Então defina suas relações.

Um bom exemplo, é o caso de Jacó, filho de Abraão. Porque ele poderia esperar passivamente até que seu irmão Esaú deixasse seu lugar de indefinição quanto a herança de Abraão. Porém, essa espera o faria refém da indefinição. Ao se posicionar com relação a herança, foi ele quem definiu a posição do seu Irmão, que procurou um lugar nas terras de Ismael, conforme um princípio de afinidade espiritual.

Portanto, ambientes de derramamento pessoal, trará algum nível de rompimento. Manter-se no amor pactual exige romper consigo mesmo, com seus próprios interesses, para unir-se a Cristo e seu corpo. Esse tipo de ambiente provoca o romper de relações, seja com Deus ou com consigo mesmo, por isso, Jesus afirma ter vindo para trazer uma espada (Mateus 10:34), para definir as relações.

 

A verdade é que onde há pessoas dispostas a darem tudo, revela-se quem está pela metade. Isso significa que pessoas bem definidas na sua relação com Deus trazem definição ao seu mundo.

 

Homens pactuais não escolhem o que fazer e não escolhem como fazer, simplesmente fazem o que deve ser feito. Precisamos de ambientes como esse em nossas comunidades locais, em nossas mesas, casas e relações. O que definiu o indefinido Esaú como profano porque vendeu o legado espiritual da benção da primogenitura, foi a definição de Jacó. Precisamos de ambientes pactuais para que haja tempos de definição em um mundo híbrido e indefinido.

Porque é tão difícil ser inteiro nas relações? Talvez porque nas relações as fraturas são expostas. Muitos ainda acreditam no mito das relações perfeitas, ao invés de se deixarem ser aperfeiçoados pelas relações. Ao invés de esconder-se atrás da própria performance usando dons para auto afirmar-se como ministro, deve-se expor as relações afim de ser confirmado como amigo e irmão. Lembre-se que Deus não trabalha com os perfeitos, mas os aperfeiçoa através das relações (Gênesis 17:1).

 

Na simplicidade, se é livre da pressão
de ter que responder expectativas. 

A próxima lição quanto ao Fator Betânia tem a ver com o contexto da essa entrada triunfal de Jesus em Jerusalém aclamado como Rei dos Reis de toda terra sentado sobre um jumento. Segundo o pregador C.H. Spurgeon em sua mensagem sobre a “Entrada Triunfal em Jerusalém”:

“Se Cristo se preocupasse com esta glória do mundo, ela logo estaria a seus pés. Se ele desejasse tomá-la, quem levantaria uma palavra contra sua reivindicação, ou quem levantaria um dedo contra o seu poder? Mas ele não se preocupa com isso. Levem suas quinquilharias para outro lugar, tirem suas lantejoulas daqui ele não as quer. Removam sua glória, e sua pompa, e seu esplendor, ele não necessita de nada de suas mãos. Seu reino não é deste mundo, de outro modo seus servos lutariam, e seus ministros estariam vestidos com mantos de escarlate, e seus servos estariam assentados entre os príncipes, Ele não se preocupa com isto. Povo de Deus, não busque por isso. O que seu Mestre não teria, não procurem para si próprios. Oh! Igreja de Cristo, o que teu marido desdenhou, desdenhe você também. Ele poderia ter tido isso, mas ele não teve. E ele leu para nós a lição, que se todas estas coisas podem ser da Igreja, foi bom para ele ter passado por elas e dizer: “Elas não são para mim – Eu não pretendo brilhar nestas plumas emprestadas. “

Seguindo a narrativa de João, além de vermos o cumprimento de mais uma profecia a respeito de Jesus, o que chama a atenção nesse contexto, é a expectativa criada do povo com a possibilidade de coroação de Jesus como Rei dos Judeus. Marcos 11:8 diz:

“E muitos estendiam as suas vestes no caminho, e outros, ramos que haviam cortado dos campos. Tanto os que iam adiante dele como os que vinham depois clamavam: Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor! Bendito o reino que vem, o reino de Davi, nosso pai! Hosana, nas maiores alturas! E, quando entrou em Jerusalém, no templo, tendo observado tudo, como fosse já tarde, saiu para Betânia com os doze”.

Preste atenção! Como disse Spurgeon, esse poderia ser o seu grande momento, mas na hora do reconhecimento da opinião pública, o momento mais esperado por muitos e desejado por quase todos de coroação ministerial, Jesus simplesmente se retira de novo para Betânia, onde se mantém na palavra que estava sobre sua vida.

