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Uma Casa Sacerdotal em Movimento

Uma Casa Sacerdotal em Movimento

Uma só casa, um só povo, uma só voz, se levantará sobre a terra - Anderson Bomfim.

Em dias de definição sempre há um ambiente de tensão e pressão. Na medida que o dia da libertação do Egito, anunciado pelo Senhor a Abraão (Gn 15.12-20) se aproximava, dois movimentos ganhavam força no meio do povo hebreu. De um lado Faraó se levantava para paralisar a ação de Deus. E do outro lado, Deus levantava um libertador. Enquanto de um lado se ouvia o som dos gritos e dos chicotes dos capatazes, que assolavam o povo com duras cargas de trabalho, de outro lado, havia um clamor, gerado e intensificado pelo Espírito, em meio ao povo.

A finalidade do som dos capatazes era oprimir e impor medo, para que o propósito de se construir estruturas, que elevariam Faraó à uma deidade global, fosse alcançado. Já a finalidade do clamor, era conectar o povo ao que Deus estava realizando naquele momento de acordo com seu propósito Eterno. Enquanto no Egito, as estruturas construídas evidenciavam o domínio de Faraó, Deus estava propondo edificar uma casa sacerdotal para Si mesmo, para habitar entre o povo.

De um lado, temos uma casa símbolo de uma relação unilateral de domínio e poder do deus Faraó sobre o povo, e de outro, uma casa símbolo de uma relação de amor pactual e íntimo entre Deus e seu povo.

 

UMA CASA: ESTRUTURA COM PROPÓSITO

Existem várias expressões hebraicas que são traduzidos por casa. Entre eles está a expressão בית bayith que é traduzida tanto no sentido da casa como edificação, quanto no sentido do ambiente lar, constituído por pessoas que pertencem a mesma família. Esta expressão deriva da raiz בנה banah, um verbo que significa construir, estabelecer, fazer continuar. Portanto, na mentalidade hebraica, a expressão casa remete a estrutura e ambiente, que devem ser construídos na perspectiva de continuidade.

 

"Eu me revelei a Abraão, para que ordene a seus filhos e à sua casa, depois dele, que guardem (shamar) o caminho do Senhor, e façam (asah) o que é certo (mishpat) e justo (tsedeq), para que o Senhor faça acontecer a Abraão o que ele lhe prometeu" - Gn 18.19

 

No contexto de uma casa, há uma ordem que ela precisa estar sujeita. Seja em termos da construção física, quanto na questão do ambiente, é necessário obedecer princípios para que seja edificada de maneira correta. Paulo orienta a Igreja em Corinto sobre este aspecto.

 

Segundo a graça de Deus que me foi dada, pus eu, como sábio arquiteto, o fundamento, e outro edifica sobre ele; mas veja cada um como edifica sobre ele. Porque ninguém pode pôr outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo. E, se alguém sobre este fundamento formar um edifício de ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, a obra de cada um se manifestará; na verdade, o Dia a declarará, porque pelo fogo será descoberta; e o fogo provará qual seja a obra de cada um. - 1Co 3.10-13

 

Paulo está enfatizando a comunidade de Corinto, que Cristo como o fundamento, representa o padrão que define a natureza da construção. E os materiais utilizados representam se estamos edificando a partir de nossa natureza (materiais perecíveis) ou da Sua natureza (materiais resistentes que representam a honra, pureza e Senhorio Soberano).

Mas devemos nos lembrar que uma casa também remete ao ambiente, e neste ponto, Voddie Baucham afirma que "o estilo de vida de algumas famílias está contaminado pelos típicos e atuais padrões culturais que separam pais de filhos em casa e na igreja (...) a família está na mesma casa, porém nunca dividem o mesmo espaço. Compartilham um endereço e um sobrenome, porém, não compartilham a vida".

Podemos congregar em uma igreja "contemporânea" ou mais "tradicional", mas se frequentamos um lugar onde não compartilhamos da vida, ainda não vivemos a experiência do ser família de Deus. Estamos em uma casa, mas não pertencemos a ela.

