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Como Lidar com a Realidade da Morte em Dias de Pandemia Global? Qual é a Mensagem da Morte a Todos os Homens?

Como Lidar com a Realidade da Morte em Dias de Pandemia Global? Qual é a Mensagem da Morte a Todos os Homens?

Introdução

Todos os homens, em sã consciência, têm noção da fragilidade e da vulnerabilidade da vida. Contudo, àqueles que não alcançaram essa consciência, o apóstolo Tiago faz um questionamento elementar: “Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros. Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida?”. Então, ele mesmo responde: "Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa” (Tiago 4:14).

Parece que assim como na atualidade, aquelas pessoas a quem o autor se referia estavam com suas vidas planejadas, com viagens agendadas, seus objetivos traçados, prospecções para os negócios economicamente positivas, enfim, todos estavam comprometidos com seu planejamento estratégico, focados em alcançar suas metas, sem tempo para pensar na brevidade da vida, na fugacidade dos bens, na vaidosa corrida proposta pela cosmovisão materialista secular.

Basta prestar um pouco de atenção, para ver multidões de irreligiosos cumprindo rigorosamente seus ritos cotidianos. E, ao contrário de muitos cristãos não engajados, os devotos a esse sistema de crenças são comprometidos, a ponto de sacrificar tempo com a família, cuidados básicos com a saúde, e, dentre outras coisas, sacrificam a consciência de que estão em um plano limitado de vida. Esquecem  que a neblina agora surge, mas logo desaparece. Esse mesmo pensamento é apresentado pelo Apóstolo Pedro ao comparar a brevidade da vida com “a flor da erva que floresce, mas logo seca e morre”. (1 Pedro 1.24, 25)

Ao ler a obra de Loraine Boettner, sobre a doutrina da Imortalidade, uma das suas declarações pareceu fazer muito sentido para todos que estão vivendo dias de pandemia global: “Nada há mais certo a respeito da vida do que este fato, a morte. Pode demorar muito a chegar, mas virá, sem falta. A morte não respeita ninguém. Pode vir a qualquer um, novo ou velho, rico ou pobre, santo ou pecador, em qualquer altura e em qualquer lugar. E, quando Deus chama, ninguém pode fugir, nem se desculpar, nem tão pouco apresentar qualquer álibi. Na verdade, a vida é curta, a morte é certa, e a eternidade infinita. A morte é por demais definitiva! Dela não há regresso. Vem para ti e para os teus, como tem vindo para milhões de outras pessoas, é um fato inevitável. Pode vir cedo, na vida, ou depois de longos anos de felicidade. Mas tem de vir. A única forma de lhe escapar, é nunca ter nascido”.

Scarlett Marton, em seu artigo sobre a morte como um instante de vida, comenta que: “Hoje a morte não é vista como um ganho, mas como perda. Nos tempos modernos, ela se tornou um tema a ser evitado. Porque obrigou-o [o homem] a deparar-se com a própria fragilidade; coagiu-o a defrontar-se com a finitude. Na sociedade em que vivemos, o ser humano que está à morte é tido por um insucesso. Ao examinar diferentes culturas, notamos que o homem desde sempre lutou contra a morte. Impulsionado pelo desejo de tornar-se imortal, quis deixar vestígios de sua existência na Terra”.

Com base nessas declarações, conclui-se que a morte é um fato, porém, nem sempre esperado, muito menos desejado, e na maioria das vezes subestimado. Porém, em dias de pandemia global, com estimativas altíssimas de mortes por dia, podendo chegar a centenas de milhares de mortos no mundo, muitos que evitavam pensar sobre a morte, ocupando-se de demandas secundárias, como beber, comer, vestir, passam a ter que lidar com questões primárias quanto ao sentido da vida e o mistério da morte. Alguns questionamentos como:  “O que é a morte?”, “Porque morremos?”, “Porque temos medo de morrer?”, “O que acontece depois da morte?”, podem começar a surgir. E não só isso, podem começar a afligir.

A proposta desse texto não é fazer uma abordagem pessimista ou fatalista, para incitar medo ou desespero. Pelo contrário, somos realistas esperançosos e, quem sabe, possamos concordar que o mundo vive um bom momento para refletir sobre a morte, como uma mensagem para a vida, de como é vivida, assim como, quem sabe, alguém possa perceber que a mensagem da morte é sobre vida, a vida que deve ser vivida para sempre.

Por que seria importante falar sobre a morte? Valendo-se das palavras de N. T. Writgh em sua obra "Surpeendido pela Esperanca", uma boa justificativa seria que: "Há uma variedade de crenças sobre a morte e as pessoas supõem que os cristãos creem em numa vida após a morte no sentido genérico, e não imaginam como as noções mais específicas sobre a ressurreição, juízo, segunda vinda de Cristo se encaixam nesse sistema de crenças, nem como se relacionam com os interesses urgentes do mundo real. A questão não é simplesmente estabelecer o que devemos crer em relação a alguém que morreu, ou sobre o nosso provável destino pós-morte, embora isso também seja importante. Trata-se de refletir seriamente sobre os propósitos de Deus para o mundo e o que ele tem feito nesse sentido, como parte desses propósitos".

 

Qual seria a causa da morte?

Voltando ao princípio, a morte aparece pela primeira vez na narrativa do livro dos livros, a bíblia sagrada, como parte do termo do pacto das obras, firmado entre Deus e o homem/humanidade, prefigurado em Adão. Sabe-se que Deus é amor, contudo, poucos entendem sua forma de amar, ou seja, que Deus ama de forma pactual e legislativa. O teólogo americano Palmer Robertson define essa relação pactual como:

“A aliança estabelece o compromisso de uma pessoa com a outra, envolve compromissos com consequências de vida e morte”.  

Sabe-se que todo pacto deve ser validado por seus termos, ou seja, uma palavra de juramento, declaração de direitos e deveres, assim como, uma promessa de exclusividade e totalidade. Por isso, pode-se afirmar que o amor de Deus é pactual e legislativo (Gênesis 2:16).

Deve-se observar que, nessa relação original, a legislação é interior. Os termos pactuais estão dentro do homem, os mandamentos a cumprir, os estatutos que preservam a integridade da relação, assim como, o juízo a guardar para não pecar contra Deus (Salmo 119:11).

Alguém pode perguntar: “Por que Deus faz alianças?” A resposta é que essa é a sua natureza. Deus faz tudo o que faz da maneira que faz, porque tudo o que faz expressa tudo o que É. A equação é logicamente simples: Deus É, logo Deus faz, logo Deus expressa atributos do seu ser nas coisas que faz. Paulo explica muito bem sobre isso nas primeiras palavras em sua carta aos romanos.

Por isso, o plano divino de Criação, Queda, Redenção e Consumação de todas as coisas se revela de forma progressiva através das alianças que Deus fez durante a história, até seu pleno cumprimento em Cristo.

A primeira aliança firmada por Deus com Adão pode se chamar pacto das obras, pacto da criação, ou ainda, pacto da vida, uma vez que essa era a recompensa oferecida por seu cumprimento, ou seja, a graciosa proposta original de Deus ao homem sempre foi da imutável vida eterna. (Oséias 6:7)

Dessa forma, o pacto das obras ou da vida, firmado entre Deus e Adão, pode ser entendido como um manifesto da bondade de Deus, “pela qual uma obediência temporária poderia ser graciosamente aceita como fundamento, para que Deus assegurasse a Adão eterna santidade, felicidade e comunhão com Deus”, como disse Roberto Dabney, em sua teologia sistemática.

Pensando de forma lógica, se a morte eterna é o castigo pela desobediência aos termos do pacto das obras, a recompensa pelo seu cumprimento só poderia ser a vida eterna. Para Paulo Anglada: “Adão já possuía, por natureza, a imortalidade e santidade. Apesar disso, ele encontrava-se em um estado no qual ainda poderia pecar. A recompensa do pacto seria a confirmação da imago dei (Imagem e semelhança de Deus). Isso significaria a mudança do estado original de santidade para um estado de glória, no qual estaria eternamente eliminada a possibilidade de transgressão da vontade de Deus e definitivamente asseguraria a vida eterna”.

Seguindo a narrativa de Gênesis, o mesmo Deus que cria por meio da sua palavra é o Deus que ordena a sua relação com a criatura e a criação pela palavra. A primeira bênção de Deus ao homem foi para comer livremente de toda árvore do jardim.  Deus amou para prover, abençoou com liberdade, e estabeleceu o limite desse ambiente seguro do pacto.

