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Espiritualidade Cristã e o Conhecimento Intelectual

Espiritualidade Cristã e o Conhecimento Intelectual

" A fé busca compreensão." - Anselmo de Cantuária

É de senso comum, no imaginário de círculos evangélicos, atribuir certo antagonismo na relação entre espiritualidade e intelectualidade, uma vez que esta última está diretamente ligada à faculdade da razão, que possui conotação negativa nestes círculos.

Nosso objetivo é oferecer uma contribuição para diminuir os preconceitos e mal entendidos que rondam essa relação que, se bem empregada, como outrora já foi, pode trazer desenvolvimento e ótimos benefícios aos cristãos evangélicos brasileiros.

 

Espiritualidade

Primeiramente, iremos iniciar abordando alguns conceitos básicos sobre esses dois temas. Assim, de início, a noção básica que podemos atribuir como conceito de espiritualidade cristã é aquela que envolve posicionamentos práticos sobre a vivência da fé e sua aplicação na vida diária. Não há muita necessidade de aprofundamento epistemológico sobre o assunto espiritualidade para o cristão, que a percepciona muito além de mera prática e liturgia, mas como a forma direta relacional de se apresentar em adoração ao Pai, marcando essa relação espiritual vital para o desenvolvimento da jornada com Deus. 

Seja na leitura e exposição das Escrituras, seja na oração, na prática do jejum e de cânticos de louvores a Deus, todo cristão deve estar ciente acerca da necessidade de desenvolvimento de uma relação espiritual saudável diante de Deus e da vida como marca da essência que constitui a própria pessoa do crente, a saber, um ser espiritual. 

 

Intelectualidade

Pensando, agora, acerca do segundo termo — o conhecimento intelectual — é um dos aspectos de constituição da pessoa humana, o fundamento ou critério humano para orientação da vida, em harmonia com uma conduta e um conhecimento, tidos como aceitáveis e universais.

É muito comum alguns cristãos atribuírem um antagonismo entre o aspecto espiritual e intelectual humano, tendo um julgamento que os coloca como excludentes.  Isso se torna evidente quando alguém se refere a uma pessoa que pensa e questiona muito como sendo alguém racional, com conotação negativa, visto a atribuição de “racional” significa ser alguém que não é espiritual, que não tem fé. 

A primeira coisa que podemos dizer sobre esse tipo de colocação é que não há fundamento legal para sustentar tal alegação, e que a mesma é oriunda de preconceitos e sofismas que foram incorporados no imaginário evangélico tanto por gente anticristã como por líderes cristãos mal informados. Muito se usa o texto de Colossenses 2.8 para desencorajar nos crentes o uso da faculdade da razão e do conhecimento humano que são apresentados como algo contrário à fé, o que distorce o sentido do texto através de um malabarismo semântico que reforça a atitude anti-intelectualista de muitas pessoas de fé.

Para nos certificarmos de que o apóstolo Paulo não estava advogando em favor do anti-intelectualismo, podemos atentar para a própria pessoa do apóstolo que, versado em conhecimento, a ponto de ser lavado aos filósofos do centro mundial do conhecimento da época, o Areópago, não tomou isso por vaidade, nem desmereceu o conhecimento daquela gente, mas colocou tudo sob o domínio de Cristo.

 

Tradição Intelectual

Outro exemplo para constatar a falsidade de tal pensamento anti-intelectualista, basta recorrermos a alguns textos de obras da história do pensamento da Idade Média que tenham o tema fé e razão em evidência para se perceber o quanto a harmonia entre esses aspectos humanos foi importante.

Étienne Gilson, importante e destacado filósofo católico e historiador da Filosofia, em sua obra A Filosofia na Idade Média, tem muito a dizer sobre a relação entre os dois temas.

Muito mais importante que a abordagem católica sobre espiritualidade e conhecimento para o cristão evangélico, é buscar seus fundamentos justamente no início da tradição evangélica, a Reforma Protestante, onde nos embates teológicos pelo critério da regra de fé, tanto reformadores quanto contrarreformadores fizeram uso combinado de aspectos da fé quanto da razão, campo de origem dessa relação espiritualidade e conhecimento.

É Richard Popkin, importante pensador acadêmico de nossa era, que nos informa em sua obra The History of Scepticism que a crise que deu início à Reforma não foi apenas uma crise espiritual, mas foi também uma crise intelectual, em que Lutero, no famoso Debate de Leipzig contra Johann Eck, ao questionar o critério da regra de fé e da autoridade católica, ele não apenas iniciou um debate de cunho religioso ou espiritual, mas também intelectual, epistemológico, deixando de ser apenas um problema religioso e se tornaria um problema sobre o critério do conhecimento na ciência a ser debatido pelos próximos 300 anos. Para Popkin, Lutero abriu uma Caixa de Pandora que ainda não foi completamente fechada.

A tradição intelectual evangélica, nos anos seguintes à Reforma, floresceu, construiu um legado e formou cristãos intelectualmente capacitados, que permearam todas as áreas das sociedades onde eles viveram.