Assim como, não há neutralidade nos itens que escolhemos utilizar na edificação, na construção do ambiente também não há. Charles Hodge também nos ensina que "a responsabilidade de um homem para com seus filhos, assim como para com Deus, o compromete a fazer de sua casa uma Betel; se não for uma Betel, será um lugar de habitação de espíritos malignos". Talvez esta seja a perspectiva que a Bíblia nos ensina na ocasião em que Abraão (Gn 12.8) estabelece sua tenda e constrói um altar entre Betel (a Casa de Deus - a casa que permanece) e Ai (um monte de ruínas - uma casa que sucumbiu), nos ensinado que a realidade de uma casa é resultado do tipo de sacerdócio que a modela e sustenta. Por isso, a casa nunca é neutra, ela sempre estará ligada a um tipo de culto/cultivo, que é realizado em nome de alguém e para alguém.

 

Moisés foi fiel na casa de Deus, como servo dá testemunho das coisas que Deus mais tarde tornaria públicas. Entretanto, o Messias como Filho, foi fiel sobre a casa de Deus. E nós somos essa casa, pertencente a ele, contanto que sustentemos com firmeza a coragem e a confiança inspiradas na esperança que temos. - Hb 3.5-6

 

Outro exemplo que encontramos é quando Davi (2Sm 7) propôs no coração de construir uma casa para Deus. Deus respondeu dizendo, que na realidade, o próprio Deus iria construir uma casa para Davi, na qual Seu Nome estaria sobre ela perpetuamente. Conforme no ensina Timothy Keller, o lar é um lugar de descanso e shalom.

 

UMA CASA, UM SACERDÓCIO

Falamos sobre a casa como um edifício e ao mesmo tempo um ambiente. Abordamos ainda que este lugar não é de neutralidade, mas de evidência tangível do tipo de expressão relacional presente nela. O homem sacerdotal Adão foi constituído como um governante sobre a terra, e  recebeu a incumbência de guardar o ambiente que Deus criou e cultivar um ambiente relacional para a habitação de Deus entre os homens. Cada ação dentro desta realidade, era como um incenso agradável que subia a presença de Deus, pois o trabalho não estava relacionado a tarefas intermináveis, mas em um culto como expressão de uma relação perfeita em amor.

 

Sacerdote é uma pessoa que ocupa uma posição diante de Deus. É alguém que goza uma comunhão muito íntima com Deus. (...) é também uma pessoa que ministra diante de Deus e ao povo a favor de Deus. Ele leva a presença de Deus ao povo. E leva o povo à presença de Deus. Ele leva a responsabilidade e culpa do povo diante de Deus. Ele é um ministro e representante de Deus." - Derek Prince

 

"A medida que se aproxima Dele, a pedra viva rejeitada pelas pessoas, mas escolhida por Deus e preciosa para ele, vocês mesmos, como pedras vivas, estão sendo utilizados na edificação de uma casa espiritual para serem sacerdotes separados para Deus, a fim de oferecerem sacrifícios espirituais aceitáveis a ele, por intermédio de Yeshua, o Messias." - 1Pe 2.4-5

A palavra em hebraico para sacerdote é kohen כהן, que significa sacerdote, oficiante principal ou governante principal. Sua raiz é כהן kahan, que significa agir como um sacerdote, ministrar em ofício sacerdotal. Ou seja, o sacerdócio envolve uma natureza funcionalmente ativa, e não apenas uma posição estática. Se não agimos como sacerdotes, pode ser que ainda não aprendemos a ministrar como sacerdotes ou, o que é pior, podemos não ter a natureza sacerdotal de Cristo que achamos que temos. Derek Prince ainda continua nos estimulado a pensarmos no entrelaçamento do sacerdócio e o governo.

 

E quais são os sacrifícios espirituais oferecidos a Deus pelo sacerdócio santo? São vários. Porém, existe uma palavra que inclui no seu sentido todos os sacrifícios oferecidos a Deus. Esta palavra é “oração”. Compreende adoração, louvor, petição e intercessão. Quantos cristãos estão ativamente funcionando como sacerdotes? Quantos cristãos sabem ministrar como sacerdotes, oferecendo diariamente sacrifícios espirituais, aceitáveis a Deus? Muito poucos. Conseqüentemente poucos estão reinando. E Deus não possui ainda seu reino de sacerdotes.