Por isso, o lugar mais seguro para estar é dentro de uma relação pactual. O limite de segurança dessa relação seria a árvore do conhecimento do bem e do mal, e permanecer nesse ambiente significaria viver para sempre e crescer em responsabilidade e autoridade, para cumprir sua vocação para a glória de Deus. Contudo, romper esse limite de segurança, esse estatuto do pacto significaria morrer para sempre. Deus decretou como certa a morte do homem, como consequência da desobediência. (Gênesis 2.17 | 3.19 | 5.5)

Para Agostinho de Hipona, em sua obra “A cidade de Deus”: “... os primeiros homens foram certamente criados para não sofrer nenhum gênero de morte se eles não pecassem, mas sendo tornados os primeiros pecadores, foram punidos com a morte”. Em sua obra sobre a correção e graça, ele afirma que:

“A primeira liberdade da vontade foi poder não pecar, a última será maior, não poder pecar. A primeira imortalidade foi poder não morrer, a última será maior, não poder morrer”.

Agostinho faz uma distinção importante do ‘antes’ e o ‘depois’ da Queda a partir da perspectiva da graça divina. Para ele, o homem original, no seu estado de criação, podia não pecar, mas usou mal de seu poder, o que ocasionou a Queda.

Segundo o filósofo e teólogo francês Blaise Pascal: “é o orgulho que ocasiona o primeiro pecado e a desastrosa queda do homem”. Agostinho, em sua obra sobre a Trindade afirma que:

“A alma que ama seu próprio poder, passa furtivamente do universal, que é comum a todos, ao particular que lhe é próprio”.

Para Agostinho, o orgulho é a manifestação da avareza, pois, ao separar-se de Deus e se particularizar, o homem faz de si um bem, direcionando seu amor a este bem particularizado e desligado do universal. Portanto, para ele, o pecado é uma forma de negligenciar as realidades eternas para ligar-se àquelas temporais e precárias.

Contudo, para Robert L. Dabney, importante teólogo do século XIX, considerado um dos melhores professores de teologia dos Estados Unidos, e um dos primeiros pensadores teológicos do seu tempo: “O orgulho não poderia ser naturalmente sugerido a alma da criatura, a não ser que antes a incredulidade tivesse obliterado (eliminado pouco a pouco) a compreensão da sua relação com Deus infinito, porque a incredulidade na mente geralmente determina sentimentos e determinações na vontade. Porque a tentação parece ter objetivado primeiramente produzir incredulidade, através do descuido da criatura (Gênesis 3:1), e porque o elemento inicial do erro deve ter-se feito presente no entendimento, visto que a vontade era, até então, santa”.

A questão é: se a árvore do conhecimento do bem e do mal esteve sempre ali, ela era desejável ou se tornou desejável? A impressão é que naquele momento específico, Eva viu aquela árvore de forma diferente. Parece que agora havia um brilho corruptor do desejo, que aquela árvore teria se tornado desejável.

O interessante é que a serpente atua como que em um processo mental. Primeiro questiona a palavra de Deus, prova a convicção, detecta dúvida e provoca a incredulidade. O engano do pensamento corrompe o desejo, produz a cobiça e desperta a imaginação.

Nesse momento, ela se vê comendo do fruto, e é tomada de novas sensações. Nasce o pensamento pecaminoso subjetivo, a iniquidade como mal implícito, dentro do coração, que impulsiona a ação transgressora, altiva e autônoma, o pecado objetivo e concreto. O teólogo Paulo Anglada explica que:

“A incredulidade foi o pecado que possibilitou que desejos naturais, se degenerassem na concupiscência pecaminosa, no orgulho e na rebeldia".

Eis o processo gestacional do pecado descrito pelo apóstolo Tiago: “Cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então, a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, uma vez consumado, gera a morte” (Tiago 1:15).

O poeta brasileiro João Alexandre diz que: “Todo pecado, é pensando, sentido e gostado”. Isso significa que não se peca sem querer, nem se fala sem pensar, porque como Jesus ensinou, é de dentro do coração, do centro da vida que nascem os maus pensamentos, desejos e vontades (Mateus 15:18).

Vale lembrar que o problema não está com o desejo, pois o desejo é bom, como dádiva de Deus. O problema está com a corrupção do desejo, a cobiça, como desejo sem limites, a concupiscência que move o curso desviado do mundo contra Deus.

Portanto, se a primeira liberdade era de poder não pecar, a última, como afirma Agostinho, será muito maior: de “não poder pecar”. Da mesma forma, o “poder não morrer” não era garantia de imortalidade, porque o homem poderia abandonar a própria imortalidade por causa do pecado.

Segundo as palavras de Andrei Venturini Martins, em sua obra sobre a origem do mal em Blaise Pascal: “a primeira imortalidade, na qual o homem tinha a primazia de poder não morrer, é superada por outra ainda mais vigorosa: aquela de não poder morrer jamais. Solapando a morte do horizonte humano, e, assim, desfrutando da imortalidade”. A partir dessa perspectiva agostiniana reafirmada por pascal, conclui-se que:

“A morte é pena do pecado, imposta ao homem para expiar seu crime, necessária ao homem para purga-lo (Purificar) do pecado”.

A morte seria a maldição por causa do pecado, necessária para expiar o homem do pecado. A morte, como juízo divino por causa da quebra dos termos da relação pactual, parece ter cumprimento imediato e progressivo.

Como já vimos, esse ato explícito, objetivo e concreto que é a transgressão (1 João 3:4), é resultado da corrupção do desejo, ou seja, do mal implícito dentro do pensamento do homem, que é iniquidade. Disso resulta a mudança de posição espiritual do homem para com Deus, que é a condição de pecado.

Por isso, a primeira pergunta feita por Deus ao homem não é sobre o que ele fez, mas sobre onde ele estava. O apóstolo Paulo vai explicar sobre esse transporte para um novo lugar espiritual em Cristo, escrevendo aos Colossenses que: “Deus nos transportou do império das trevas para o Reino do seu Filho amado” (Colossenses 1:13). Para Agostinho de Hipona, em “A cidade de Deus”, quando Deus pergunta: 

“Adão, onde estás? Disse-o, não perguntando, como se o ignorasse, mas advertindo-o, com censura, de que cuidasse de saber onde estava, porque Deus já não estava com ele”.

Portanto, conclui-se que a morte é a consequência de um juízo divino pelo pecado (Ezequiel 18:4), um efeito contingente de graça para que haja redenção do homem antes que os pecadores condenados à morte sejam julgados, e então, como Paulo afirma: "O último inimigo a ser destruído é a morte”. (1 Coríntios 15:26)

Para Loraine Boettner, em seu livro sobre a doutrina da imortalidade: “A morte não é, pois, como afirmam os unitarianos e os modernistas, o resultado de uma lei natural. Pelo contrário, se não tivesse havido pecado, não haveria morte. Só podemos afastar o terror da morte, quando nos libertamos do fardo do pecado. Deus não pode, porém, perdoar pecados, pondo-os de lado, como se fossem uma coisa sem grande importância. No princípio, ele criou a Lei segundo a qual o salário do pecado é a morte. Isto não foi uma simples ameaça”.

Uma vez que, entenda-se a morte como consequência do pecado, é importante entender a distinção entre pecado (Singular), no sentido de natureza pecaminosa, e pecados (Plural), no sentido de práticas pecaminosas. Na etimologia da palavra, no hebraico ‘chata’, pecado é errar o alvo ou o caminho correto e do dever, como em Adão, perder o rumo e propósito, perambulando errante sobre a terra como Caim, perder o direito e irromper em culpa, seguindo o mesmo sentido, a palavra grega ‘Hamartia’, confirma o pecado como desviar-se ou violar a lei de Deus.

Segundo o teólogo brasileiro Heber Campos Jr., em seu livro sobre Cosmovisão: “o pecado não se refere apenas a nossos atos, palavras e pensamentos, pois a Bíblia não trata de pecado apenas no plural, mas, principalmente, no singular, como sinônimo de inclinação pecaminosa (doutrina do pecado original). Pecado não é apenas o que fazemos, mas o que nos leva a fazer o que fazemos”.

 

Qual seria a causa do pecado?

O pecado, seja consciente ou inconsciente, é a negação da realidade, que originalmente foi incitada astuciosamente pelo opositor, causador da inimizade entre Deus e o homem, pelo enganador que promete o céu sem Deus, assim como poder e conhecimento sem o poderoso conhecedor, propõe o ideal de liberdade da ordem divina, que na vida real escraviza o homem, tornando-o cativo das próprias paixões. Trata-se de uma profunda perda no homem por causa da perda de Deus.

Segundo a narrativa da Queda em Gênesis, Eva é tentada por uma serpente, descrita por João como a “antiga serpente”, e o “futuro dragão” (Apocalipse 12:9), contudo, o pecado não pode ser justificado pela transferência da culpa à serpente como instrumento de tentação, como se faz desde Adão até hoje.

Por exemplo, o gnosticismo atribui o mal à matéria, o evolucionismo atribui o mal aos resquícios da natureza animal, o pelagianismo, que influenciou o arminianismo, desassocia a pecaminosidade humana do pecado original.  Porém, ainda parece ser o melhor caminho, seguir as pegadas dos pais apostólicos, dos pais da igreja ocidental e do protestantismo reformado, pois eles explicam essa pecaminosidade como consequência direta e inevitável do pecado original, da desobediência de Adão aos termos da relação pactual com Deus.

