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A importância do culto familiar e a responsabilidade intransferível do discipulado dos filhos.

A importância do culto familiar e a responsabilidade intransferível do discipulado dos filhos.

É muito comum ouvirmos termos comuns ao universo do planejamento estratégico em nosso processo organizacional. Principalmente os termos “Missão, visão e valores”. O que isso pode significar para nós? Primeiramente, a missão não seria o que a igreja faz, mas o que ela foi chamada a participar, uma vez que, a missão é de Deus, dada por Deus e para Deus (Romanos 11:36).

A visão é onde devemos chegar, o tipo de gente que esperamos nos tornar a partir do olhar firmemente para Jesus (Hebreus 12:2), o alvo para o qual prosseguimos (Filipenses 3:14), é mais que um lugar a se chegar, porque nosso destino é um encontro eterno. Mas o que são valores? São os princípios inegociáveis que nos mantém nessa jornada esperançosa.

Observemos o exemplo de Jesus. O evangelho segundo Lucas diz que: “Jesus, cheio do Espírito Santo, voltou do Jordão e foi guiado pelo mesmo Espírito, no deserto". O evangelho segundo João diz que: “O Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito” (João 14:16).

Também diz que: “O Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade” (João 16:13). Paulo escrevendo aos Romanos declara que: “Todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus” Romanos 8:15. Portanto, a missão é de Deus, a visão está em Jesus e o Espírito Santo nos ensina a andar nos seus mandamentos, segundo todos os seus valores (Ezequiel 36:27).

A verdade é que todos têm seus valores. A questão é quais são e como identificá-los. O evangelho segundo Lucas nos ajuda a entender o que há em comum nas parábolas da ovelha perdida, da dracma perdida e do filho pródigo (Lucas 15:1). Todos estão buscando algo segundo seu mapa de valores. Em todas as parábolas, vemos até onde alguém está disposto a ir por algo que lhe é valioso. A pergunta é o que estamos buscando? Quais são alguns dos valores que determinam nossa busca?

Nossos valores estão presentes em tudo que fazemos, falamos, na forma como nos comportamos e nos relacionamos. Valores falam do que cremos, mas é a forma como vivemos que comunica onde realmente está nosso coração, no que de fato cremos, quem realmente seguimos (Mateus 6:21).

Nossos valores nos mantêm na linha, no plano de voo, para que não sejamos surpreendidos por algum outro destino inesperado. Se perdemos valores, às coordenadas da jornada cristã, nos desviamos da missão de Deus e nos tornamos alguém totalmente diferente daquilo que pensamos um dia nos tornar. Esse desvio do alvo chama-se “Pecado”, e como disse o sábio: "Há caminho que ao homem parece direito, mas ao cabo dá em caminhos de morte” (Provérbios 14:12).

Em meio a tanta pobreza, cegueira e nudez espiritual (Apocalipse 3:17), precisamos buscar os valores que se perderam, os princípios negligenciados e verdades relativizadas. Cremos que tesouros da sabedoria de Deus precisam ser encontrados. Precisamos partir rumo as dracmas perdidas.

Landa Cope em seu livro “Modelo social do Antigo Testamento” afirma que: “Numa época em que nos concentramos em quase tudo menos na família, filmes, TV, música, escola, amigos, Deus coloca seu olhar diretamente sobre a Família, elegendo-a como a influência mais importante na Sociedade. A visão bíblica geral nos deixa com um enorme senso de que, para Deus, a Família é sagrada e é o alicerce mais importante de tudo o que Ele criou”.

Temos como objetivo sincronizar vida e mensagem. Instruindo e ordenando a vida de todos os que creem, em toda a sua Integralidade, a partir de todos os valores do Reino de Deus, para que a Igreja de Cristo como a expressão dos santos, seja a expressão de Cristo a todos os homens.

Jesus primeiro se reproduziu em seus discípulos, depois seus "discipulados" o expressam na terra tornando-se sua igreja, a expressão do seu corpo. Se existe uma igreja constituída de gente que não expressa Jesus, talvez tenha se instruíndo uma igreja na localidade antes de Jesus ter sido formado em pessoas.

 

Quais são os valores da
nossa jornada de fé?

Temos como valor fundamental da nossa confissão de fé, a santíssima Trindade, Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo como relação progenitora da existência de todas as coisas. Deus como uma relação eterna de amor concebeu o homem em família segundo a sua imagem e semelhança. Temos como valor o propósito eterno de Deus de ser Pai de muito filhos como Jesus, por meio de Jesus, recebendo do Espírito Santo o testemunho de que somos filhos.

Temos como valor que o Reino de Deus é sacerdotal, que o homem não se tornou sacerdote por causa do pecado, mas que nasceu para o sacerdócio. Cremos que o sacerdócio de todos os santos é familiar, estabelecido por natureza divina e não competência ou habilidade humana.

Cremos na vocação sacerdotal empreendedora da família, que como agente cultural e social resgata o mandato de cultivar e guardar, adorar e prestar culto. Temos como valor que Deus é relacional, pactual e familiar. Acreditamos na família e nutrimos relacionamos fraternos.

Temos como valor que a Família deve prover um ambiente de educação seguro para o crescimento, para sua próxima geração. Cremos que a família é o alicerce mais fundamental na construção da Sociedade.

Por isso, parece incoerente esperar que as coisas funcionem na esfera pública, se nada acontece na base formadora familiar. Qual o sentido do culto bonito se a cidade continua feia. Porque a cidade continua feia, se o culto está bonito? Talvez porque haja mais secularidade do que sacralidade na vida familiar.

 

Parece incoerente esperar que as coisas funcionem na esfera pública, se nada acontece na base formadora familiar. Qual o sentido do culto bonito se a cidade continua feia. Porque a cidade continua feia, se o culto está bonito? Talvez porque haja mais secularidade do que sacralidade na vida familiar.

 

Somos na cidade, o que somos na família, mas o que somos na família, nem sempre é o que somos na igreja. Se o que somos na igreja, não somos na família, o que somos na cidade é o que somos em casa em família e não na igreja. Então, qual o valor e influência da igreja na família? Talvez se tenha mais do espírito que se move no curso da cidade do que do Espírito que se move na vida da igreja.

Que relevância os valores da fé cristã como confissão vida e prática tem na integralidade da vida e nos ritos cotidianos? Será que isso tem alguma coisa a ver com o fato de os filhos não quererem ir à igreja? Será que o problema está no culto público da igreja ou nos ritos privados da vida familiar?