 

Se o que estamos realizando no cotidiano da vida, não nasce da prática da oração como um principio sacerdotal de ministério ao Senhor, o que fazemos não é uma expressão sacerdotal de ministrar ao povo a favor de Deus. Assim como não há neutralidade na casa como edifício e ambiente, não há neutralidade no tipo de sacerdócio presente nesta casa. Ou somos sacerdotes do Deus Altíssimo, ou somos sacerdotes pagãos, que servem aos ídolos do coração, que são a nossa própria imagem e semelhança.

 

Em primeiro lugar, então, aconselho que sejam feitas petições, orações, intercessões e ações de graças por todos os homens, incluindo reis e pessoas em postos de proeminência, para que possamos viver de forma tranquila e pacífica sendo pieodosos e corretos em tudo. Isso é o que Deus, nosso libertador, considera bom; isso tem a sua aprovação. Ele deseja que toda a humanidade seja libertada e chegue ao pleno conhecimento da verdade. Pois Deus é único, e há um só Mediador entre Deus e a humanidade, Yeshua, o Messias, um ser humano, o qual se entregou como resgate a favor de todos, provendo, desse modo, o testemunho do propósito de Deus no tempo exato. - 1Tm 2.1-6

 

Um dos fundamentos da operação sacerdotal no Antigo Testamento, era a disciplina, ou seja, um conjunto de leis ou ordens que regem certas coletividades, obediência a um conjunto de regras explícitas ou implícitas, além de submissão e obediência à autoridade. O sacerdotes precisavam ser disciplinados, atentos a cada detalhe. Precisavam seguir determinados protocolos antes de se apresentarem a Deus. Toda aquela simbologia estava carregada de uma didática incrível. Os sacerdotes foram designados para estar diante de Deus, e deveriam observar as condições designadas para se apresentar diante de Deus. Não era a disciplina que os tornava sacerdotes, mas por serem sacerdotes, deveriam observar a legislação que regulamentava sua atuação sacerdotal. Deveriam inclusive, se vestir com vestes que remetiam a justiça, a santidade e a honra gloriosa de Deus . Deveriam, oferecer sacrifícios e mover o incensario diante de Deus (Ex 39 e 40).

 

UMA CASA, UM SACERDÓCIO, UM MOVIMENTO

 

A casa de Israel saiu do Egito as pressas porque o tempo de cumprimento de uma promessa feita sob juramento a Abraão havia chegado. Deus os colocou em movimento a partir Pessach (Páscoa), a qual marcaria uma agenda e que regulamentaria a vida socio-historica de Israel. A redenção do sangue através de Pessach, marcava o início de uma jornada de peregrinação e o estabelecimento do povo em uma terra, para que se tornassem abençoadores de todas as nações.

Toda ação de Deus na história do povo hebreu foi progressiva. Na primeira etapa, Deus os livrou e os colocou na jornada em direção a terra prometida, usando o ambiente do deserto para separá-los e formá-los como um povo sacerdotal. A segunda foi ordenar a centralidade da vida, em meio a transitoriedade da vida. Deveriam erigir um tabernaculo no deserto para que se desenvolvessem como sacerdotes, pois a conquista da terra prometida não viria mediante uma ocupação militar, ou através de influência política, ou ainda, através de relações comerciais, mas através do estabelecimento de um povo de natureza sacerdotal. A terceira foi ordenar a disposição do arraial para que pudessem avançar de maneira adequada, e assim, didaticamente, ensiná-los sobre a própria administração da terra de Canaã, e designar o papel que cada família exerceria quando fossem estabelecidos na terra.