Sem a intensão de mergulhar em uma teodiceia sobre a origem do mal (A teodiceia é a tentativa de justificar Deus diante do homem pelo mal que existe no mundo), parece inevitável pensar sobre a possível presença do mal na criação antes da Queda. Segundo a definição de  Kelly James Clark: "Uma pessoa oferece uma teodiceia quando tenta responder à pergunta: Por que Deus permite o mal?"

Para Paulo Anglada, Deus não criou o mal, porque, ao contemplar a sua criação, viu que tudo era bom (Gênesis 1:1). Para ele, o mal surgiu no mundo angelical, na queda de Satanás e seus anjos, apontando algumas passagens bíblicas como Judas 6 e II Pedro 2:4, a profecia contra a Babilônia (Isaías 14:12-15) e a advertência de Paulo em I Timóteo 3:6, para reconhecer essa queda como origem a presença do mal na criação. Contudo, Alister MacGrath e J. Parker explicam no manual da fé cristã que:

"Esse mal é verdadeiro e hostil, mas só existe porque parte da criação divina decidiu se desviar do criador, e não porque o mal já estava presente desde o início com Deus." 

Nesse momento, é importante prestar atenção nas placas sinalizadoras, para não entrar pelo caminho da teodiceia dualista maniqueísta que, segundo a definição de Norman L. Geisler, “rejeita qualquer possibilidade de traçar as origens do bem e do mal a uma e mesma fonte. O mal existe como um princípio independente e completamente separado do bem".  

Na tentativa de justificar a Deus, ao declarar que Ele não tem nada a ver com a origem ou com a presença do mal no universo, acabam criando um outro deus, e consequentemente cria-se a imagem da batalha eterna entre dois deuses, o bem contra o mal, a luz contra as trevas, como se fossem dois seres independentes, ignorando o fato de que ninguém pode se tornar o que não foi criado para ser.  

Ha um só Reino, um só e único Deus, Pai de todos, criador de todas as coisas, que governa com total e absoluta autoridade sobre tudo no céu e na terra.  Essa ideia ainda preservada pela cultura da batalha espiritual, deve ser repensada e organizada a partir da perspectiva teo-referente. 

A questão é se o mal foi criado, se teria natureza ontológica, caráter autônomo, ou poderia existir por si mesmo. A partir dessa perspectiva agostiniana, não há o mal ontológico, o mal não existe como entidade autônoma, mas como a deturpação do bem. Isso significa que o mal precisa do bem para que exista, assim como o falso da deturpação do verdadeiro e a mentida da verdade.

Para Lewis, há um só bem supremo e absoluto, e tudo o que existe é essencialmente bom. Por isso, não parece sólido o mal ter o mesmo tipo de realidade, inteireza e autonomia que o bem, mas, sim, que o bem seja original e o mal uma mera perversão do bem, que o bem seja capaz de existir por conta própria, ao passo que o mal precise do bem, a fim de dar continuidade à sua existência parasitária. Na sua obra “Deus no banco dos réus”, Lewis afirma que:

“A crueldade não vem de desejar o mal em si, mas da perversão do bem. O bem e o mal, portanto, não são equiparáveis, a maldade não é sequer má do mesmo modo que a bondade é boa”.

O pastor americano John MacArthur, em seu livro “Sociedade sem pecado”, afirma que: “O mal não é algo criado. Não é um elemento. O pecado é uma realidade moral e ética não física. Pecado é uma imperfeição em algo bom. Ninguém o criou, é a perda da perfeição em seres que Deus criou de uma maneira perfeita”.

Michael Horton afirma na sua obra de teologia sistemática, que essa perversidade do mal corrompe o que é nobre, suprime o que é justo, suja o que é bonito, e anuvia a luz da verdade.  A mordomia real do homem sobre a criação, é distorcida em tirania.  Para Horton:

"Cada sinal de opressão humana, violência, idolatria e imoralidade no mundo pode ser visto como uma perversão de algo originalmente bom".

Contudo, ao invés de compreender sua responsabilidade como ser moral de escolher bem, a humanidade ainda segue culpando a Deus por não conter o mal. Agostinho Hipona afirma que "...algumas pessoas veem em perfeita verdade que uma criatura é melhor se, tendo livre arbítrio, está sempre concentrada em Deus e nunca peca; então lamentando sobre os pecados dos homens, lamentam-se não por continuarem a pecar, mas por terem sido criados livres. Dizem: ele devia ter-nos feito de maneira a que nunca quiséssemos pecar, querendo antes sempre desfrutar da verdade imutável. Não deviam lamentar-se ou ficar zangados. Deus não obrigou os homens a pecarem só porque os criou e lhes deu poder para escolher entre pecar e não pecar. Há anjos que nunca pecaram e nunca irão pecar”.

Parece ser mais fácil culpar a Deus do que confiar em sua sabedoria soberana, é mais fácil condená-Lo por não ter impedido o homem de pecar, do que assumir-se responsável por fazer mal-uso da liberdade. Afinal, a verdade é que Deus “faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade” (Efésios 1.11b).

O fato é que Deus não precisa que alguém o justifique por causa dos seus planos, pensamentos, caminhos e vontade. O fato é que a presença do mal é a evidência do supremo bem divino, assim como, o pecado é a prova da sua irresistível graça, e a morte como sua mensageira, lembra a todos os homens que a vida é eterna. 

 

 

Pode-se dizer que é tudo uma questão de perspectiva, porque todo pressuposto tem seu ponto de referência. A perspectiva teo-referente, vê a partir da soberana providência divina, e confia no propósito eterno de Deus, que é o princípio e o fim da história, enquanto a perspectiva antropo-referente, humanista, historicista, relativista e reducionista do homem vê a partir de si mesmo, das suas próprias dores.

Assim, ele segue promovendo a cultura da suspeita, vingando-se de Deus, como rebeldes que resistem ao seu domínio, como se isso representasse sinal de fraqueza ou fuga da realidade, esforçando-se inutilmente para tornar-se o protagonista da própria história, como se a história fosse sobre ele, legando niilismo por causa do fracasso épico da escatologia que vendeu a ideia de um mundo melhor, mas entregou aos seus filhos um mundo pior.

Para escritor americano John MacArthur: “O pecado não é uma coisa que entrou sorrateiramente e o pegou de surpresa, desprevenido ou estragou seus planos. A realidade do pecado figura dentro dos seus propósitos imutáveis desde a eternidade passada. Deus de maneira nenhuma causa o pecado, o autoriza, o aprova, ou de alguma maneira consente com ele, Deus nunca é a causa ou o agente do pecado”.

Paulo, escrevendo aos romanos, lança um questionamento importante: “Que diremos, se Deus, querendo mostrar a sua ira e dar a conhecer o seu poder, suportou com muita paciência os vasos de ira, preparados para a destruição, a fim de que também desse a conhecer as riquezas da sua glória nos vasos de misericórdia, que de antemão preparou para glória?” (Romanos 9:22-23).

A Presença do mal, assim como a possibilidade do pecado, são meios pelos quais atributos de Deus se fazem conhecidos ao homem. Longe do permissivismo, a resposta teria a ver com o propósito de revelar a glória da sua graça ao homem. O conhecimento dessa verdade liberta o homem do medo (João 8:34), porque o conhecimento dessa verdade é a vida eterna (João 17:3).

 

A psicologização do pecado...

Especulações psicológicas a respeito do pecado, parecem torná-lo um conceito antiquado, ou até mesmo ofensivo para as pessoas, porque, como afirma MacArthur: “Nossa cultura declarou guerra contra a culpa, seu conceito literal é considerado medieval, obsoleto e improdutivo. Geralmente, aqueles que têm problemas com o sentimento de culpa, são os que recorrem a um terapeuta, cuja tarefa é melhorar a auto-imagem do paciente. Afinal, ninguém deve sentir culpa. A sociedade encoraja o pecado, mas não tolera a culpa produzida por ele”. Por isso, para muitos a culpa é uma neurose que deve ser resistida, banida, e como todo sentimento de auto-reprovação deve ser atacada.

Essa abordagem defende que ninguém é culpado por seu comportamento compulsivo e, por isso, não deve se sentir mal, ao invés disso, deve pensar coisas boas a respeito de si mesmo. Portanto, numa cultura sem culpa, todos são vítimas, por isso, não há pecadores.

MacArthur explica que: “Vítimas não são responsáveis pelo que fazem, são apenas consequências do que lhes acontece. Isso mudou radicalmente a maneira da nossa sociedade olhar para o comportamento humano. O que antigamente denominávamos como pecado é mais facilmente diagnosticado como incapacidades, sintomas desta ou daquela doença psicológica”.