Voddie Baucham Jr. no livro "Pastores da família", faz uma citação importante de Charles Hodge sobre isso: "A qualidade da igreja e do estado depende da qualidade da família. Se a religião desaparece da família, não poderá resistir em outro lugar". 

A ordem bíblica quanto ao funcionamento das coisas é clara e exponencial. Paulo escrevendo ao seu discípulo Timóteo fala sobre o governo da casa, preceder o governo da igreja: “Deve liderar bem a própria família e ter os filhos que o respeitem e lhe obedeçam. Pois, se um homem não é capaz de liderar a própria família, como poderá cuidar da igreja de Deus?" (1 Timóteo 3:4). Quando a igreja estiver em casa, a família estará na igreja, e a igreja será reconhecida na cidade.

A igreja do primeiro século perseverava unanimemente na doutrina, dedicavam-se nas orações e reuniam-se nas casas para partir do pão com alegria e generosidade. Havia neles, profundo temor do Senhor que é o princípio da sabedoria, e aconteciam muitos sinais maravilhosos, todos os que criam estavam juntos e compartilhavam tudo que possuíam. É interessante observar que apesar de eles perseverarem no templo, sabemos que se encontravam no pórtico de Salomão (Atos 5:12), um espaço coberto na parte oriental do tempo. O que isso pode significar?

Como contar com a simpatia do povo e serem reconhecidos pela cidade, sem ao menos ter um templo para chamar de igreja? O que fez aqueles homens serem percebidos? Essa igreja não funcionava uma vez por semana, em belos cultos cheios de domingo, essa igreja funcionava diariamente nas casas, havia sacralidade na vida cotidiana, um estilo de vida contagiantemente cristão. De casa em casa, de casa ao templo, do templo a cidade. Se a cidade é constituída de famílias, a verdade ensinada no templo, vivida nas famílias irá tocar a cidade.

O que é mais fácil? Construir um templo ou formar ministros sacerdotais? Parece que ainda estamos nas pegadas de Cain, planejamos construir cidades do futuro, mas não estamos dispostos a nos dedicar em formar o tipo de gente sacerdotal do Reino Vindouro, os tipos de gente distinta que andará nas ruas da cidade dos homens a partir da perspectiva da cidade de Deus.

 

Como se posicionar diante da 
crise confessional da família cristã? 

É importante que nossos filhos se posicionem diante do discurso religioso neutro de crença nominal no deus cultural proposto pela modernidade líquida. Nossos filhos precisam compreender o poder pactual da confissão em Jesus. Ele mesmo disse: “Todo aquele que me confessar diante das pessoas, também o Filho do homem o confessará diante dos anjos de Deus. No entanto, o que me negar diante dos homens será negado diante dos anjos de Deus” (Lucas 2:46). Existe poder de representatividade na confessionalidade.

Confessar não se limita a declarar sua crença no Deus desconhecido conhecido de todos, como o deus encontrado por Paulo no areópago em Atenas (Atos17). Confessar é o ato espiritual, pactual e legislativo de homologar sua fé, legitimar oficialmente seu compromisso com Jesus Cristo.

 

Confessar é o ato espiritual, pactual e legislativo de homologar sua fé, legitimar oficialmente seu compromisso com Jesus Cristo.

 

Confessar é tornar-se um com o Logos, declarar sua unidade com o Cristo de Deus. Confessar Jesus Cristo, Filho de Deus, é renunciar a carência de aceitação que te faz adepto da crença comum na religião da cultura sincretista, é romper com a ilegitimidade da informalidade religiosa para tornar-se testemunha fiel de Jesus e pregar o evangelho do Reino de Deus a todos, sem ser afetado por nada, nem ninguém.

Nossos filhos não podem abrir mão de confessar Jesus, porque essa confissão tem poder de representatividade legal. Assim como no casamento podemos falar em nome do cônjuge baseado na unidade do pacto, quando confesso Jesus, estou com Ele onde ele está, e Ele está comigo onde estou. Essa verdade nos resgata do universo de subjetividades da espiritualidade moderna, para a relação objetiva e concreta com o Único Deus Pai do nosso Senhor Jesus Cristo, testificado em nós pela presença do Espírito Santo.

O autor Uri Brito no seu livro “Pai Trinitário” fala algo importante sobre essa crise confessional da família cristã. Segundo ele: "Os representantes da modernidade neo-ateísta carismática parecem ter em sua agenda global tornar o Deus trinitário do Cristianismo tão imaginário quanto Zeus ou um unicórnio rosa. Se você cria seus filhos para a honra de um deus genérico, logo que eles deixarem o ensino médio, provavelmente deixarão a igreja”.

Nancy Pearcey, considerada pela “The Economist” como a “intelectual feminina evangélica protestante preeminente dos Estados Unidos”, escreveu no livro “Verdade Absoluta” que: "A história trágica dos jovens criados em lares cristãos, abandonando a fé na faculdade é repetitiva. Por que este padrão é tão comum? Em grande parte, porque não foram ensinados a desenvolver cosmovisão bíblica, restritos a uma área especializada de crença religiosa. Se tudo que dermos for uma religião do coração, não serão bastante fortes para se oporem às ideias. Jovens também precisam de uma religião do cérebro, educação em cosmovisão e apologética para equipá-los na análise e crítica de cosmovisões que encontrarão mundo afora".

Seguindo por esse caminho largo de fim abismal, a tendência é que a fé se limite a crença passiva e particular, sem poder de impacto na integralidade da vida pública. Voddie Baucham Jr. em seu livro "Família Guiada pela fé” é bem realista ao dizer que: "Não iremos muito longe como igreja, ministros e ministérios se as famílias não se tornarem intencionais e regulares nas práticas religiosas elementares como leitura bíblica e orações, para formação cristã das crianças, jovens e famílias".

 

Com ou sem palavras, 
todos comunicamos valores.

Voddie Baucham Jr. continua dizendo que: “O que as famílias consideram importante evidencia-se pela maneira como gastam seu tempo. A prática do culto familiar mostra aos filhos que seus pais creem em Jesus como centro de tudo na vida. Moisés viu a vida do lar como o principal sistema de transmissão da verdade de Deus, de geração em geração”.

Em seu outro mais recente livro chamado "Pastores da família", Voddie Baucham Jr. amplia seu pensamento afirmando que: "Moisés claramente via a transmissão da verdade bíblica, de uma geração a outra, como uma responsabilidade compartilhada pelo lar. Claramente, o Antigo Testamento apresenta um mandato de ensinar a lei de Deus no contexto do lar, embora isso de forma alguma isso exclua o ministério dos sacerdotes e profetas. O objetivo de Deus é que seu povo se desenvolvesse e crescesse".  

