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Canção de Retorno: Uma Aplicação de Salmos 23

Canção de Retorno: Uma Aplicação de Salmos 23

Ao ler Salmos 23, tenho a ligeira impressão de que um filme passava pela cabeça de Davi enquanto o escrevia. Uma vez que fora pastor de ovelhas, não é difícil supor que, no momento em que compunha o salmo, meditava na destreza de Deus em conduzi-lo de um modo ainda mais excelente que o seu em conduzir os rebanhos de Jessé.

Era pastor diligente e corajoso. Relatou a Saul, inclusive, ter enfrentado feras para livrar as ovelhas que conduzia. O risco era grande, mas para Davi, dado seu zelo pelas ovelhas, valia a pena correr. Talvez, inspirado pela forma com que cumpria a responsabilidade de um diligente pastor, Davi tenha chegado à compreensão de como Deus o havia conduzido até então, convicto de que assim seria por toda a vida.

Meu objetivo é percorrer este salmo, pontuando as relevâncias de cada verdade expressa em um dos mais belos cânticos de Davi. Vamos juntos!

 

Pertencimento e Contentamento

A segurança de cada ovelha era de total responsabilidade do pastor. Cabia-lhe conduzi-la às pastagens diariamente e trazê-la ao aprisco no fim do dia, a salvo e bem alimentada. Não era tarefa simples como se pensa, as ovelhas são animais sensíveis. Inclusive, possuem dificuldade de adaptação à presença de estranhos. Até hoje, é costume um pastor cuidar de um mesmo rebanho por anos, devido à familiaridade das ovelhas à sua companhia. Podemos dizer, de certo modo, que  a sensação de pertencimento é um fator influenciador no comportamento das ovelhas. Mas como nosso assunto, aqui, não é sobre criação de animais, vamos em frente.

Quando Davi afirma ser Deus o seu pastor, está convicto da Sua suficiência para lhe saciar os anseios da alma e protegê-lo de todos os perigos no caminho.

 

O que mais desejar, quando é o próprio Deus quem está comprometido em nos conduzir por toda a jornada?

 

Afinal, "foi ele quem nos fez; e nós somos dele, seu povo, o rebanho de seu pasto" (Salmos 100.3). O fato de pertencermos a Deus nos assegura que ele tem prazer, não só em ter nos criado, mas em nos sustentar e conduzir por todo o caminho. Pertencer a ele e ser ovelha de seu rebanho, produz em nós contentamento e satisfação, ainda que desconheçamos o amanhã.

Então, o que nos espera na jornada?
 

A Jornada

Nos versos seguintes, Davi passa a descrever os caminhos pelos quais Deus o conduzia, como caminhos de pastagem e descanso por onde ovelhas eram conduzidas por seu pastor. Ele afirma a confiabilidade de Deus em prover não somente sustento, mas também alívio dos fardos pesados do cotidiano, o que, posteriormente, Jesus proporia à multidão que andava desgarrada, como ovelhas sem pastor (Mateus 9.36; 11.28).

 

Afinal, a jornada é de progresso ou de retorno?

Uma característica interessante da ovelha é que ela demonstra comportamentos emotivos como medo exagerado, stress e até mesmo algo semelhante à depressão. Ao dizer “Refrigera minha alma”, Davi, que provavelmente conhecia tal comportamento das ovelhas, faz referência ao efeito restaurador do pastoreio de Deus em seu íntimo no decorrer da jornada. É importante, porém, destacar que o significado da expressão utilizada pode ser mais abrangente do que pensamos, de imediato, ao ler o texto.

A palavra traduzida como “Refrigera” é shûb (שׁוּב), que tem o sentido de ‘retorno à origem’, ou ‘retorno para Deus’. Isso nos leva, por associação dos termos no contexto, a entender que se trata de algo mais profundo que uma sensação de frescor na alma, mas de sua reintegração ao estado original e ao propósito para a qual foi criada: ter Deus como finalidade última de tudo que se deseja. Portanto, desejando a única coisa que, de fato, pode satisfazê-la por completo.

O texto segue: “Guia-me pelas veredas da justiça por amor do seu nome”. Aqui, provavelmente, Davi se refere ao caminho de retorno ao aprisco, já no fim da tarde, em que o trajeto deve ser feito de maneira cuidadosa, correta e com certa pressa. Por isso, a ideia de “veredas da justiça”. O interessante, no entanto, é que a semântica da palavra ‘justiça’ na Bíblia ultrapassa a ideia de retidão. Excede, inclusive, o conceito de justiça como cumprimento da Lei. Pois, toda lei tem como objetivo o estabelecimento da justiça, não o inverso.

O que seria, então,  uma perspectiva bíblica rudimentar sobre justiça? Trata-se de todas as coisas posicionadas e em pleno funcionamento, conforme o seu propósito original. 

 

Para se considerar algo como correto ou não, pressupõe-se a existência de um parâmetro. O que é o parâmetro definitivo para todas as coisas senão Aquele por meio de quem tudo foi criado?