Para John MacArthur: “A indústria da terapia claramente não está solucionando o problema que as escrituras chamam de pecado. Em vez disso, simplesmente convence as multidões de que estão desesperadamente doentes e, portanto, não têm nenhuma responsabilidade pelo seu mau comportamento. Fazendo papel de vítima, o pecador ignora ou minimiza a culpa inerente ao comportamento rebelde. É muito mais fácil dizer: Estou doente. Do que dizer: Eu pequei. As pessoas querem pecar, mas sem culpa e essa filosofia promete exatamente isso. Além disso, as vítimas têm direito à autocomiseração, não deveriam ficar tristes pelo sentimento de culpa. Então, o vitimismo remove a consciência. Sempre existe a possibilidade de encontrar alguém que lhe explique a razão da sua falha não ser um erro, e o ensine a silenciar uma consciência problemática. A culpa funciona na esfera espiritual na mesma proporção que a dor na esfera física. A dor nos diz que há um problema físico que precisa ser tratado. A culpa é a dor espiritual na alma que nos avisa que algo está mal e precisa ser confrontado e purificado”.  

O produto final dessa abordagem psicologizada do pecado é a idolatria da identidade, a transgressão do primeiro mandamento do decálogo entregue por Deus no monte Sinai, assim como do primeiro mandamento dos dois grandes mandamentos que sintetizam a toda a lei.

Paulo explica isso ao dizer que: “O evangelho é poder de Deus para salvação de todo que crê”. A chave não está na estratégia, estilo ou técnica porque o poder de Deus no evangelismo vem através da mensagem, e não do mensageiro. Em nome de resultados e aceitação, altera-se a mensagem, e o resultado é outro evangelho” (Romanos 1:22 NVT).

Segundo as palavras de Robert Schuller, um tele-evangelista americano: “O pecado é um abuso psicológico a si mesmo. O pecado é qualquer ato ou pensamento que rouba minha autoestima, ou de qualquer ser humano, e o inferno é simplesmente a perda do orgulho que se segue a tal ato”. Para ele: “Longe de ser pecado, a paixão do homem pelo amor-próprio é uma coisa boa e deveria ser encorajada, promovida e alimentada”.

Quando questionado sobre humilhar-se na presença de Deus para ser exaltado (Tiago 4:8), ou sobre Deus resistir os soberbos e dar graça aos humildes (1 Pedro 5:5), ou que a soberba precede a queda (Provérbios 18:12), sua resposta foi: “só porque isso está na bíblia não significa que você deva pregá-lo”. Infelizmente parece que essa doutrina da autoestima tem dado as suas caras por aqui.

Essa abordagem é mais nociva do que parece, porque não há salvação para aqueles que não são convencidos da seriedade dos seus pecados. MacArthur afirma que: “Podemos tentar culpar os outros ou procurar explicações psicológicas para esses sentimentos, mas não podemos escapar a realidade. Não podemos negar a nossa própria consciência definitivamente. Todos nós sentimos culpa, e todos, no íntimo, conhecemos a terrível verdade sobre quem somos.”

Por isso, a doutrina da autoimagem que resiste o conceito de pecado está baseada no mecanismo de negação. A negação é um dos mecanismos inconscientes descritos por Freud como um modo de defesa do ego, um recurso de proteção contra a exposição da fraqueza, a eminência do sofrimento, a dor do luto, a opinião do outro, a moralidade cristã, a perspectiva divina.

A identidade do pós-moderno está baseada no autoengano da negação, acredita-se que as pessoas envolvidas com esse mecanismo de auto-preservação e auto-justificação, podem pagar um preço muito alto em termos de energia psíquica necessária para manter o estado de negação, podendo chegar a condição de esgotamento mental e adoecimento físico. 

Além de um mecanismo psicológico, a negação é efeito da total falta de percepção da realidade espiritual. Pensando de forma lógica, se o verbo é o filho do Deus vivo, se o verbo estava no princípio, e no princípio, a vida estava nele (João 1:14), e a vida era a luz dos homens (João 1:4), a vida e a luz estão nele.

Se o pecado é a tentativa de autonomia do divino, essa separação dele, significa a separação da vida e da luz, isso explica a condição de morte e obscuridade do homem, segundo o apóstolo Paulo, ele tornou-se vazio em seus pensamentos, e obscurecido em seu coração (Romanos 1:21).

Sabe-se que é impossível ver sem luz, contudo, muitos ainda acreditam saber para onde estão indo no meio da escuridão, tropeçando no que nem podem enxergar, nem mesmo, podem nomear como certo ou errado (Provérbios 4:12). Por isso, o pecado é mortal e profundamente nocivo.

É a mentira universal que ilude a humanidade, que ainda insiste em perambular errante, caminhando no escuro, sem luz para ver um palmo diante do próprio nariz, olhando fixamente para o seu próprio umbigo, incapaz de discernir a maldade do seu próprio bem.

Sinceramente equivocado, o homem pecador segue escarnecendo a fé e zombando da vida eterna, criando sua própria versão do fim, acreditando obstinadamente no próprio caminho inteligentemente traçado, sem se dar conta que no final do caminho será surpreendido não apenas pela morte do corpo frio sem alma, mas a morte da alma que morre eternamente (Provérbios 14:12).

Segundo o pensamento de Blaise Pascal o sofrimento causado pelo mal revela o tamanho do vazio de sentido e o medo aterrorizador do arremate final expresso na morte. Contudo, encontrar iluminação para ver as duas faces da realidade revelada pelo sofrimento levará ao caminho da eternidade onde a morte não é o fim, e a esperança do tão esperado encontro com a felicidade não confunde.

 

Todos pecaram, todos morreram

É Paulo que apresenta mais enfaticamente nas escrituras a doutrina da imputação do pecado de Adão, o principio da unidade ou solidariedade da raça, assim como, apresenta a doutrina da imputação da justiça de Cristo, quando escreve que: “pela desobediência de um só homem, muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só, muitos se tornarão justos” (Romanos 5.19).

O apóstolo escreve também que: "Visto que a morte veio por um homem, também por um homem veio a ressurreição dos mortos. Porque, assim como, em Adão, todos morrem, assim também todos serão vivificados em Cristo" (1 Coríntios 15:21). Diante disso, acredita-se que a compreensão de que todos pecaram e carecem da glória de Deus é fundamental para que alguém possa se posicionar corretamente diante da morte. Michael Horton em sua teologia sistemática afirma que:

"Cada ser humano estava presente representativa, federal e pactualmente em Adão. Nossos próprios atos pessoais de pecado fluem dessa natureza corrupta e acrescentam à nossa culpa original". 

Por um homem entrou o pecado no mundo (Vir para dentro) e pelo pecado a morte afetou a natureza de todos os homens, que seguem pecando, seja por meio de palavras (Romanos 3.13-14), por ação (Romanos 3.15), por omissão (Tiago 4:17), por pensamentos (Mateus 5:27-28. Provérbios 24:9), mau comportamento (Romanos 3. 16-17), por falta de Temor (Romanos 3.18). 

A partir do momento que o pecado afeta a relação com Deus, com os outros e com a criação, entendemos que a natureza do pecado atua no homem, e a partir do homem, ou seja, o pecado é pessoal e estrutural, o pecado do homem na cultura é sistêmico, porque o homem como agente cultural, cumpre o mandato criacional fora dos padrões ordenados, produzindo todo tipo de cultura, essencialmente comprometida por causa do pecado.

A idolatria baseada na cobiça pessoal, produz o materialismo secular da idolatria cultural, legalizando a atuação de influências espirituais, no desvio do curso natural do mundo. Esse fluxograma pode ajudar na visualização da dinâmica da redenção do homem para a redenção cósmica, da restauração do individuo para a restauração de todas as coisas, do discipulado do nível micro e pessoal para o nível macro e estrutural.  

A conclusão que chegamos até aqui é que a corrupção moral permeia todos os aspectos do nosso ser, sendo assim: "Não há um justo, nem um sequer” (Romanos 3:10). Como afirma Michael Horton: "Não somos apenas culpados por causa do pecado de Adão, somos culpados como pecadores em Adão. O pecado é uma condição simultaneamente judicial, e moral, legal e relacional. Apenas quando somos confrontados com a santidade de Deus é que realmente compreendemos algo sobre o peso do pecado (Isaías 6:1-7)".  

 

A morte progressiva do homem: Espiritual, Física e Eterna

A primeira experiência de morte para o homem foi a morte espiritual, a morte que é para a alma, a separação ou alienação de Deus. “E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu” (Eclesiastes 12.7).

Segundo Loraine Boettner: “...o homem só pode viver, verdadeiramente, quando em comunhão com Deus, a morte espiritual significa a sua ruína completa e o agravamento da sua condição. A morte espiritual, como uma fonte envenenada, contamina todo o rio da vida; se não fosse a influência restritiva da graça comum, a vida humana normal tornar-se-ia um inferno na terra”.