O fato é que, a medida que nos tornamos pais, já influenciamos na formação de uma pessoa em sua totalidade. Independentemente do nosso temperamento e capacidade de se expressar, estamos comunicando algo bom ou ruim todo o tempo, com ou sem palavras, com presença ou ausência, por ação ou omissão. Tudo o que fazemos está sendo observado, interpretado e absorvido em forma de sentimentos, conceitos e prática. Em todo o tempo, estamos transmitindo segurança ou insegurança, força ou fraqueza, bondade ou egoísmo, perseverança ou inconstância, amor ou medo.

Nosso modo de vida e sua busca diária, está comunicando muito mais do que tudo aquilo que falamos ou deixamos de falar. A forma como tratamos as pessoas, como lidamos com os problemas, a ira, o sofrimento ou alegria, as conquistas ou perdas, sucesso ou frustração. A forma como lidamos com os negócios e o dinheiro, com a ética e a moral, se respeitamos as leis e princípios bíblicos, se agimos com justiça, verdade, misericórdia, se devolvemos o troco errado, se jogamos o lixo no lugar certo, se tratamos as pessoas com respeito, se atendemos aos necessitados, se assumimos quando estamos errados. O homem e a mulher que nossos filhos se tornarão, será resultado do tipo de Pai e mãe que somos.

Segundo a pesquisa apresentada por Voddie Baucham Jr. no livro “Família guiada pela fé”, 70% a 88% dos adolescentes cristãos deixam a igreja no segundo ano da faculdade. Baucham questiona: “Como alguém permaneceria fiel a um sistema de crenças que é relegado à periferia da sua vida? Imagine a comoção entre os pais, se 90% de nossos filhos ainda não tivessem aprendido a ler ao saírem do ensino médio. O problema não é que esses filhos estejam abandonando o cristianismo. O problema é que a maioria deles, na verdade, não é cristã. O estudo mencionado concluiu que apenas metade dos pais considerava um relacionamento de seus filhos com Cristo tão importante quanto a educação deles”.

Ele apresenta a pesquisa feita por Thom Rainer entre os Batistas do Sul nos EUA, indicando que quase metade de todos os membros da igreja podem não ser cristãos. Podemos estar diante do que pode ser chamado de evangelicalismo nominal. Todo esse cenário é um reflexo do nosso mapa de valores.

Se nó, como igreja local, não instruirmos e aperfeiçoarmos os pais na prática do culto familiar e discipulado da família, a verdade do evangelho não alcançará o centro da vida e a integralidade do ser, as verdades fundamentais da fé cristã não funcionarão de fato onde as pessoas são de verdade, não se tornarão testemunhas fiéis e relevantes de Jesus, agentes culturais do Reino de Deus em uma sociedade multicultural. A verdade é que família, esposa e filhos serão inevitavelmente discipulados por qualquer pessoa, segundo qualquer cultura e os seus respectivos valores.

Voddie Baucham Jr. no Livro “Família Guiada pela fé” diz que: “Uma família sem compromisso com o Deus da bíblia não tem esperança de escapar das ondas do massacre cultural. Se misturarmos um pouco de verdade bíblica, um pouco de psicologia secular e um pouco de ideologia dos livros românticos e um pouco de misticismo oriental, teremos uma mistura mortal de mentiras. Infelizmente, isso é exatamente o que muitas famílias cristãs fazem”.

 

Que mapa de valores 
entregamos aos nossos filhos.

Atribuímos sentido a vida a partir do nosso mapa moral, a vida é orientada segundo a organização dos valores, afeiçoes e anseios que definem a visão de mundo. Todos buscamos algo, e isso está sendo comunicado aos nossos filhos. James W. Sire no livro "Universo ao lado" define bem como essa visão de mundo é organizada: "Cosmovisão é um compromisso, a orientação fundamental do coração, expresso em uma história ou em pressupostos que mantemos, consciente ou inconscientemente sobre a constituição básica da realidade, que fornece o fundamento sobre o qual vivemos, nos movemos e existimos". 

O processo bíblico de inculcar, de ensinar de forma afiada e incisiva a palavra viva e penetrante de Deus aos nossos filhos, envolve toda a liturgia cotidiana, os momentos que estamos assentados na sala de casa, os lugares por onde andamos e como nos comportamos nesses lugares, a forma como nos levantamos todas as manhãs, e como começamos o dia, assim como a forma como nos despedimos deles e descansamos.

O que estamos comunicando aos nossos filhos com nosso silêncio quanto ao ensinar incisivamente a Palavra de Deus até inculcá-las dentro de suas mentes e corações? (Deuteronômio 6:7) O que estamos comunicando aos nossos filhos com a nossa omissão e cumplicidade para com as obras infrutíferas das trevas? (Efésios 5:11) Estamos comunicando nosso mapa de valores, e é por esse caminho que eles seguirão suas vidas.

 

Inculcar a palavra de Deus, seus mandamentos, o mapa de valores do Reino de Deus exige posicionamento, ser incisivo, ensinar através do modo de vida firme e decidido as verdades e virtudes imutáveis, inegáveis e inegociáveis de Deus.

 

Landa Cope, bacharel em Artes e Educação, e Mestrado em Humanidades e Estudos Internacionais, diz que: "Deus deu aos pais a responsabilidade de ensinarem e serem exemplo. Se não fizeram, alguém o fará. Deus quer que esse dever seja seu”. De fato, nós pais estamos sempre sendo observados, e isso é mais que simplesmente ter alguém olhando para você, significa que uma criança está se tornando alguém a partir do que está vendo em você.

 

O discipulado familiar é inevitável,
e a sua responsabilidade é intransferível.

Se todos comunicamos valores com ou sem palavras porque estamos sendo observados, é importante entender que o verbo “observar” na terminologia bíblica está diretamente relacionado a “obedecer”, porque o que alguém observa, provavelmente será o que alguém fará. Obedecer é mais que apenas seguir regras, é observar atentamente, admirar e procurar saber o que fazer para ser igual.

Essa relação inspiradora, influenciadora e modeladora é o que chamados de “discipulado”. Das Doze vezes que aparece a palavra “Discípulo” no Antigo testamento, dez vezes, a palavra usada é “Ben”, que significa “Filho”. Isso pode significar que discipulado não tem a ver apenas com a relação intelectual de professor e aluno, de transmissão de informação, mas sim, com uma relação familiar, entre pais e filhos.