Isso significa que Jesus não se preocupa em ter que corresponder a expectativa da multidão, pois não veio para ser coroado pelos homens, mas para ser obediente até a morte, e então ser coroado pelo Pai, recebendo o nome sobre todo o nome (Filipenses 2:5). Essa é uma das lições mais poderosas de todo esse contexto.

É interessante perceber que essa expectativa de coroação estava presente até mesmo nos seus seguidores mais próximos, tudo indica que seus discípulos foram influenciados por essa expectativa popular, o resgate da honra nacionalista de Israel, a ascensão de um novo poder político religioso.

Segundo a narrativa de Lucas 22.24, seus discípulos já discutiam entre eles qual seria o maior. Em Marcos 10.39, Pedro e Tiago pedem a Jesus uma posição de honra em seu Reino, pedido que causou indignação entre os outros. Estavam criando expectativa a respeito do Reino presente politico religioso, ou estavam descansados na promessa do Reino vindouro?

É bom lembrar que homens tem expectativas e Deus tem promessas. Isso significa que Deus não tem compromisso com as expectativas dos homens, mas tem compromisso suas promessas. Segundo a narrativa de Lucas 24, os discípulos que caminhavam para a cidade de Emaús diziam: “Nós esperávamos que fosse ele que havia de redimir a Israel”. Um quadro claro de frustração porque esperavam que as coisas acontecem de um modo diferente. Mas o fato é que, ainda que as coisas não aconteçam como o esperado, não significa que as coisas não estejam acontecendo.

Não podemos deixar que a frustração leve ao isolamento e cegue para a realidade. A partir do momento que aqueles discípulos, foram lembrados de tudo que estava escrito a seu respeito em todas as escrituras, e depois entraram em comunhão partindo o pão com Jesus ressurrecto, seus olhos foram abertos, e imediatamente se reposicionaram juntos com seus irmãos em Jerusalém.

Quantas pessoas se sentem frustradas com relação a sua experiência com a igreja local? Quando deixaram de acreditar na vida em comunidade, por não terem suas expectativas correspondidas? Quantos estão baseando sua relação com a igreja nesse tipo de expectativa ao invés basear-se fielmente nas promessas divinas? Hebreus 10:35 diz: “Não abandoneis, portanto, a vossa confiança; ela tem grande galardão. Com efeito, tendes necessidade de perseverança, para que, havendo feito a vontade de Deus, alcanceis a promessa”. Ao invés de ser refém de expectativas não respondidas, confie nas promessas de Deus que não é homem para mentir ou se arrepender.

Mas por que, depois da entrada triunfal, Jesus retirou-se para Betânia? Porque diante da pressão de ter que responder essa expectativa das pessoas, retirou-se para estar com seus amigos, com quem poderia ser simplesmente Jesus. Um lugar para ser de verdade.

Todos sabem que não existe nada pior do que ter que viver sobre a pressão responder a expectativa dos outros, de ter que ser o que esperam que você seja. Imagine quão terrível deve ser a dor de não poder ser aquilo que foi chamado a ser ou fazer, assim como, quão terrível é não conseguir ser aquilo que as pessoas esperam que seja. É como dedicar-se por toda a vida a tornar-se nada, a ser ninguém, e por fim, chegar a lugar nenhum. Esse tipo de pressão tem causado muita dor e adoecido a alma de muitos irmãos ao redor do mundo.

Portanto, precisa-se mais do que nunca de ambientes que valorizem relacionamentos ao invés de performance. Porque a filosofia motivacional é muito cansativa, e é uma questão de tempo para que comece a desmoronar sobre suas cabeças, em forma de frustração, esfriamento e apostasia da fé.

Precisamos de comunidades que tenham esse “Fator Betânia”, se tornem um lugar de descanso, onde as pessoas tenham liberdade para ser de verdade e mostrarem-se vulneráveis, serem expostas em suas inverdades, até que Cristo seja de verdade em todos.

O próximo conselho é que as pessoas se libertem da pressão da opinião publica. Que não desprezem os pequenos começos, e nunca duvidem do que Deus pode fazer através de suas vidas. Que não lutem contra a verdade e não se deixem ser usados em relações utilitárias, mas deixem-se ser achados por Deus…

Na simplicidade, o lugar de despedida
nos fala do dia do reencontro. 