Confirmando que essa morte espiritual é de caráter relacional, N.T. Wright afirma que: "Adão e Eva ouviram que morreriam no dia em que comessem do fruto, mas o que aconteceu de fato foi que eles foram expulsos do jardim. Abandonar a adoração ao Deus vivo significa voltar-se para o que não tem vida em si mesmo. Quando adoramos o que é transitório, isso poderá resultar em morte. Quando praticamos a idolatria, o mal se espalha pelo mundo numa espécie de reação em cadeia, com consequências incalculáveis”.  

O teólogo Paula Anglada confirma esse pensamento afirmando que: “...a morte no sentido bíblico não é de extinção ou aniquilação do ser, mas de separação da fonte da vida, separação de Deus, com o inevitável resultado da corrupção e da miséria. Imediatamente após a transgressão de Adão ao pacto, ele passou a experimentar a morte. A morte espiritual é a separação temporal entre o homem e Deus, com a destruição da imago Dei e a depravação do homem” (Mateus 7:23. Efésios 2:1. 1 Timóteo 5:6. Apocalipse 3:1). Para ele:

“A retirada da árvore da vida do jardim do Éden, quando o homem pecou, simboliza a separação de Deus e a morte, a que o homem ficou sujeito. Quando o pecado separa o homem de Deus, este começa a definhar, física e espiritualmente, como um galho separado da árvore”.

A segunda experiência com a morte, é a morte física como a separação da alma do corpo e a inevitável corrupção do corpo até voltar ao pó da terra. Contudo, não se deve confundir a essa separação da alma do corpo, com o sono da alma.

Loraine Boetther explica que: “...aqueles que ensinam a doutrina do sono da alma, confundem o sono do corpo com o da alma. Sempre que as palavras “sono” e “dormir” são usadas em conexão com a morte, o contexto mostra claramente que está apenas relacionada com o corpo. O sono de que falamos é o do corpo e não o da alma. Muitas passagens ensinam clara e insofismavelmente que a alma continua a existir conscientemente no período que vai da morte à ressurreição. Não há, pois, qualquer possibilidade de defesa para a errônea doutrina do sono das almas”.

Mas uma questão parece surgir diante dessa morte física: O homem morreu imediatamente por causa do pecado, ou sofreu progressivamente o efeito colateral de uma ação imediata?

A resposta para essa pergunta pode ser que o juízo divino pelo pecado é a morte (Gênesis 2:16), mas Deus não matou o homem imediatamente, uma vez que essa morte física é a consequência do efeito corruptor, degenerador e infeccioso do próprio pecado dentro da natureza humana (Romanos 6:23).

Isso explica o fato de o homem não ter morrido fisicamente senão cerca de 930 anos depois da Queda. Boetther explica que: “Na morte, o corpo humano, que é composto por cerca de 30 elementos químicos diferentes, volta para a terra donde foi tirado. Esta fase da morte foi também conquistada por Cristo, quando expiou os pecados do seu povo, pois que os cristãos receberão, finalmente, um corpo ressuscitado, gloriosamente restaurado”.

Com relação a terceira experiência de morte, a morte eterna, Agostinho de Hipona na sua obra “A cidade de Deus” explica sobre a primeira morte (Separação da alma do corpo) e a segunda morte (A morte eterna):

“Sobre a primeira morte do corpo, pode-se dizer que, para os bons, é boa, e má para os maus. Mas a segunda, como não é para os bons, está fora de dúvida não ser boa para ninguém”.

Portanto, essa morte eterna é a morte espiritual permanente, a separação eterna de Deus, quando os ímpios serão lançados no inferno (Apocalipse 20:6-14). Jesus confirma esse ensino: "Então o Rei dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos” (Mateus 25:41).

Segundo o teólogo Louis Berkhof: “esta pode ser considerada como a culminância e a consumação da morte espiritual. O peso total da ira de Deus desce sobre os condenados, e isto significa morte no sentido mais terrível da palavra”. Nesta o indivíduo é separado eternamente de Deus, como resultado do castigo eterno daqueles cujos nomes não estão escritos no livro da vida (Apocalipse 20.12-25).

Heber Carlos Campos lembra que, enquanto aqui neste mundo, todas as criaturas experimentam algum tipo da bondade de Deus que chamamos de “graça comum”. Mas no dia final, serão banidos dessa possibilidade. Por essa razão o autor da carta aos hebreus diz que “coisa horrível é cair nas mãos do Deus vivo”! (Hebreus 10.31).

Resumidamente, aqueles que nascem uma só vez, fisicamente, morrem duas vezes, física e espiritual ou eternamente, enquanto aqueles que nascem duas vezes, morrem uma única vez, fisicamente. Estes últimos são os remidos do Senhor (João 3:7). O oposto da morte espiritual é a vida espiritual.

Era a esta vida espiritual que Jesus se referia, ao falar com Maria, junto do túmulo de Lázaro: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente” (João 11.25, 26) e, noutro lugar, “quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, e não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (João 5.24)”.

Há multidões em tal estado de letargia perante a aproximação da morte, que esta não lhes causa apreensão. Mas isto não vai mudar os fatos”. John MacArthur afirma que:

“Com tantas consciências adormecidas e corações endurecidos, seria necessário um reavivamento com proporções sem precedentes para mudar o declínio espiral da nossa cultura”.

 

Quem poderá vencer a morte?

O que esperar da vida? Será possível estar a salvo da morte? Estamos falando de uma realidade em que todo o mundo é condenável diante de Deus, ou seja, todo homem a partir do pecado deixou de relacionar-se com Deus, perdeu seu direito de pertencimento, falhou em tornar-se participante de sua glória, e encontrando-se na condição de “bocas fechadas”, incapaz de reclamar sua inocência, ainda pode ser alcançado pela boa notícia do evangelho, o cumprimento da justiça de Deus em Cristo Jesus para perdoar pecados de todos que creem e salvando-os da morte eterna (Romanos 3:19-24).

Com relação a essa salvação, Paul Washer conta uma história interessante: “...às vezes, alguém faz a seguinte pergunta: “O que eu tenho que fazer para ir para o céu?”. Aí, eu olho para a pessoa e falo: “É fácil... Você tem que ser absolutamente perfeito na sua moral, desde o momento que você nasce até o momento que você morre”.  Então respondem: “Isso é impossível”, e eu olho para eles e respondo: “É... Realmente é impossível. Então, você tem um grande problema, não é?”.  É isso que você deve enxergar: não é simplesmente ser bom comparado com outras pessoas, você tem que ser perfeitamente justo em comparação com Deus, sem um desvio sequer da Sua Lei. Por isso, Paulo diz que não há justo, nem um sequer”.

É importante lembrar do diálogo de Jesus com seus discípulos sobre essa questão: “Ouvindo isto, os discípulos ficaram grandemente maravilhados e disseram: Sendo assim, quem pode ser salvo? Jesus, fitando neles o olhar, disse-lhes: Isto é impossível aos homens, mas para Deus tudo é possível” (Mateus 19:26).

Geralmente esse texto é usado de forma triunfalista, determinista, materialista, principalmente por adeptos da teologia da prosperidade na sua mais nova versão millennials, contudo, a questão é clara: Quem pode ser salvo? A resposta é igualmente clara: Ninguém. Isso é impossível para o homem. Essa perturbadora resposta de Jesus, deveria provocar em seus discípulos da atualidade, pelo menos duas novas perguntas:

Quem nunca se perguntou: Como pode uma resposta tão simples ser tão profunda? Como pode uma resposta tão clara, ser aplicada de forma tão equivocada?

Jesus responde objetivamente que é impossível ao homem salvar-se da morte e condenação eterna, apesar do contexto envolver uma pessoa rica, a pergunta é abrangente. Portanto, independente da condição financeira, cultural, social, racial, religiosa, a resposta é a mesma, ou seja, é impossível, não há nada que possa ser feito para que o homem se salve da morte. Lembre-se que não tem como salvar uma omelete depois que um ovo podre foi colocado dentro dela. Está tudo perdido. Quando se tem consciência dessa condição, faz muito sentido o evangelho ser boa notícia.

Afinal, como alguém pode ser salvo da morte? Para Deus tudo é possível. Isso significa que a salvação é um dom de Deus,  pelo evangelho que é o poder de Deus, para salvar a todo que nele crê, a todo que pela graça de Deus for iluminado (João 16:8), para reconhecer sua condição, arrepender-se para perdão dos pecados e receber a vida eterna, confiando fielmente nos méritos de Cristo, único mediador entre Deus e os homens, identificando-se com Ele em sua morte, e em sua ressurreição. Ninguém poderá salvar-se da ira de Deus, sem a graça de Deus, e somente em Deus o homem estará a salvo da morte.