Paulo confirma isso escrevendo aos irmãos em Corinto: “Ainda que tivessem dez mil mestres em Cristo, vocês não têm muitos pais, pois eu, pelo evangelho, vos gerei em Cristo Jesus” (1 Coríntios 4:15). Ainda que estudemos a bíblia com a família, é a relação biblicamente correta que exerce o poder da influência modeladora. Não podemos nos esconder atrás dos estudos, não podemos mais evitar a exposição relacional, sermos aperfeiçoados no amor através das relações familiares. Somos aperfeiçoados pelas relações (1 João 4:12).

Paulo, procurando encorajar seus discípulos chama-os de “filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser Cristo formado em vós” (Gálatas 4:19). Perceba que a relação não é impessoal, mas profundamente pessoal, associando a relação do discipulado com o processo gestacional, a partir do qual Cristo é formado no outro.

A questão é que assim como toda gestação, o discipulado é um ato de amor, auto sacrifício e entrega pessoal que compromete nosso tempo/vida. É um processo formador que implica ter que lidar com deformações. É um processo de dores. Fazer discípulos não é para meninos, por isso, Jesus autoriza seus discípulos a fazerem discípulos depois de serem discipulados.

A questão é que ainda falamos muito pouco sobre o que Jesus falava muito, e falamos muito sobre o que Jesus falava pouco. Nos evangelhos, Jesus fala apenas duas vezes sobre “Igreja" e aproximadamente duzentos e vinte seis vezes sobre “discípulos”. O que isso pode significar?

Talvez esse possa ser o elo perdido dos valores da vida cristã, a resposta para a tensão que existe entre o que todos sabem e o que poucos fazem, o caminho para restabelecer o testemunho de Jesus a partir das relações fundamentais que constituem a vida em sociedade. Jesus antes de restabelecer seu Reino na terra, veio como Deus Homem para a partir de si mesmo, formar um novo homem para um novo mundo. Como fez isso? Chamando pessoas para a relação do discipulado.

Porque não há tanta resistência em ser inteiro nas relações? Porque há tanta dificuldade em se conectar com o coração dos filhos? Talvez porque nas relações as fraturas serão expostas, isso implica expor as deformações da própria imagem. Mas que imagem queremos preservar? Se nossa imagem não for Jesus, se não somos segundo sua imagem e semelhança, que imagem temos? Que imagem queremos ter? Se estamos procurando preservar uma autoimagem, somos idolatras e essa imagem deve ser sacrificada.

Na relação discipuladora o milagre acontece, porque nela todos morrem, ninguém mais vive para si mesmo, e Cristo é formado em todos. A performance ministerial, o uso dos dons e talentos usados para afirmar-se, não convencerão nossos filhos de que eles precisam ser como Jesus, porque tudo que estarão vendo somos nós mesmo. Nossos filhos precisam ver Jesus, porque o chamado ao discipulado é o chamado de Jesus a Jesus. Dietrich Bonhoeffer no importante livro “Discipulado” afirma que: "O chamado ao discipulado é o compromisso exclusivo com a pessoa de Jesus Cristo”.

Portanto, conecte-se com seus filhos. Tenha a mesma atitude que houve em Cristo, que sendo Deus, esvaziou-se e veio até nós (Filipenses 2:5). Se Deus veio até nós, quem somos nós para não deixarmos o “mundo dos adultos” e entramos humildemente no quarto dos nossos filhos, entrarmos no universo complexo de seus dilemas, para quem sabe assim, poder mostrar o caminho para o sentido da vida. 

Se os nossos primeiros discípulos são os nossos filhos, será que desejarão seguir nossos passos? Mark Dever um dos autores da série "9 marcas de uma igreja saudável” dizem que: “Todos somos discípulos, a questão é: de quem? Porque discipulado é o ato de seguir”. Isso significa que o discipulado é inevitável, porque todos estamos seguindo algo ou alguém.

Ouvimos atentamente as palavras de Jesus ou ouvimos o conselho dos ímpios, daqueles que não conhecem a Deus(Salmo 1:1). Somos influenciados pelos valores do Reino de Deus ou valores daquele que atua sobre os filhos da desobediência, desviando o curso do mundo do seu propósito original (Efésios 2:2).

Se o discipulado é inevitável, quem tem falado no coração dos nossos filhos? Quem eles estão imitando? Como quem querem se tornar? Será que estão nos imitando, em tudo que temos imitado Jesus? (1Coríntios 11.1). Como descobrir quem está nos discipulando?

Jesus ensina que a realização do discípulo é ser como seu mestre (Mateus 10:25). Aquilo ou quem nos proporciona satisfação, é o que ou quem está nos discipulando. Onde está nossa satisfação? Qual a razão de tantos estarem sofrendo de desânimo, insatisfação e descontentamento? Porque nossos filhos não encontram prazer na Palavra de Deus e no Testemunho de Jesus?

Discipular nossa família é exercer uma boa influência espiritual, de forma que se tornem mais parecida com Cristo. Mark Dever afirma que: "Discipular nada mais é do que ajudar alguém a seguir Jesus ao exercer de forma intencional uma boa influência espiritual sobre a vida dessa pessoa”. Discipulado tem a ver com apontar um caminho a ser seguido, mostrar um campo a ser semeado, um poço a ser cavado, um tesouro a ser encontrado.

Segundo as palavras de Paulo ao seu discípulo Timóteo, se alguém não cuida dos seus parentes, e em especial dos membros de sua casa, os de sua própria família, negaram a fé e são piores que os descrentes (1 Timóteo 5.8 NVT). Além disso, Paulo reconhecesse a importante do discipulado familiar na formação de Timóteo (2 Timóteo 1:4-5 e 3:15). Voddie Baucham Jr. afirma no livro "Pastores da família" que: "Um histórico de discipulado efetivo no lar é uma importante qualificação para o ministério na igreja" (1 Timóteo 3:4-5).

Douglas Wilson faz uma citação no seu livro Reformando o Casamento interessante sobre isso: "John Bunyan, certa vez exortou os esposos a serem maridos tão crentes a ponto de fazerem a esposa crente dizer: Deus não apenas me deu um marido, mas um marido que é uma pregação diária de como Cristo trata sua igreja”.

Landa Cope, em sua obra “Modelo Social do Antigo Testamento” diz que: "A influência da Família está em tudo e em todos. Durante os primeiros 4 anos de vida, nossos pais e o ambiente do lar nos dão a definição de realidade que iremos usar pelo resto de nossas vidas. Adquirimos a maior parte da nossa cosmovisão antes até de começarmos a frequentar a escola. Quando chegam à idade escolar, as crianças já sabem, pela maneira como seus pais vivem, quais atributos de caráter são ou não importantes. A cultura pode ter grande influência, mas o lar é a influência principal na formação da criança, aos olhos de Deus, a mais importante”.