Isso foi possível através de cristãos piedosos, espiritualmente engajados, mas também intelectualmente responsáveis.

Ter um intelecto atrofiado (subdesenvolvido) nunca foi, de fato, condição para ter uma espiritualidade fervorosa, pois Deus nunca nos pediu para matar nossa mente, nossa razão, Ele nos pediu para renová-la, para portá-la submissa a Ele. É o dualismo grego que tem levado cristãos a viverem a vida temerosos e fugindo dos espantalhos da razão que deseja destruir sua santa espiritualidade. Esse gnosticismo evangélico é um dos responsáveis por impedir que muitos cristãos façam a vontade de Deus aqui na terra assim como é no Céu. 

Herman Dooyeweerd, importante filósofo e jurista da tradição reformada holandesa, em O Crepúsculo do Pensamento Ocidental, denuncia as incoerências e a falsidade da chamada autonomia do pensamento teórico, aquela ideia aceita e alardeada, principalmente no campo científico, de que a razão é livre de influências da religião por ser supostamente autônoma.

Essa ideia é ensinada em nossas escolas e universidades como o mais sagrado dogma do cientificismo moderno, e assim, cristãos são doutrinados desde o princípio a viverem suas vidas no “mundo” com uma razão sem fé, sem religião, coisa que nas palavras de Dooyeweerd é impossível, visto que o coração, o centro religioso da vida de todo ser humano não permite tal cisão.

Tendo em mente essa colocação de Dooyeweerd, podemos dizer que o cristão tem a capacidade de ser tanto espiritualmente intelectual quanto intelectualmente espiritual, assim sendo, parafraseando o que dizia Agostinho, bispo de Hipona, que a fé aperfeiçoa a razão, e que todo cristão espiritualmente responsável tem a tarefa de aperfeiçoar e apresentar a serviço do Rei uma razão santificada para ser instrumento no mundo para glória de Deus.

 

Espiritualidade Responsável

Para o cristão, uma espiritualidade responsável, inteligente, é aquela que se apresenta diante de todas as facetas da vida na terra, tendo em Deus sua âncora firme que não se abala. Tenho por mim que o anti-intelectualismo tão comum nos círculos cristãos seja, na verdade, indício de uma espiritualidade frágil, incapaz de encarar questões sérias da condição humana.

Daniel, ao chegar à Babilônia, foi colocado em posição de governo por ser reconhecido sábio e intelectualmente capaz. É possível que muitos de nós não estejamos em posição para exercer governo, não porque não oramos o suficiente, mas porque somos intelectualmente medíocres, incapazes.

O tempo em que vivemos é um tempo onde o cristão deve se aprofundar em sua espiritualidade, desenvolvê-la com temor e zelo, se conectar com Pai e se apresentar como instrumento em Suas mãos. É um tempo para percorrer os caminhos das Escrituras, para fechar a porta do quarto e orar para que o Céu encontre a terra. Mas é tempo também de desligar a smart TV, de controlar o tempo diante da tela do smartphone, da Netflix, do Xbox e pegar um bom livro sobre “coisas dos homens” e estudá-lo, compreendê-lo, confrontá-lo e depois sair para ensinar outros.

 

Conclusão

É certo que, como bem disse o filósofo Antonin Sertillanges, em A Vida Intelectual, a intelectualidade como vocação não é para todos, mas para aqueles que ouvem o chamado. Porém, como responder a esse chamado sem se expor ao desenvolvimento intelectual? E mesmo que haja os não propensos a uma vocação intelectual, no mundo moderno, é preciso que os cristãos tenham capacidade intelectual desenvolvida em certo patamar, para que não sejam enganados por falta de conhecimento.

Nosso tempo precisa desesperadamente de cristãos espirituais que olham para o céu, que leem a Bíblia e falam com Deus, mas que também se voltem para os homens e estudem seus livros, leiam suas histórias e falem ao coração deles, na linguagem que eles compreendem. Esse tipo de crente poderá pastorear tanto nos templos, quanto em qualquer escola ou universidade, transformando uma educação idólatra e antropocêntrica em uma intelectualmente cristocêntrica. 

A Igreja de Cristo precisa, sim, de gente que lê a Bíblia, que jejua, ora e canta em adoração a Ele, mas ela precisa também que essa gente estude, que leia livros e pessoas e escreva, que abençoe outros, que seja capaz de ensinar ao mundo em escolas e universidades, que faça pesquisas, tecnologias e também poesia.

Esse é o mundo de Deus, esse é o chamado que Ele deu ao homem, desde o princípio, para desenvolver a terra e produzir cultura.

Educação

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André Ribeiro
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Casado com Christina Ribeiro, pai da Lana Joy e do Joshua Elias, missionário da Globe Mission Alemanha, cofundador da missão Voz que Clama em Niterói/RJ, possui formação em Teologia, Filosofia e Psicanálise atuando como professor.

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