Segundo Loraine Borther, em sua obra sobre a imortalidade: “Os homens têm tentado alcançar a sua própria salvação por meio de sacrifícios, por meio do ascetismo, por meio de boas obras e autodisciplina, por meio de orações, jejuns e ritos, mas tudo sem qualquer resultado. Acontece que, o homem, por si, não pode pagar a dívida do pecado. Aquilo, porém, que nós não podemos fazer, já o fez Deus por nós. Cristo encarnou como nosso substituto e, para nossa salvação, tomou sobre si a nossa natureza humana, tomou nosso lugar como transgressor de sua própria lei, e com o seu sacrifício e morte na cruz, sofreu o castigo, que nos era devido pelo pecado. A morte perdeu o seu aguilhão. Tragada foi a morte pela vitória” (1Coríntios 15.54).

Agostinho de Hipona, acreditava que a solução para a condição humana é a graça divina. Para ele: “a graça é o favor generoso e totalmente imerecido que Deus concede à humanidade, por meio do qual o processo de restauração pode ser iniciado. A graça é concedida como uma força libertadora, que livra a natureza humana da escravidão do pecado a que está sujeita”.

O apóstolo Paulo faz uma síntese de fato inspirada sobre essa questão dizendo que: “Deus, sendo rico em misericórdia, por causa do grande amor com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo, pela graça sois salvos, e, juntamente com ele, nos ressuscitou, e nos fez assentar nos lugares celestiais em Cristo Jesus; para mostrar, nos séculos vindouros, a suprema riqueza da sua graça, em bondade para conosco, em Cristo Jesus. Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:5).

Portanto, apenas e somente pela graça é possível ser salvo da condenação da morte, apenas e somente pela graça mediante a fé, não se trata aqui da fé histórica, que acredita na existência de Deus, e na obra de Cristo, muito menos da fé na fé, que acredita na possibilidade de auto redenção por meio de boas obras, mas trata-se da fé que confia totalmente sua vida a Cristo. Assim como existe diferença entre acreditar na capacidade de um bom médico, e confiar sua vida a ele para ser operado.

Wayne Grudem, em seu importante livro sobre a teologia da livre graça, explica que: “A fé salvadora envolve começar um relacionamento pessoal com Jesus Cristo, aproximar-se de sua presença e decidir colocar nossa confiança nele como uma pessoa viva e divina que nos vê e ouve a cada instante e que conhece os pensamentos mais profundos do nosso coração. A fé salvadora é sempre seguida de mudanças na conduta de vida de uma pessoa. Em outras palavras, a fé salvadora jamais se apresenta sozinha em uma pessoa, visto que algumas boas obras sempre acompanharão a fé salvadora na vida dela e serão observadas depois que passou a crer. A fé salvadora genuína será sempre acompanhada de boas obras que ocorrem depois da justificação”.

Da mesma forma, João Calvino, teólogo francês muito influente na reforma protestante, até os dias de hoje, com base nos textos de Gálatas 5:6 e Romanos 3:22, afirmou que:

“Cristo a ninguém justifica que, ao mesmo tempo, não santifique... Portanto, fica evidente a veracidade da declaração de que somos justificados não sem obras, porém, nunca por meio das obras” 

A resposta à pergunta desse tópico é: "Sim! Cristo pode nos salvar da morte". Por meio da graça como dom de Deus, através da obra do Espírito que ilumina e remove a venda dos corações, mediante a fé na obra redentora de Deus por meio de Cristo para salvação dos pecados passados. Justificados pela fé o homem tem paz com Deus,  e desenvolve sua salvação sendo santificado pelo Espírito que ensina todas as coisas, sendo ele mesmo a prova da herança aguardada na salvação que haverá de se manifestar na glorificação do corpo com Cristo. 

Pela graça de Deus, somos salvos, estamos sendo salvos, e seremos salvos. O pastor e escritor americano contemporâneo, Paul Washer, confirma esse princípio afirmando que: “A evidência de que você se arrependeu uma vez no passado, é que você continua se arrependendo hoje. E a evidência de que um dia você creu para salvação, é que você continua crendo hoje. E você continua todos os dias da sua vida, se arrependendo e crendo”.

Em acordo com as palavras do professor de filosofia Ronald Nash em sua obra sobre cosmovisões em conflito, pode-se concluir que: “A cosmovisão cristã reconhece a necessidade humana de perdão e redenção, e enfatiza que as bênçãos da salvação são possíveis por causa da morte e ressurreição de Jesus. A obra redentora de Cristo é a base da salvação humana. Mas os seres humanos devem se arrepender dos pecados e crer. Finalmente, a cosmovisão cristã ensina que a morte física não é o fim da existência pessoal”.

 

A filosofia do aqui e agora contra o amanhã

Quem nunca ouviu dizer que a melhor forma de encarar a morte é vivendo o aqui e agora, como disse o poeta, amando como se não houvesse amanhã. Tendo a morte como a única certeza da vida, o presente deve ser aproveitado antes que seja tarde. O termo usado para essa filosofia do agora é "Carpe Diem", como definição para viver o hoje sem preocupações com o amanhã. É desfrutar a vida e os prazeres do momento em que se vive.

Horácio Flaco, poeta e filósofo da Roma antiga,  ficou conhecido por abordar abertamente o pensamento filosófico epicurista em suas obras,  como a importância em se aproveitar o presente pelo reconhecimento da brevidade da vida, assim como, que a vida é breve e a beleza perecível.

Lucius Annaeus Sêneca (4 a.C.- 65 d.C.), filósofo romano e um dos mais renomados intelectuais do império romano, disse que: “Depois da morte não há nada e a morte também não é nada. Cada hora do nosso passado pertence à morte. Morremos a cada dia, a cada dia falta uma parte da vida. Morremos como mortais que somos, e vivemos como se fôramos imortais.”

Mas, conforme as palavras de Loraine Borther: “Se a morte é o fim de tudo, a pessoa que conseguir obter para si o maior número de prazeres, sem olhar a meios, é quem tem maior êxito, aquele a quem se deve invejar. Contudo, como diz o Apóstolo Paulo: “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida, somos os mais infelizes de todos os homens” (1 Coríntios 15.19)”.

A "filosofia do agora", simpática à sociedade moderna, faz uma crítica às filosofias religiosas, por enaltecerem a esperança de uma existência melhor e futura, como se isso representasse algum tipo de pessimismo para com o tempo presente, ou utopia quanto ao tempo futuro. Segundo a perspectiva paulina o pseudo direito a liberdade e da felicidade a qualquer custo, parece ser a garantia de infelicidade e desesperança. 

O efeito colateral de uma interpretação tendenciosa dessa filosofia do agora, pode ser ainda mais moralmente catastrófico para a sociedade, do que se pode imaginar. Para Scarlat Marton: “A morte é, ao mesmo tempo, nosso destino como seres finitos e nossa origem como seres humanos. Ela é o nosso fim e o nosso começo. A partir do momento em que a morte é reprimida, proibida e banida da nossa reflexão, com ela também é banida a perspectiva do futuro. E se esta for banida, então, deixamos de ter qualquer preocupação com valores morais”.

Apesar de ser possível que o pensamento escatológico escapista, que espera passivamente ir para o céu, como se a salvação não tivesse nada a ver com a vida presente, possa comprometer a consciência de mordomia cristã, também é verdade que a mensagem do evangelho, e a verdadeira cosmovisão cristã a respeito da redenção e consumação como restauração de todas as coisas, exige agora, a  responsabilidade sacerdotal de glorificar a Deus em todas as esferas da vida e sociedade, como testemunho da era vindoura no tempo presente. Essa é a esperança que nada mais é do que a antecipação da realidade futura. 

Nicholas Thomas Wright, estudioso do Novo Testamento, teólogo e bispo anglicano na Inglaterra, em sua obra "Surpreendido pela Esperança" afirma que:  "Aqueles que veem a morte como o esperado momento de ir para casa, em que seremos chamados à paz eterna de Deus, não tem motivo para entrar em conflito com as pessoas sem escrúpulos, dispostas a destruir o mundo se isso lhes trouxer algum benefício. A crença da ressurreição sempre vem acompanhada por uma forte visão da justiça de Deus. Essa crença não leva a uma tolerância passiva diante das injustiças do mundo, mas a uma firme determinação de lutar contra as injustiças”. 

Na verdade, as virtudes teologais, consideradas pilares da vida cristã: a fé, a esperança e o amor, provam a importância que o cristianismo dá a todo o ciclo da vida, propondo a resolução quanto ao passado, baseada na justificação pela fé, que proporciona inteireza quanto ao presente, amando a Deus e ao próximo sem reservas e com integridade de coração, baseada na viva esperança quanto ao futuro, tendo como garantia o conhecimento experimental e relacional do Espírito Santo de Deus, que testemunha, ilumina, consola, ensina, confirma, capacita e conduz os redimidos na perseverança dos santos (Apocalipse 14:12).