Ser discipulado é aprender a obedecer, enquanto Discipular é ensinar a obedecer. O chamado comissionador dos que foram discipulados aprendendo a obedecer a Jesus é o de ensinar outras pessoas obedecerem a Jesus. Lembre-se da grande comissão de Jesus aos seus discípulos: “Vão e façam discípulos, batizando-os e ensinando-os a obedecer” (Mateus 28.19). Trata-se de uma responsabilidade inegociável e intransferível. Voddie Baucham Jr. no livro "Pastores da família" diz algo importante sobre a relação da família e o evangelho: "A família não é o evangelho, nem a família é tão importante quanto o evangelho. A família é o mecanismo de transmissão do evangelho".

 

A urgência tem pressa, e
a prioridade tem paciência. 

O discipulado familiar é mais que uma urgência, é uma prioridade. Não se tratada de resolver problemas, solucionar demandas momentâneas. A urgência tem pressa, a prioridade paciência. A urgência exige remediar o mal, o perigo e até mesmo o risco de morte, enquanto a prioridade tem caráter preventivo, é para proporcionar qualidade de vida. Ter que lidar com tsunamis de urgências é algo para quem, em algum momento da jornada, perdeu suas prioridades.

A prioridade é o que está em primeiro lugar, aquilo que é antes de tudo, como o fundamento da sua construção. Lembre-se do ensino de Jesus: "Todo aquele que ouve estas minhas palavras e as pratica será comparado a um homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha; e caiu a chuva, transbordaram os rios, sopraram os ventos e deram com ímpeto contra aquela casa, que não caiu, porque fora edificada sobre a rocha” (Mateus 7:24). Urgências tentam salvar o que está desmoronando, enquanto prioridades constrói para permanecer.

 

Estamos vendo nosso tempo escapar das nossas mãos por causa das urgências imediatas, ou temos gestão do tempo investindo em prioridades a respeito do futuro?

 

Jesus ensina que em meio um mundo agitado, reativo e ansioso, de gente estrangulada pelas preocupações da vida, inseguras quanto a ter o que comer, beber e vestir, morrendo de medo da morte, devemos buscar em primeiro lugar o Reino de Deus. Porque todas essas coisas, pelas quais as pessoas se preocupam, todas as coisas que fazem os pais se afastarem cada vez mais dos seus filhos, nos serão acrescentadas (Mateus 6:33). No seu senhorio, estamos a salvo.

Discipular a família, esposa e filhos é uma prioridade do aqui e o agora para o amanhã. É agir no momento presente pensado o futuro. Discipular é plantar para colher a longo prazo. A urgência é reativa, enquanto a prioridade é proativa, antecipa acontecimentos. A urgência é a agente credora da negligência. Esse nível de compromisso requer a mentalidade estratégica de um investidor, sabendo que o retorno é vindouro. A conta da negligência uma hora vai chegar.

 

Não espere da sorte,
o que se recebe da disciplina no discipulado.

A criação de filhos não é uma roleta russa, ter um filho bem-sucedido não é uma questão de sorte, mas de disciplina, dedicação e trabalho. Henri Nouwen em seu livro “Espaço para Deus”, diz que: "A disciplina é a prática do ser discípulo”.

Precisamos trabalhar no cultivar e guardar do coração dos nossos filhos para que possam se tornar solo fértil para o evangelho. Discipular é o ato de cultivar, de criar laços profundos em relacionamentos frutíferos, é o florescer da vida que multiplica suas sementes sobre novos corações. Disciplinar é como o ato de guardar a essência original do amor que tudo sofre, crê, espera e acredita (1 Coríntios 13:7), é preservar a integridade da relação, até proteger o outro com a própria vida.

Disciplina é a prática do ser discípulo, é o ensino que um discípulo recebe do seu mestre. A essência da disciplina está na resposta voluntária a graça irresistível do chamado para segui-lo de perto, está no observar com admiração, ouvir com disposição em guardar, meditar até o saber querer fazer, imitar até tornar-se igual. Portanto, se a disciplina tem caráter relacional, nosso nível de disciplina é proporcional a intensidade da relação com aquele que afirmamos ser discípulos.

Nesse caso, a indisciplina e irresponsabilidade dos pais legaliza a indisciplina dos filhos, a ignorância ética promove iniquidade moral, que nada mais é do que um modo de vida sem princípios, a condição de alguém fora da lei. Discípulos se esforçam para ter a mesma atitude que houve em Cristo e não ter uma vida feliz segundo o modelo desta era.

Voddie Baucham Jr. no livro "Pastores da Família" diz que: "Disciplinar nossos filhos, não é ensiná-los a se comportarem de uma forma que não nos envergonhe. Estamos trabalhando por uma conquista muito mais importante que essa. Estamos, na verdade, criando filhos com o propósito de levá-los a confiar em Cristo e segui-lo".

Em nome do pragmatismo moderno, famílias denominaras cristãs aderem o pensamento pelagiano na criação de filhos, usando técnicas psicológicas manipularias para condicionar crianças inocentes ao bom comportamento, ao invés de pregarem o evangelho para arrependimento de toda maldade resultante do pecado original, pastoreando o coração de seus filhos até Jesus.

 

Instruções para ordenar as relações
elementares da vida.

Paulo escreve uma carta aos irmãos em Éfeso, que por sua importância tornou-se uma carta circular a todas as igrejas. Essa carta contém importantes conselhos para ordenar a relação matrimonial (marido e mulher), a relação familiar (pais e filhos) e a relação vocacional (empregado e empregador). A primeira grande instrução é que esse ordenar da vida deve acontecer a partir do ser cheio do Espírito Santo. Mas o que pode significar alguém estar cheio do Espírito? Como saber?

Se o evangelho é o poder de Deus (Romanos 1:16), se a luz do evangelho é a glória de Cristo (2 Coríntios 4:4), se as palavras de Cristo são espírito e vida (João 6:63), se as sagradas escrituras dão testemunho de Cristo (João 5:39), se o Espírito da Verdade, que fala por nós (Mateus 10:20), dá testemunho de Cristo (João 15:26), podemos concluir que, ser cheio do Espírito nada mais é ser cheio da palavra de Deus pregada por Jesus e testificada pelo Espírito. 