 

Na saída do Egito, Deus os resgatou com mão forte, ia a sua frente, mas a partir do estabelecimento do sacerdócio, Deus continuaria conduzindo o povo, mas este agora, seria o portador da presença de Deus por onde estivesse por causa da aliança de Deus com seu povo  - Ex 40.34-38

 

Timothy Keller afirma que  que a igreja como organização institucional, sempre tende a focar em suas atividades comunitárias, pois busca "promover padrões estáveis e comportamento por meio de regras e políticas que mudam devagar e, assim, limitam e moldam as escolhas e as práticas das pessoas. Contudo, essa limitação intencional de escolhas é normalmente algo saudável". Por isso, a maior parte de seus programas, quando não totalmente, estão voltados ao público interno. São pensados para o desenvolvimento de seus membros, e as atividades normalmente são segmentadas, e dirigidas em sua maioria das vezes, para proporcionar um ambiente de crescimento, na medida em que mais pessoas externas são trazidas para dentro dela. Podemos chamar isso de um movimento de trazer para dentro as pessoas que estão fora, e manter dentro aqueles que se achegaram.

Para Keller, o papel de uma organização institucional, "é trazer ordem a vida e estabelecer novas condições para o desenvolvimento humano e para a sociedade civilizada". Na igreja institucional, o prédio tem um valor fundamental e a vida disciplinada um fator importante de sustentabilidade. Mas na igreja na dinâmica de movimento livre, o ponto central é a visão compartilhada sobre o futuro. O prédio tem seu papel, mas o ponto central da sua atuação é a cidade, e suas ações são focadas na cultura desta cidade. Mas Keller continua nos provocando para não olharmos para os extremos, mas em encontrarmos essa natureza dupla da igreja, "enraizada na obra do Espírito, e é o Espírito que torna a igreja ao mesmo tempo organismo vital e organização organizada".

É preciso então considerar, que a casa precisa ser uma "organização organizada", que possui suas regras ou leis (sua economia), que sustentam as interações entre os indivíduos e o seu ambiente (ecossistema), e que assim, nos permite entender claramente como as coisas funcionam neste ambiente (ecologia). Mas ao mesmo tempo, esta casa precisa estar em movimento, aprendendo a interagir com o ambiente da cidade onde está inserida, nutrindo uma postura de flexibilidade generosa para interagir com outras pessoas ou organizações.

Encontramos este mesmo princípio, na ordem de Deus para Abraão, para  que ele ordenasse uma casa, que se relacionaria  com outras famílias da terra, e desta maneira, se tornariam o principal recurso para transformação das casas de ruínas, em casas onde a Presença de Deus seria uma realidade presente.

 

CONCLUSÃO

Quando pensamos na Mob como uma casa sacerdotal em movimento, precisamos ter em mente que sempre estaremos em um processo contínuo de uma construção em movimento. Por isso, é importante que o funcionamento desta casa seja ordenado a partir de princípios que tornam a casa funcional, e facilite a interação entre todos os que a frequentam. Permitindo desta forma, que todos tenham acesso ao ambiente que está sendo construído na casa, pois é o tipo de ambiente que estamos promovendo, que sinaliza as mudanças que devem ser realizadas nas estruturas onde estamos inseridos.

Como administramos a casa, determina o tipo de administração que exerceremos na cidade. Se não há sacerdócio na casa, não há sacerdócio na cidade. Se não há ordem na casa, não teremos competência de administrar a ordem de Deus na cidade.  Se não temos repertório para atuar na cidade, ao invés de estarmos entre as pessoas na cidade como testemunhas de Cristo, o máximo que conseguiremos, é trazer a cidade para o lugar onde temos uma linguagem que é limitada a nós mesmos.

Se somos sábios construtores, precisamos compreender quem Deus é a partir da Sua revelação a nós, e desta forma compreendermos como Deus administra todas as coisas (Jr 9.24-25). Por isso, o desafio que temos a frente envolve visualizar novos modelos de atuação, sem alterar a essência e a natureza de quem nascemos para ser, que define o que fomos chamados para mobilizar.

Vamos juntos!

Igreja

MOB Collab
Marcelo Souza
Marcelo Souza Seguir

Natural de Curitiba, é casado com Zélia e pai da Júlia. Pastor na Missão Mobilização, Founder da Illumine, Presidente da Acridas, mentor e conselheiro de empresários e líderes nas áreas corporativa, pública e eclesiástica.

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