Desse modo, mesmo em face da morte, aqueles que creem, não se tornam reféns do medo, não se deixam ser dominados pelo instinto de auto-preservação, porque amam a Cristo mais do que suas próprias vidas, não sentem medo, porque só sente medo, quem teme perder sua vida, logo, só sente medo de perder, quem se sente dono da própria vida. Isso sim parece ser uma grande ilusão. (Apocalipse 12:11).

Portanto, a esperança da vida que triunfa sobre a morte, não é uma esperança confusa, mística, alienada ou mitológica, mas uma firme esperança validada de forma objetiva e concreta pelo testemunho glorificante, escatológico e antecipatório da era vindoura no tempo presente.

Ao contrário da opinião de alguns pensadores como do sociólogo Zigmunt Bauman que descreve o conceito de pecado original  e a expectativa da eternidade a um tipo de invenção particularmente feliz, segundo o pensamento de N.T. Wright, a doutrina judaico-cristã é sólida quanto a  ressurreição como parte da criação de Deus e valoriza o mundo presente e os nossos corpos atuais, estabelecendo uma continuidade entre o mundo presente e o futuro, de modo que o que fazemos no presente é visto como algo de extrema importância. Segundo as palavras de N.T. Wright:

"Não ficamos sentados esperando as coisas acontecerem, ao contrário, devemos nos esforçar, sabendo que tudo que fazemos para o Senhor, no tempo presente, não será desperdiçado no futuro" 

 

Não seja refém do pavor da morte

A morte provoca o efeito psíquico do medo por provar a impotência da força, a insegurança da autossuficiência, a inferioridade da autonomia altiva, por desvendar a ilusão do controle e apresentar o vazio de sentido, ela inevitavelmente se apresenta no misterioso fim solitário da história, que faz tremer de medo todos que na vida toda afirmaram não teme-la.

Para Scarlatt Marton em seu artigo sobre a morte como um instante de vida confirma que: “O ser humano sempre busca subterfúgios para não pensar na sua humana condição, lança mão de quaisquer artifícios para se esquivar da única certeza de que pode dispor: a de que um dia vai morrer. É para não ter de enfrentar a morte que procura toda sorte de ocupação, sobrecarregando-se com negócios e encargos, com a fortuna e a honra. Portanto, o que mais importa ao ser humano não é ser bem-sucedido em suas incumbências, mas nelas estar imerso para esquecer que está fadado a morrer. Nesse contexto de divisões, dualismos e dicotomias dos tempos modernos, o homem ocidental aos poucos expulsou a morte de sua vida cotidiana".

O medo da morte impera na cidade dos homens, está pelas ruas, dentro dos coletivos lotados, dentro das casas cheias de grades, nas salas de espera dos hospitais, o medo é como uma sombra da qual não pode se livrar a sociedade individualizada da felicidade privada, superpopulada por uma multidão de solitários, procurando um lugar seguro para se esconder, suas fortalezas que se levantam dentro de si, contra a morte enviada de Deus, agarram-se com toda força ao seu amor-próprio, possessivo por si, lentamente auto destrutivo, altamente inseguro, e desconfiado de tudo e de todos.

O medo é um dos primeiros efeitos psíquicos do pecado, a presença do medo da morte é evidência de ausência, do desconhecimento do Deus trinitário que é vida eterna, o medo é o que se sente quando se sente só, é o grito de alerta da alma criada solidaria perdida nas trilhas da vida solitária.

Baumam ao escrever sobre o medo liquido, afirma que compartilhamos do medo original, o medo da morte, assim como os animais, mas: “Somente nós, seres humanos, temos consciência da inevitabilidade da morte e assim também enfrentamos a apavorante tarefa de sobreviver à aquisição desse conhecimento, a tarefa de viver com o pavor da inevitabilidade da morte”.

Porém, é bom lembrar que existe uma diferença significativa entre o medo e o temor, porque o temor é a consciência da presença de Deus, enquanto o medo é a consciência da sua ausência. Quando o povo resgatado pelo sangue do cordeiro congregou em torno da presença manifesta de Deus na terra, pela primeira vez na história, essa presença era tão poderosa que até mesmo tiveram medo da morrer (Êxodo 20:20). Então Moisés respondeu ao povo dizendo:

“Não temais; Deus veio para vos provar e para que o seu temor esteja diante de vós, a fim de que não pequeis” 

Apesar da palavra usada para temor nas duas vezes serem derivadas da mesma raiz no original hebraico, parece que Moisés está usando a palavra temor em dois sentidos diferentes, primeiro eles não deveriam ter um tipo de temor na presença de Deus, porque a presença de Deus provoca outro tipo de temor.

Ou seja, não deveriam sentir medo, porque a primeira vez que o homem sentiu medo, escondeu-se da presença de Deus na sua condição de pecado, mas deveriam ter o temor do Senhor, para que, escondendo-se em sua presença, fiquem longe do pecado. Por isso, não há meio-termo, todos estão sempre procurando seu lugar de esconderijo, ele pode ser um lugar do medo que pertence ao homem, ou lugar de temor que pertence a Deus.

Lembre-se que sente medo, quem se sente só, assim como, só sente medo de perder, quem se sente dono. Por isso, aquele que tem a presença de Deus não confunde medo com sabedoria e prudência. Porque o temor do Senhor é o princípio da sabedoria.

O problema desse medo que o homem tem de perder a vida, é que por causa desse medo, ele se sujeita a qualquer coisa para manter-se vivo. Como diz o autor da carta aos hebreus, Cristo por sua morte, destrói aquele que tem o poder  da morte, livrando todos que por causa do pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida (Hebreus 2:14).

Segundo Wayne Grudem, professor e pesquisador de teologia, autor de vários livros: “Cristãos ainda morrem, porque tudo isso é resultado de viverem em um mundo decadente, que não está totalmente livre da maldição do pecado. Se você crê em Jesus, a bíblia o anima a não ver sua própria morte com temor, uma vez que Jesus morreu para libertar aqueles que durante a vida estiveram escravizados pelo medo da morte".

Timothy Keller, no seu livro “Caminhando com Deus em meio à dor e ao sofrimento”, diz que: "Os tempos difíceis despertam as pessoas do sono fantasmagórico da autossuficiência espiritual e levam-nas a uma busca sincera do divino. O sofrimento finca a bandeira da verdade dentro da fortaleza da alma rebelde. O que parece acontecer nesses momentos é o que chamamos de choque de realidade, a ideia da felicidade mostra-se ilusória e a realidade se apresenta em suas duas faces, a finitude e a eternidade. O homem sem luz para ver o todo dessa realidade apega-se apenas a consciência da finitude, contudo, esse caminho o leva para o desespero, onde será feito refém do pavor da morte”.

Por isso, não opera mais dentro daqueles que receberam o direito de serem feitos filhos, espirito de medo e escravidão, que oprime, inferioriza, desumaniza, limita, mas sim, espirito de amor e adoção em Cristo. Por isso, Paulo segue afirmando que o Espírito de Deus testemunha dentro do nosso espírito que somos filhos (Romanos 8:14).

A obra da redenção é regeneradora, fala de um novo homem, uma nova criação, com um novo coração, novo espirito, que recebe a santa presença do próprio Espírito de Deus, para testemunhar a respeito de um novo mundo, a realidade de um novo céu e uma nova terra.  

 

O Lugar de luto como melhor lugar para reflexão sobre a vida

Identificar a causa da morte no pecado, não significa que o pecador não deva sentir medo da morte. O medo da morte é a prova presente, objetiva e concreta da necessidade de sentir-se a salvo. O grande sábio disse que é melhor para o homem, ir à casa onde há luto do que a casa onde há festa, porque o luto provoca a reflexão sobre o fim de todos os homens (Eclesiastes 7:2).

O sábio segue afirmando que enquanto a sabedoria está na casa onde há dor causada pela perda, a estupidez, a arrogância e a insensatez está nas casas de festa (Eclesiastes 7:4). Para C. S. Lewis, o sofrimento é como o megafone de Deus, porque uma vez despertado por Deus, ele sabe que, de uma forma ou de outra, está face a face com a realidade, que ele chama de universo real. Na ausência da Felicidade, o sofrimento que prova a sua finitude, desperta-o para a verdade do conhecimento de Deus que é a vida eterna.

Segundo Dr. Robert L. Dabney: "A perspectiva da morte, desde o primeiro dia em que começa a perturbar a consciência do pecador, serve para ele alcançar uma gravidade sã, por meio das suas convicções, conversões, luta cristã, para poder humilhar a sua alma orgulhosa, para mortificar a carne, para moderar o seu orgulho, para cultivar a sua consciência espiritual. As doenças são meios de santificação, por serem anúncios da morte. É dever nosso estarmos preparados para aquele acontecimento, venha ele quando vier, sabendo que virá sem falta, mais cedo ou mais tarde”.