Lembre que quando o Espírito Santo conduziu Jesus ao deserto para ser tentado, Ele estava cheio do Espírito (Lucas 4:1). Lembre-se de como ele venceu as tentações dizendo: “Está escrito" (Lucas 4:4). Jesus estava cheio do Espírito porque estava cheio da palavra de Deus.

João escreve aos pais e filhos as seguintes palavras: "Pais, eu vos escrevi, porque conheceis aquele que existe desde o princípio. Jovens, eu vos escrevi, porque sois fortes, e a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno” (1João 2:14). "A vitória que vence o mundo é a nossa fé" (1 João 5:4). É por esse tipo de gente forte e vencedora que nós, os pais que conhecem o Deus, temos que trabalhar, enchendo-os da palavra de Deus até serem cheios do Espírito, ao invés de lança-los a própria sorte, na esperança mística de que a crença nominal, passiva e religiosa, um dia salvará a nossa casa (Atos 16:31). 

Lembre-se do testemunho de Noé. Sua casa não foi salva porque apenas acreditava em Deus, mas foi salva pela forma que respondeu a Deus, dedicando sua vida ao trabalho de construir tudo conforme as suas palavras. Por isso, sua família foi a única que sobreviveu ao dilúvio (Hebreus 11:7).

Um homem condenou o mundo pela forma como salvou sua casa. É dessa mentalidade que estamos falando. De pais que tenham espirito de revelação e sabedoria para compreender suas palavras. Revelação para ouvir a respeito do propósito e o tempo (trarei um dilúvio sobre a terra), e sabedoria para compreender o que fazer e como fazer (Construa uma arca).

A fé verdadeiramente fiel não se limita a saber ou acreditar que Deus existe, ou no que Deus fala, porque tem a ver com a forma como respondemos a quem Deus é e ao que Ele nos fala. Por isso, existem pais crentes incrédulos. A fé incrédula é aquela que ouve tudo, acredita em tudo, mas não se move em nada.

O autor da carta aos hebreus procura encoraja-los a crer, lembrando-os de uma nuvem de fiéis testemunhas. Pela fé, Abel levantou um altar, Noé construiu uma arca, Abraão saiu para uma terra desconhecida. Portanto, também precisamos dar uma resposta, precisamos desembaraçar a nossa vida e corrermos a carreira que nos está proposta (Hebreus 12:1-2).

Quais seriam os passos apresentados por Paulo para ordenar as relações  elementares da vida (Matrimonial, Familiar e vocacional)? Primeiramente, “Sejam cuidadosos em seu modo de vida. Não vivam como insensatos, mas como sábios” (Efésios 5:15NVT). Exorta ao procedimento diligente, a prestar atenção em tudo, vigiar todos os passos da caminhada, em todo tempo e lugar, para não ter algum comportamento semelhante ao dos néscios, os tolos ignorantes que não conhecem a Deus.

O conselho é para estar em estado de alerta e não de tranquilidade complacente, como se nada ameaçador a segurança da família estivesse acontecendo. Todo cuidado é pouco, pois a cultura do pecado é entorpecente, causa sonolência e compromete a percepção da realidade por causa da sua obscuridade.

Em segundo lugar, fala sobre “remir o tempo porque os dias são maus” (Efésios 5:16). Remir é resgatar o tempo do poder de outro, é uma tomada de domínio e governo. É o chamado do império das trevas para sua maravilhosa luz (1 Pedro 2:9). É ouvir o som do despertador e acordar do sono da insensatez, recompor-se da embriaguez da dissolução e do descontrole consumista da vida, abandonar a passiva cumplicidade com as obras infrutíferas das trevas e todas as suas distrações, para ser divinamente iluminado, compreender e abraçar a vontade de Deus, que é a expressão do seu Ser. Buscar sua vontade é buscar por Ele.

Se cremos que Jesus pode salvar nossa casa, devemos começar a construí-la sobre a sua palavra. Isso implica remir o tempo, sujeita-lo ao governo do Espírito Santo, decidir não se perder mais com o que é mal. O tempo que não é organizado é o tempo que perdemos. Por isso, devemos evitar as distrações.

É necessário ordenar o caos pela palavra, declarar o que deve acontecer e como deve acontecer dentro de casa. Remir é resgatar, trazer de volta o culto familiar, o sentar-se a mesa, o tempo de qualidade e atenção, conversas edificantes, tratamento respeitoso, e todo tipo de hábito digno dos filhos da luz, como toda bondade, justiça e verdade (Efésios 5:9).

 

O culto familiar e a 
dinâmica pastoral do discipulado.

A tarefa fundamental na criação de filhos é pastoreio dos seus corações. No exercício do culto familiar o cuidado pastoral natural do discipulado acontece. Porque todo aquele que é discipulado é pastoreado, mas nem todo que tem expectativa de pastoreio, visando apenas a resolução imediata dos seus problemas, quer de fato ser discípulo de Jesus.

Geralmente quem busca pastoreio quer saber o que fazer, enquanto quem corresponde a relação de discipulado anseia por quem se tornar. A busca por receber algo nem sempre representa a busca por se tornar alguém. A dinâmica pastoral do discipulado é mais diretiva do que resolutiva.

 

A busca por receber algo nem sempre representa a busca por se tornar alguém. A dinâmica pastoral do discipulado é mais diretiva do que resolutiva.

 

O pastoreio como resolução de problemas é circunstancial, enquanto o discipulado pastoral como desenvolvimento integral é existencial. Esse tipo de gente que dependente de paternalismo pastoral procura Jesus como salvador da crise, mas não como Senhor do sucesso. Contudo, sabemos que buscar pastoreio sem predisposição ao discipulado é tão incoerente quanto crer na salvação em Jesus, sem reconhecer seu senhorio sobre a integralidade da vida.

Estamos acostumados com alguém nos falando tudo o que temos que fazer ou deixar de fazer, mas o discipulado ensina perguntar. Jesus falava por parábolas e explicava o que os discípulos perguntavam. Todos sabemos que Jesus orava, mas só sabemos como orava porque seus discípulos um dia perguntaram. Conhecemos as pessoas mais pelas perguntas que fazem do que pelas afirmações que fazem. Por isso, conhecemos a verdade das crianças nas suas perguntas sobre Deus.

Sabe porque muitas vezes não sabemos como responder das perguntas dos nossos filhos? Porque as perguntas das crianças são bem mais teológicas do que as perguntas psicológicas e superficiais dos adultos. Não podemos subestimar a capacidade das crianças em aprender sobre Deus, porque o que elas perguntam nada mais é do que a pura e simples teologia. Que pai nunca foi perguntado sobre: Quem fez Deus? Onde Deus está? Como diz Voddie Baucham Jr. em seu livro "Família Guiada pela fé": “Essas são questões teológicas e uma das melhores atitudes nossas como pais é dar oportunidades para que essas perguntas sejam feitas e respondidas”. Portanto, devemos valorizar essa interação com nossos filhos sobre Deus. 