 

Deu nó no raciocínio? Simplifico: a jornada pela qual Deus nos conduz é um retorno ao seu propósito original e eterno; cada um vivendo, se movendo e existindo inteiramente nAquele que dá sentido a tudo e a todos. Esse trajeto é como a apressada volta das ovelhas para o aprisco, jornada que percorre caminhos de saciedade e descanso, e que também escondem perigos. Mas, sabe o que é mais importante? Ele nos conduz “por amor do seu nome”. Quando atentamos para o zelo que Deus  demonstra pelo seu nome nas Escrituras, percebemos bem o que isso significa, que ele está fielmente comprometido e presente em todo o processo. 

Os caminhos são sempre confortáveis e bonitos? Confortáveis, nem sempre são. Mas garanto, há beleza.
 

O que há de belo nos caminhos sombrios?

Basta avançar para o quarto verso, que descobrimos que não só de “pastos verdejantes” e “águas tranquilas” é feita a jornada. Existem trechos perigosos e sombrios por todo o trajeto, e muitas armadilhas também. O que pode haver de belo nessas etapas do caminho?

“Mesmo quando eu andar pelo escuro vale da morte, não terei medo, pois tu estás ao meu lado. Tua vara e teu cajado me protegem.” (v. 4)

O próprio texto traz a resposta. Davi percebe que a beleza do caminho pode até não estar na paisagem, mas que são justamente nos cenários sombrios e perigosos que se destaca a beleza dAquele que pelo caminho nos conduz - “pois tu estás ao meu lado”.

 

O fundamento último do medo não é o perigo iminente, mas a sensação de estar sozinho - “Só sente medo quem se sente só.” - (Bomfim, 2018).

 

Na carreira que nos foi proposta, a beleza está na Presença - “lembrem-se disto: estou sempre com vocês, até o fim dos tempos.” - (Mateus 28:20). Por isso, quando a paisagem não corresponde à visão que se tem nos trechos verdes e ensolarados do caminho, é que se percebe as perfeições dAquele em quem não há escuridão alguma, pois é inteiramente luz. (1João 1.5)

Com sua “vara”, o bom Pastor nos protege contra as ameaças e nos corrige de nossos desvios. Com “seu cajado”, nos resgata das muitas armadilhas dos terrenos desnivelados. A proteção que há na sua presença nos inspira confiança necessária para prosseguir. Os cenários sombrios e perigosos do trajeto podem até causar desconfortos e tristezas momentâneas, mas a consciência da presença de Deus, nos guiando pelo caminho, insurge-se contra o medo, até que o vença por completo.
 

Na Mesa com o Anfitrião

Este salmo possui duas metáforas que o divide em partes conectadas pelo sentido geral do texto, mas distintas quanto à figura utilizada. Até aqui, vimos a metáfora de Deus como pastor. Do verso 5 em diante, Davi utiliza outro contexto metafórico para expressar seu contentamento em Deus e prazer de habitar em sua presença.

Quando o salmista diz: “Preparas um banquete para mim na presença de meus inimigos. Unges minha cabeça com óleo; meu cálice transborda.”, ele faz referência ao antigo costume - vide Lucas 7.46 - em que um anfitrião, ao receber em casa alguém a quem muito estima, ungia-lhe a cabeça com óleo e servia-lhe uma mesa farta, regada de boa comida e vinho. O interessante é que o texto menciona um banquete oferecido a Davi diante de seus inimigos. Aqui, suspeito também que passavam flashes de memórias na cabeça de Davi enquanto escrevia.

Embora não se tenha precisão quanto à data em que Davi compôs o salmo, é muito provável que tenha sido durante uma ocasião de cerco, em que, apesar do iminente perigo, o jovem guerreiro sentia-se amparado por Deus como um convidado de honra na casa de um bom anfitrião. Aqui se destaca novamente o fator mais importante da jornada: a Presença. É como se Davi experimentasse, com certa frequência, um vislumbre do que será a conclusão da jornada, sentar-se à mesa de Deus na eternidade. Isso silenciava o medo de tal modo, que imperava no coração de Davi a convicção:

“Certamente a bondade e o amor me seguirão todos os dias de minha vida, e viverei na casa do Senhor para sempre.” (v. 6)

 

Uma Canção de Retorno

Parece conclusão inevitável para Davi, a certeza de que a bondade e o amor misericordioso de Deus, o bom pastor, perseguem aqueles que fazem o trajeto de volta para a casa da qual jamais deveriam ter saído. Textos como da história dos patriarcas, da saída do Egito, das histórias dos exílios e a parábola do filho pródigo, reforçam a ideia de que Deus está sempre conduzindo os seus por um caminho de retorno. Para alguns, houve mais dores que para outros. Porém, em todos os casos, a presença de Deus, percebida ou não, trouxe provisão e proteção, posicionando-os na história, conforme o Seu eterno propósito. Essas são marcas de Seu amor leal, o mesmo que nos persegue durante a nossa peregrinação, nos corrigindo no percurso, resgatando das armadilhas e pondo em fuga o que nos ameaça.

O salmo 23, para mim, é uma canção de retorno, que deve ser cantada em celebração à suficiência da presença de Deus conosco na jornada rumo à sua morada Eterna, onde “haverá um só rebanho e um só pastor”.

 

Até o próximo post! :)

Religião

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Evandro Brandão
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Cristão • RJ • Marido da Layza • Conectar é a missão • Conhecer e Comunicar são meus verbos.

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