Por fim, a aldeia Betânia continua sendo um lugar de cumprimento na vida de Jesus, um lugar de nascimento de uma viva esperança na vida da igreja, um ambiente de antecipação futura e testemunho escatológico, porque foi o lugar da ascensão messiânica, lugar de proclamação da promessa da sua volta. Segundo a narrativa de Lucas 24:50, Jesus: “os levou para Betânia e, erguendo as mãos, os abençoou. Aconteceu que, enquanto os abençoava, ia-se retirando deles, sendo elevado para o céu. Então, eles, adorando-o, voltaram para Jerusalém, tomados de grande júbilo; e estavam sempre no templo, louvando a Deus “.

Nesse lugar chamado Betânia, aprende-se que, nos últimos dias, Jesus não espera receber frios relatórios de operários desconhecidos, porque virá encontrar com sua família sacerdotal, seus irmãos e amigos, que o conhecem de verdade, com amor pactual, todo coração, alma e força.

Naquele dia, muitos chamarão pelo seu nome duas vezes, procurarão se apresentar como seus amigos, mas não passarão de desconhecidos que atuaram na ilegalidade da informalidade (Mateus 7:22). Por isso, Jesus diz: “Apartai-vos de mim, os que praticais a iniquidade”. O termo usado no grego para iniquidade tem como significado a condição daquele que está fora da lei, aquele que reivindica direitos, mas não cumpre deveres. Por isso, Jesus propõe mudar a dinâmica da relação com seus discípulos. Ele decide não os chamar de servos, porque servos não sabem o que faz o seu senhor (João 15).

Esse tipo de relação baseada no medo e na ignorância deve mudar. Por isso, Jesus chama-os de amigos, porque a eles confia as palavras do Pai (João 15:15). Chamar de amigo é uma declaração profunda de amor. Trata-se do amor que está relacionado a confiança, companheirismo, relacionamento profundo e perpétuo.
 

Se a ascensão de Jesus tem alguma relação com o lugar em que ele amava estar porque haviam ali amigos, isso pode nos falar sobre como e com quem será o grande reencontro.


Portanto, o Fator Betânia está relacionado a comunhão escatológica, a não deixarmos de congregar, de estarmos próximos uns dos outros, nunca deixarmos de nos encorajar, exortar e cuidar mutuamente, quanto mais se percebe que o dia do grande encontro se aproxima (Hebreus 10:36). Dietrich Bonhoeffer em sua obra “Vida em Comunhão” diz que:

“O privilégio que os cristãos têm de viverem já agora em comunhão visível com outros cristãos, no período entre a morte de Cristo e o juízo final, é apenas uma antecipação misericordiosa de coisas derradeiras. É graça de Deus uma comunidade poder reunir-se neste mundo, de maneira visível, em torno da palavra de Deus e dos sacramentos. Nem todos os cristãos compartilham dessa graça. As pessoas presas, doentes, solitárias que pregam o evangelho em terras pagãs estão sozinhas. Elas sabem que a comunhão visível é graça. Porque a presença física de outros cristãos constitui para o cristão uma fonte de alegria e fortalecimento incomparáveis. Se um único encontro com um irmão traz tanta felicidade, que riqueza inesgotável deve ser àqueles que, pela vontade de Deus, são considerados dignos de viver em comunhão diária com outros cristãos! Obviamente, o que para uma pessoa solitária é indizível graça de Deus, facilmente pode ser desprezado e pisado pela pessoa que goza desse privilégio todos os dias”.

Lembremos que, por meio de Cristo, fomos feitos herança e herdeiros de Deus (Efésios 1:11-14), e como garantia da herança completa recebemos o Espírito Santo de Deus que nos guia, instrui, confirma, capacita e conduz até o dia do Senhor. Com essas palavras finais, quero chamar sua atenção para algo. Se a garantia e adiantamento da nossa herança é o Espírito Santo de Deus, a nossa herança completa é “o que” ou é “quem”? A nossa recompensa final tem a ver com desfrutar de coisas ou de uma relação eterna de amor com Deus em sua plenitude?

 Esse pode ser o segredo da aldeia Betânia, ser o lugar de encontros que marcam nossa vida, que proporcionam momentos de definição em nossa história. Estamos decididos a procurar implementar esse “Fator Betânia” em nossa vida em comunidade, procurarmos pela profundidade relacional na simplicidade da vida, sermos de verdade, livre de expectativas criadas, para vivermos dias de cumprimento de todas as promessas divinas. Seguimos...

 

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Anderson Bomfim
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Natural de São Paulo, casado com Andrea Bomfim, Pai de Giovanna, Olívia e Pietra, Pastor na Igreja Local Mob em Curitiba-PR, Professor de Teologia na Plataforma Farol de EAD, Gestor da Mob Workspace de empreendedorismo missional e músico compositor.

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