A prática do culto doméstico e o discipulado familiar podem quebrar muros e construir pontes, contudo é importante que os pais estejam abertos para encontrar-se com a verdade a respeito do que seus filhos, o que podem estar sentindo, pensando e fazendo. Isso não é tão simples quanto parece, porque todo pai tem um tipo de ideal imaginário dos seus filhos, e esse ideal imaginado pode se tornar um bloqueio contra o mundo real em que o filho está sobrevivendo sozinho.

 

Proporcione um ambiente com liberdade e
confiança para ser de verdade.

Para que a dinâmica pastoral do discipulado flua e a conexão aconteça é necessário dedicar tempo criando um ambiente seguro para que as pessoas sejam elas mesmas, um ambiente de confiança para que sejam de verdade, mesmo que isso signifique conhecer um monte de erros e mentiras.

A liberdade revela a verdade, por isso, a primeira coisa que a religião autoritarista e repressora faz é tirar do homem a primeira coisa que Deus lhe deu, a liberdade para desfrutar de tudo dentro dos limites da relação. Liberdade é ser o que fomos criados para ser, livres de medos e de preocupações.

Paulo vai deixar claro escrevendo aos Colossenses que o rigor repressor não tem poder contra as paixões, e tirar a liberdade é condicionar comportamento religioso de curto prazo não sustentável (Colossenses 2:23). A partir do momento que as pessoas se sentem livres para serem de verdade, revelam suas mentiras, possibilitando restabelecer os limites que preservam a integridade da sua relação com Deus, que exerce sua autoridade sobre os pilares do amor, limites e liberdade, desenvolvendo o homem em responsabilidade para governar de forma sacerdotal.

Pedro tomado de paixão impetuosa diz: “Senhor, por que não posso seguir-te agora? Por ti, darei a própria vida”. Segundo a narrativa de Mateus, Pedro chamando-o a parte diz: “Isso jamais te acontecerá”. Pedro se expõe sua percepção equivocada dos acontecimentos e Jesus o protege em um ambiente de cuidado. Porque segundo a narrativa de Lucas, satanás reclamou por peneirá-lo como Trigo e Jesus rogou por ele para que sua fé não desfalecesse. Somente quando os discípulos se sentem à vontade para serem de verdade poderão ser libertos de suas estruturas de engano. Conhecerão a verdade e ela os libertará (João 8:36).

Porque a liberdade é fundamental no discipulado? Porque o cuidado mútuo é para homens livres, para quem encontrou graça no Espírito para dizer não a si mesmo e sim ao seu irmão. Alguém incapaz de escolher contra sua vontade é escravo das próprias paixões.

A verdadeira liberdade é provada no servir uns aos outros em amor (Gálatas 5:13), e legitimada pela ética do amor responsável. Paulo escrevendo aos irmãos em Corinto, confirma isso: "Todas as coisas são lícitas, mas nem todas convêm; todas são lícitas, mas nem todas edificam. Ninguém busque o seu próprio interesse, e sim o de outrem” (1 Coríntios 10:23). "Não vos torneis causa de tropeço nem para judeus, nem para gentios, nem tampouco para a igreja de Deus, assim como também procuro, em tudo, ser agradável a todos, não buscando o meu próprio interesse, mas o de muitos, para que sejam salvos” (1 Coríntios 10:32).

 

O caráter escatológico do
discipulado familiar.

Discipuladores da família são homens de obras eternas, daqueles que mesmo depois de mortos continuam vivos por causa do seu legado geracional. Discipulado a família é um ato de amor sacrificial em favor dos filhos para que sejam apresentados santos diante dele no último dia.

O discipulado da família é escatológico, e baseia-se na esperança vida, como a antecipação do vindouro, o experimentar aqui e agora daquilo que será completo e para sempre. O paradigma é que assim como Cristo se entregou para que se apresente a Ele sua igreja como esposa santa e perfeita (Efésios 5:25-27). A esposa e filhos que se apresentarão serão o reflexo da dedicação a ensina-los a amar e obedecer a Jesus. Lembre-se que nenhum Filho se cria só, porque todo filho é discipulado por alguém.

Essa relação de discipulado e cuidado familiar é cristocêntrica, não está condicionada a nosso amor paterno, mas esta baseada no nosso amor por Jesus. É o amor de Deus, provado em Jesus e derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que é essência e motor que nos move nisso. O discipulado familiar fala do nosso amor por Jesus, e da compreensão do amor de Jesus por eles.

O discipulado define a relação de amor que temos por Jesus. Por isso que Jesus traz um ensino definidor sobre o custo do discipulado dizendo que: “Se alguém que me segue amar mais pai, mãe, esposa e filhos, irmãos e irmãs, e até mesmo a própria vida, mais que a mim, não pode ser meu discípulo” (Lucas 14:26). Essas palavras de Jesus estão registradas em um contexto de convidados que por causa das suas conquistas pessoais não se aprontaram para o grande banquete. Quem deveria estar pronto não havia se aprontado, por isso, foram chamados os despreparados.

Pessoas podem acreditar que o discipulado é uma opção, um tipo de programa religioso no menu de serviços eclesiásticos da igreja local ou algum tipo de estratégia proselitista evangélica. Outros podem acreditar na possibilidade de não Discipular sua família e continuarem amando sua esposa e filhos, seguindo seu caminho, segundo seu mapa de valores secular.

Talvez por causa desse tipo de pensamento displicente, muitos não se importem com a prática do culto familiar, até serem surpreendidos com o envolvimento dos filhos com ideologias pós-modernas liquidas, compulsões, vícios, pensamentos suicidas, ou qualquer outro tipo de situação assustadora.

Mark Dever fala algo importante sobre esse aspecto escatológico do ministério pastoral: “Sua luta e labor pastoral não podem estar enraizados em seu amor por eles ou no amor deles por você. Devem estar enraizados em seu amor por Cristo, no amor dele por você e no amor dele por eles. Ele os comprou com seu sangue. E seu objetivo é apresentá-los a ele”.

 

Concluindo em atitude de
arrependimento, conversão e gratidão.

Lucas 1:16 diz: "Ele Conduzirá muitos dos Filhos de Israel à conversão ao Senhor, seu Deus. Ele avançará na presença do Senhor, no mesmo espírito e poder de Elias, com o propósito de fazer voltar o coração dos pais a seus filhos e os desobedientes à sabedoria dos justos, deixando um povo preparado ao Senhor".  