Por isso, mesmo que em nome do amor cristão, do cuidado e consideração para com a dor do próximo, ninguém deve dizer para as pessoas que tudo ficará bem sem Cristo, independente do mal-estar que isso possa causar, a verdade sobre o fim de todos os homens deve ser considerada, porque inevitavelmente, a morte vem lembrar o homens que ainda vivem na sua condição de pecador, (Gálatas 3:13) e todos devem saber que a morte é pontual,  ela nunca se atrasa na hora de levar seus condenados (Romanos 5:16) até a sua sala de espera, para a até então subestimada prestação de contas do julgamento final (Romanos 1:32).

Wayne Grudem, professor e pesquisador de teologia, autor de vários livros, ensina em sua obra sobre as bases da fé cristã que: “A escritura nunca nos encoraja a pensar que as pessoas terão uma segunda chance de confiar em Cristo após a morte. Na verdade, a situação é bastante contrária, conforme mostrado tanto na parábola do rico e o Lázaro (Lucas 16:24), quanto em declarações gerais sobre morte e juízo como em Hebreus 9:27 que diz:  O homem está destinado a morrer uma só vez e depois disso enfrentar o juízo. Assim, a tristeza sentida pela morte de alguém que cremos ter rejeitado a Cristo não é uma aflição mesclada com esperança”.

A única possibilidade de esperança para o pecador está justamente no fato dele entender a mensagem trazida pela chegada da morte. Qual é a mensagem da morte? "Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida" (1 João 5:12).

Wayne Grudem lembra que: “O conhecimento iminente da morte pode trazer um exame verdadeiro de coração, e o indivíduo chegar a verdadeiro arrependimento e fé. Em alguns casos, simplesmente não sabemos. Todavia, depois da morte de um não cristão seria errado dar qualquer indicação de que achamos que a pessoa foi para o céu, uma vez que isso diminuiria o senso de urgência para aqueles ainda vivos confiarem em Cristo. O que se pode fazer é expressar gratidão pelas boas qualidades que notamos na vida dessa pessoa, assim como Davi fez quando soube da morte do rei Saul” (2 Samuel 1:19-25).

 

A esperança mesmo em diante da morte

É importante encontrar esperança diante da eminência da morte, não a esperança pagã, que não passa da mera expectativa pessoal de que no fim tudo ficará bem, também não a esperança religiosa que espera passivamente e alienada da realidade presente, o momento da destruição cósmica e eternidade celestial. A real esperança é dinâmica, porque te move no tempo presente em conexão com o tempo eterno. Essa esperança é viva porque se baseia na ressurreição dos mortos.

O teólogo inglês N.T. Wright faz um bom diagnóstico afirmando que: “O que temos atualmente não é a esperança firme e certa da ressurreição dos mortos, mas um sentimento vago e impreciso de que as coisas, de algum modo, terminarão bem, porque o engano clássico que identifica a ressurreição como ir para o céu tem se tornado cada vez mais comum. Se não tomarmos cuidado, estaremos oferecendo uma mera esperança, incapaz de provocar surpresa ou de transformar vidas e comunidades, esperança que não é fruto da própria ressurreição de Jesus e da expectativa de novos céus e nova terra. Se Jesus, o Messias, era o próprio fim e o futuro de Deus manifestado no presente, aqueles que pertenciam a ele, que eram seus discípulos, capacitados pelo seu Espírito, deveriam transformar o presente, à luz do futuro”.

Paulo escrevendo aos irmãos em Corinto, parece afirmar que só lutou com quem lutou e como lutou, por causa da sua firme esperança e convicção na ressurreição dos mortos. Caso contrário, seria melhor viver a filosofia do agora, comer e beber até morrer: “Se os mortos não ressuscitam, comamos e bebamos, que amanhã morreremos” (1 Coríntios 15:32). Para o teólogo N.T. Wright, os discípulos dificilmente estariam dispostos a sofrer ou até mesmo morrer por uma crença que não estivesse firmada em uma base sólida.

Essa mesma esperança é confirmada na carta aos irmãos em Filipos: “Será Cristo engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte. Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro. Entretanto, se o viver na carne traz fruto para o meu trabalho, já não sei o que hei de escolher. Ora, de um e outro lado, estou constrangido, tendo o desejo de partir e estar com Cristo, o que é incomparavelmente melhor. Mas, por vossa causa, é mais necessário permanecer na carne” (Filipenses 1:20-24).

Por isso, cristãos através da história viram a própria morte com alegria, preferindo estar ausente no corpo e habitar com o Senhor (2 Coríntios 5:8). Segundo Wayne Grudem: “Se você crê em Jesus, quando seu corpo morre e é deposto na tumba, sua alma é imediatamente transportada à presença de Deus. E assim, até que Cristo volte, esperamos a redenção do nosso corpo, pois nessa esperança fomos salvos" (Romanos 8:24). Esse será o dia, diz Paulo, em que seremos glorificados com Cristo (Romanos 8:17), porquanto nossos corpos recebem um novo tipo celestial de glória (1 Coríntios 15:20,23,49. Filemon 3:21).

O Breve catecismo de Westminster, na resposta à pergunta, “Que benefícios recebem os crentes em Cristo, na hora da morte?” Responde: “As almas dos crentes são, na hora da sua morte, tornadas perfeitas em santidade e entram imediatamente na glória; e os seus corpos, ainda unidos a Cristo, repousam nos seus túmulos, até a ressurreição” (Pergunta nº 37.

O apóstolo Pedro fala sobre a visão de um novo céu e uma nova terra ( 2 Pedro 3:13), porém, não se trata de um estado desencarnado em algum lugar das nuvens, mas sim, de uma nova ordem aqui na terra, onde a enfermidade, o sofrimento, o pecado e a morte serão coisas do passado.

Para Michael Horton: “A era vindoura é conquistada por Cristo, dada pelo Pai e é o Espírito quem, de fato, a traz para o presente, mesmo no meio desta atual era ímpia. O Espírito vem de um futuro consumado de glória sabática, como a pomba que trouxe para Noé em pequeno galho frondoso em seu bico como um prenúncio de uma nova vida além das águas do juízo”.

 

Conclusão: A mensagem da morte é a vida

Deus estabeleceu o estatuto perpétuo da Páscoa, no contexto de resgate do povo de Israel no Egito, na décima praga, a morte bateu na porta de milhares de egípcios e passou por cima das portas marcadas com o sangue do cordeiro, ali a morte deixou sua mensagem: “Aquele que tem o Filho tem a vida; aquele que não tem o Filho de Deus não tem a vida"(1 João 5:12,João 8:36)

Segundo N.T. Wright: “A morte tem um sentido atual, para o mundo presente: Jesus ressuscitou, portanto, ele é o Messias, o verdadeiro Senhor do mundo. A nova criação de Deus já começou e nós, como seus seguidores, temos uma tarefa a realizar! Jesus ressuscitou, e nós devemos ser seus arautos, anunciando que ele é o Senhor do mundo inteiro e fazendo com que o seu reino seja na terra como no céu.  A proposta oferecida pelo cristianismo possui essa magnitude: Jesus de Nazaré não é simplesmente um nova religião, ou uma nova ética, ou um novo caminho de salvação. Jesus que saiu do sepulcro e inaugurou a nova criação bem no meio da antiga”.

Diante de tudo que se pode pensar sobre a morte, conclui-se que a proposta de Deus sempre foi e sempre será a vida eterna, e essa vida eterna se dá pelo conhecer de forma pactual o único Deus e ao seu Filho que foi enviado (João 17:3).  Paulo Anglada  afirma que: “A verdadeira vida, é algo que o homem só desfruta quanto está ligado a Deus. Quando Jesus se compara a uma videira verdadeira (João 15:6), e afirma que aqueles que não permanecem nele secarão e serão queimados no fogo, está empregando esse símbolo para ensinar que a verdadeira vida depende dessa comunhão com Deus”.

A forma mais prática de concluir uma série de pensamentos sobre a morte, talvez seja, lembrando da resposta de John Wesley quando lhe perguntaram: “Se soubesse que iria morrer amanhã, como gastaria o tempo?”. A resposta dele foi a seguinte: “Exatamente como o tinha já planejado. Esta noite, pregaria em Gloucester e amanhã de manhã, também. Em seguida, iria a Tewkesbury, pregaria à tarde e à noite, teria a reunião marcada com a Sociedade. Iria, então, para casa do meu amigo Martin, que está à minha espera, conversaria, oraria com a família, retirar-me-ia para o meu quarto às dez horas, encomendar-me-ia ao meu Pai celestial, deitar-me-ia para dormir, e acordaria na glória”.

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Religião

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Anderson Bomfim
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Natural de São Paulo, casado com Andrea Bomfim, Pai de Giovanna, Olívia e Pietra, Pastor na Igreja Local Mob em Curitiba-PR, Professor de Teologia na Plataforma Farol de EAD, Gestor da Mob Workspace de empreendedorismo missional e músico compositor.

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