Após 400 anos de silêncio e obscuridade, João Batista é levantado no espírito e poder de Elias, como a voz "daquele que clama", preparando o cenário para o cumprimento messiânico. Assim como o sacerdócio profético de Samuel anunciou o Reinado de Davi, e o sacerdócio profético de João anunciou o Cristo como Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo. Cremos nesse paradigma para os últimos dias. Que haverá um sacerdócio profético operante na terra pregando o evangelho do Reino a todas as nações como um sinal do fim, como testemunho da sua volta.

O que nos chama a atenção é o caráter reconciliador dessa mensagem profética e desse serviço sacerdotal. Nós chamados isso de conexão tridimensional. A primeira conexão é espiritual, porque trata da conversão do coração dos homens a Deus. Em Deus, homens e mulheres se encontram.

A segunda conexão é geracional porque em Deus, famílias se encontram, primeiro o coração dos pais se convertem aos filhos e depois o coração dos filhos se convertem aos pais. Aqui não se trata de pais e filhos discutindo relação, mas sim de pais e filhos se encontrando em Deus, através da mediação de Jesus. A partir dessa reconciliação acontece o terceiro nível de conexão territorial, porque a terra não é mais ferida com a maldição do pecado que causa separação de Deus. Morte é separação e separação é morte.

A partir da restauração dessas relações as próximas gerações serão abençoadas e não mais visitadas pelas maldições de Deus (Êxodo 20:5; Ezequiel 14:21). Não haverá mais quebras pactuais (Isaías 24:4), por causa da idolatria das coisas ou da própria identidade (Jeremias 16:18), ou por causa da cobiça que adultera e prostitui as relações sociais (Levíticos 18:26), ou ainda por causa da ira e ressentimento que derrama sangue nas ruas da cidade com violência (Números 35:33). Se a terra foi contaminada por causa dos seus habitantes, cremos que ela pode ser redimida pela forma como os redimidos caminham sobre ela, abençoados para abençoar todas as famílias da terra, até que Ele venha. 

Não podemos repetir o paradigma dos dias de Eli, que deixou como legado do seu serviço sacerdotal um neto chamado "Ecabode", que significa "Foi-se a Glória de Deus" (1 Samuel 2:26). Não queremos nos contorcer em dores de parto e dar à luz apenas vento, não trazendo nenhum livramento a terra (Isaías 26:18). Nos arrependemos por todo pecado de omissão, por tudo que não foi falado, nem feito, assim como nos arrependemos de tudo que falamos, pensamos e fizemos errado. 

Voltamos ao princípio de tudo, a origem, causa, finalidade, fundamento e legislação que sustenta todas as coisas, e então, nos deparamos com a estrutura original de Deus, como tudo foi criado para ser e nos deparamos com o que não somos mais. Diante do reconhecimento da própria impotência moral, reconhecemos o quanto precisamos da mediação reconciliadora de Jesus para com Deus, o próximo e à terra. Nos arrependemos e cremos na importância dessa conversão como testemunho do evangelho para todas as famílias da terra. 

Voddie Baucham Jr. no livro "Pastores da família" escreve algo que despertou profundo arrependimento em meu coração: "O problema é que a família está na mesma casa, porém, nunca dividem o mesmo espaço. Compartilham um endereço e um sobrenome, porém, não compartilham a vida". 

Descobri que a vida na estrada, viajando por tantos lugares,  pode se tornar uma fuga das demandas reais. Gasta-se tanta energia em ações descontinuadas, e como já disse em outro momento, na tentativa de ganhar o mundo, corre-se o risco de perder as bases que sustentam sua estrutura.

Quando o cultivar cuidador e o guardar zeloso da família é comprometido, a vulnerabilidade se instala nos corações, sem contar na saúde física, mental e espiritual que passam a dar sinais de esgotamento.

Sinceramente espero que de alguma forma, de tantas sementes lançadas, alguma semente tenha encontrado lugar para florescer, por que um é aquele que planta, outro é aquele que rega, e quem dá o crescimento é Deus (1 Coríntios 3:7). Contudo, entendo a importância de cultivar e guardar o jardim que Deus me confiou. Por isso, me arrependo por ter pecado contra minha casa, discípulos e amigos da localidade com minha ausência.  

Somos gratos a Deus pela oportunidade de recomeçar, por poder pastorear o coração da Andrea e das nossas filhas, somos gratos por nossa filha primogênita ter ouvido o chamado de Deus, ser enviada pela igreja local para estudar em uma escola bíblica e ter sua experiência missionária. Somos gratos por fazer refeições em família na mesa, pelos momentos que estamos vivendo juntos, pelas manhãs em oração com os irmãos na igreja, os encontros nas casas com as famílias, os encontros com os amigos no café. Somos gratos a Deus por nos proporcionar pastorear uma igreja de famílias missionárias. Somos gratos aos pastores de perto que tem cuidado na nossa família do lado de dentro. 

Quero com essas palavras encorajá-los a refletirem profundamente sobre a importância do culto familiar e a responsabilidade intransferível do discipulado dos filhos. Lembrem-se das palavras do salmista Asafe:

"Escutai, povo meu, a minha lei; prestai ouvidos às palavras da minha boca. Abrirei os lábios em parábolas e publicarei enigmas dos tempos antigos. O que ouvimos e aprendemos, o que nos contaram nossos pais, não o encobriremos a seus filhos; contaremos à vindoura geração os louvores do SENHOR, e o seu poder, e as maravilhas que fez. Ele estabeleceu um testemunho em Jacó, e instituiu uma lei em Israel, e ordenou a nossos pais que os transmitissem a seus filhos, a fim de que a nova geração os conhecesse, filhos que ainda hão de nascer se levantassem e, por sua vez, os referissem aos seus descendentes; para que pusessem em Deus a sua confiança e não se esquecessem dos feitos de Deus, mas lhe observassem os mandamentos; e que não fossem, como seus pais, geração obstinada e rebelde, geração de coração inconstante, e cujo espírito não foi fiel a Deus." (Salmo 78).

 

Você pode ouvir o 
Podcast dessa mensagem.

  

 

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Anderson Bomfim
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Natural de São Paulo, casado com Andrea Bomfim, Pai de Giovanna, Olívia e Pietra, Pastor na Igreja Local Mob em Curitiba-PR, Professor de Teologia na Plataforma Farol de EAD, Gestor da Mob Workspace de empreendedorismo missional e músico compositor.

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